O futebol é um desporto extraordinário. O jogo, em si, é simples, mas a dinâmica e a organização das equipas, são, por vezes, extremamente sofisticadas. Os treinadores actuais são grandes líderes, com conhecimentos abrangentes, desde as áreas especificamente técnicas do jogo, até às vertentes de gestão de grupos de trabalho, estratégia, motivação, psicologia. O nível de profissionalismo no desporto dos nossos dias produz atletas extraordinários, totalmente focados nas suas carreiras desportivas. O futebol, em particular, é hoje em dia uma indústria gigantesca, de escala planetária, geradora de receitas astronómicas e propiciadora de retornos multimilionários aos seus actores de topo.

Dito isto, o futebol continua a ser essencialmente um jogo de rivalidades e paixões, grandes jogadores e grandes jogadas, jogos épicos e vitórias sofridas, derrotas duras e títulos inesquecíveis. O futebol está, por isso, impregnado na sociedade. Faz parte do nosso dia a dia. Acompanha-nos em casa, nos escritórios e quando almoçamos fora. É tema de conversa, quando não temos nada de especialmente importante para partilhar ou queremos apenas arrancar com a conversa. O futebol une as pessoas.

O futebol é tudo isto. É importante. Mas não pode ser o mais importante. Há muita vida para além do futebol. Os pilares das nossas vidas serão outros, do bem-estar das nossas famílias aos nossos projectos pessoais e profissionais, dos cuidados com os nossos amigos às preocupações com o futuro do país onde vivemos.

É por isso que o futebol não deveria ocupar a esmagadora maioria dos horários nobres da esmagadora maioria dos canais de televisão em Portugal. Não deveria proporcionar a impressão de três jornais diários exclusivamente dedicados ao tema. Não é razoável que o final de um qualquer jogo para uma taça obscura, ocorrido a meio da semana, desde que jogado por um dos clubes grandes, seja gerador de diversos programas televisivos, em cima da hora, a dissecar arbitragem, viagem de ida e de volta da equipa, tácticas, entrevistas a jogadores e a técnicos, adeptos e curiosos. Não é razoável que os programas de futebol, recheados de comentadores, profissionais e amadores, curiosos e políticos, médicos e advogados, humoristas e músicos, se arrastem durante horas a fio a dissecar aspectos laterias do jogo, da “jogada do golo que foi precedida de fora de jogo milimétrico” ao árbitro que, com uma parcialidade no mínimo suspeita “não mostrou dois cartões encarnados claríssimos à equipa”… Estou convicto de que nenhum país europeu, do mais rico ao mais subdesenvolvido, comporta actualmente programas televisivos deste teor. O que será um recorde que não publicitamos, certamente.

Mesmo aceitando que as dificuldades económicas da generalidade dos canais televisivos em Portugal, aliadas à indigência da produção de um programa de hora e meia sobre futebol com três convidados curiosos, possam constituir a singela explicação para a profusão de programas dedicados ao futebol nos canais nacionais, é necessário fazer melhor. Todos temos responsabilidades: as televisões não podem apenas e só nivelar por baixo e nós não podemos deixar-nos adormecer pelo barulho dos golos.

À classe dirigente, ao governo, aos políticos de todos os quadrantes, interessa este adormecimento colectivo, esta hipnose que nos afasta a todos da discussão das mais variadas questões, essas sim, relevantes para a nossa vida colectiva: seja a declarada falência do Estado na disponibilização de serviços básicos de saúde às populações ou a estratégia para se poder aliviar o impressionante garrote fiscal sobre os contribuintes; seja a discussão sobre o modelo futuro de financiamento da segurança social antes que a falência surja, ou a criação de uma “task force” mandatada por Presidente, governo e assembleia para o estudo e agilização da redução do peso do Estado na nossa economia e, em última análise, na nossa vida colectiva.

O futebol deveria ser para nós, apenas e só aquilo que é racional que seja: um jogo, um desporto, a euforia dos golos marcados e a alegria da grande exibição da nossa equipa. A haver discussão, que ela seja sobre um tema: o que devemos fazer para encher os nossos estádios de espectadores? Porque sem espectadores não há espetáculos desportivos relevantes. Essa é uma discussão que talvez merecesse a pena dinamizar.

Gostamos mesmo do nosso futebol de estádios vazios e estúdios de televisão cheios de gente a discutir temas laterais ao jogo? Ou apenas não queremos ter a responsabilidade de nos confrontarmos com as questões importantes, quaisquer que elas sejam, e preferimos gastar o tempo a discutir trivialidades?

Se a resposta a ambas as questões é sim, o cenário é patético. Se é não, é preocupante.