Por outras palavras, o Governo equiparou as viaturas do IRA às usadas pelas polícias, INEM ou bombeiros, permitindo-lhes circular com estatuto de veículo prioritário, usar luzes de marcha urgente e também sirenes. Tudo isto, claro, em nome do resgate animal. E a partir do momento em que hoje se diz “animal” entra-se numa parte do discurso hipercontrolado. Há anos que os animais, sobretudo se mamíferos, passaram a ocupar o lugar que foi das crianças. Hoje nas clínicas veterinárias não nos perguntam se vamos tratar do nosso cão ou gato mas sim se vamos tratar “do menino” ou “da menina”. Também há os que falam de patudos e pets. Pelo contrário, a palavra dono tornou-se maldita. Gente que não dá uma colher de sopa a um familiar mais velho (ou mais novo) apanha as fezes dos cães na rua. Na verdade a afectividade para com os animais tornou-se mais natural e reconfortante que para com os humanos. Cuidar dum animal é um dever. Cuidar dum familiar uma responsabilidade insuportável.
Mas tudo isto são costumes. Outra coisa é aquilo que estamos a deixar passar entre estes costumes e a proverbial distracção perante as chamadas “causas fofinhas”. Esta equiparação das viaturas do IRA a veículos prioritários é uma dessas coisas a que deveríamos estar mais atentos. Existem certamente centenas de associações dedicadas às mais diversas e por vezes meritórias causas mas não é suposto nem desejável que andem por aí em marcha de urgência, com sirenes a tocar e luzes a acender quais forças policiais enquanto estão em acção.
Depois, e não menos importante, pelo menos para mim, não só não tenho a menor simpatia pelos métodos do IRA como me causa enorme espanto e às vezes indignação a tolerância de que têm gozado muitas suas acções que se não fosse estarem em causa animais, logo seriam rotuladas como violentas e inadmissíveis numa democracia: reportagens como “IRA. O grupo de durões que defende os animais de Lisboa e arredores“; “IRA, o grupo que pisa o risco pelo bem-estar animal” davam conta duma forma de actuar dum grupo de encapuçados que podia passar pela invasão de propriedade privada, sequestro dos animais e coacção sobre as pessoas. Mesmo a polémica suscitada por uma reportagem da TVI sobre a presença duma então assessora do PAN nesse grupo que actuava com máscaras nas operações do IRA e a possível ligação deste grupo de resgate animal à extrema-direita, esgotou-se rapidamente. (Espero que a recentemente aprovada lei da burca se lhes aplique e se acabe com o rosto oculto nestas operações).
Curiosamente, três semanas depois do anúncio feito pelo presidente do IRA, Tomás Pires, estamos perante uma espécie de facto administrativamente consumado pois enquanto a PSP diz não ter recebido “qualquer informação formal” sobre a autorização às viaturas do IRA para circularem em marcha de urgência e os bombeiros pedem esclarecimentos, ficamos a saber pelo PÚBLICO que o IRA foi reconhecido, em 2023, como organismo voluntário pela Protecção Civil pela Autoridade Nacional de Emergência e Protecção Civil (ANEPC) e que o IMT concedeu ao IRA “autorização para colocar, num veículo concreto, avisadores sonoros e luminosos especiais de cor azul de 18 de Setembro de 2025 até 18 de Setembro de 2028. O IRA só pediu autorização para um veículo, até ao momento, mas tenciona pedir para mais dois”
Na prática, em nome do bem estar animal passaram a aceitar-se situações que causam um verdadeiro mal estar humano.
Isto não é o Bangladesh. E o da Joana pode ser? O nome próprio Joana já foi mais popular do que é. Provavelmente até, o pico da sua popularidade aconteceu no tempo em que o MRPP, partido do dr. Garcia Pereira, o mesmo que agora quer ilegalizar o Chega, enchia as paredes deste país com slogans como “Morte aos traidores”. Mas seja como for, e tendo em conta a onda de indignação que vai no país com os cartazes do Chega onde se lê “Isto não é o Bangladesh”, recordo que está na hora de pensarmos como podemos reparar as Joanas, essas crianças que cresceram a ouvir a troco de tudo e de nada “Isto não é o da Joana!” (Para já não falar dos tempos em que um activista-cantor-filósofo atroava os ares com os acordes do “Joana come a papa”, coisa que a par do desenhos animados checoslovacos do Vasco Granja deve ter transtornado mais que uma geração.) Mas voltemos às Joanas ou ao Bangladesh, que para o caso vai dar ao mesmo: a Comissão Nacional de Eleições (CNE) pediu há dias ao Ministério Público para averiguar se existe incitamento ao ódio ou apelo à violência nos cartazes do Chega (além daquele onde se lê “Isto não é o Bangladesh” existe um outro com a frase “Os ciganos têm de cumprir a lei”). Ora estamos diante da mesma CNE que, em 2015, face às queixas apresentadas contra o cartaz do MRPP onde se lia “Morte aos traidores”, considerou não era necessário recorrer ao Tribunal Constitucional porque se estava diante duma metáfora. A CNE, além do seu fraco desempenho em episódios menos abonatórios como as trapalhadas na eleição presidencial em 2011 em que “mais de 42 mil pessoas tiveram problemas para votar“, ou os problemas com os votos dos emigrantes em 2022, está agora a procurar passar por entre os pingos da chuva, enviando para o Ministério Público os cartazes do Chega que nem sequer são metafóricos, como acontecia com os do MRPP. Pode gostar-se ou não, mas não é possível nem tolerável a sua condenação. Este frenesi criminalizador é certamente muito interessante para aqueles que o patrocinam e também para o próprio Chega que obviamente capitaliza com a sem razão de tal propósito, mas como isto não é o da Joana é melhor passarmos todos, a começar pela CNE, para assuntos realmente importantes.