Na primeira parte deste artigo vimos por que razão os partidos de direita deveriam recusar ser palcos de guerras culturais, evitar tentações ideológicas e procurar alinhar-se com o espírito do tempo presente. Em síntese, os partidos de direita, mais do que procurarem a imposição de um outro quadro de valores, alternativo ao da esquerda, deverão ter a sua acção assente na defesa da liberdade de cada pessoa viver como quiser. Sabemos como nestes tempos esta posição tem sido acusada por muitos de relativismo moral, mas tal não só é ignominioso, como é profundamente enganador.

Querer forçar, em nome de um projecto by design – de tipo taxis, voltando a Hayek – a sociedade a ser de determinada maneira costuma resultar em catástrofe. Oakeshott, insuspeito de esquerdismo, dizia que a conjugação de normatividade e idealismo redunda em tirania.

Talvez valha reconhecer que a humanidade nunca viveu tão bem como agora, nunca atingiu níveis generalizados de conforto tão elevados como agora. E isto foi politicamente possível graças às democracias liberais estabelecidas em Estados-Nação, ao livre comércio e à herança judaico-cristã. Uma boa síntese de alguns dos mais importantes valores das direitas, de resto. Mas é a acção conjugada da liberdade e da tolerância pela diferença, que encontramos também como peça essencial na roda motriz deste salto quântico. Foi assim que a direita das liberdades, no final da guerra fria, saiu vencedora.

Porém, sem embargo dessa vitória da direita, mas quiçá sobretudo graças à percepção das tendências – mais emocionais que racionais – que se vão descortinando nas sociedades, as novas direitas resolveram embarcar no discurso da emoção, num palco – o político – onde a razão deveria imperar. Dostoievski, no Crime e Castigo, bem declara que onde “a razão falha, o diabo ajuda”. O mesmo Oakeshott, em Rationalism in Politics and Other Essays, afirma que um homem com uma disposição conservadora percebe que, no negócio do Governo, a paixão inflamada deve ser contrariada com o ingrediente da moderação, por forma a restringir, diminuir, pacificar e reconciliar; não alimentando a fogueira dos desejos, mas amainando-a.

Mas o que é e para que serve, então, um partido? Se perguntarmos a Burke, este dir-nos-á que partido é um grupo de homens unidos para a promoção, através de seu esforço conjunto, do interesse nacional, com base em algum princípio determinado com o qual todos concordam.

Ora, isto é muito diferente de uma igreja com dogmas de fé, de uma tribo, ou de uma brigada moral; ainda que reconheça que alguns partidos, à esquerda e à direita, se comportem assim. Seja como for, um partido que não seja um single cause party, e que se queira útil, deve ser capaz de acolher diversas sensibilidades e dar resposta à multiplicidade de desafios que a sociedade moderna coloca. Para, então, através de um esforço conjunto, promover o interesse nacional, a partir de um princípio determinado com o qual todos concordem.

Dos partidos, as pessoas – com excepção de quem quer acertos de contas com a História ou de franjas mais radicalizadas ideologicamente – esperam respostas concretas, razoáveis e úteis para os seus problemas quotidianos e para as suas aspirações individuais e familiares futuras; não gritaria identitária e combates culturais extremados, como os que diariamente nos entram pelos olhos e ouvidos adentro.

Ora, num país onde a qualidade dos serviços na saúde, na educação e na justiça diminuem na mesma proporção que a carga fiscal aumenta. Num país onde os agentes de segurança, os professores e os profissionais de saúde são vítimas de violência, mas o Estado só robustece a sua autoridade na cobrança de impostos e na imposição de burocracia. Num país em que o elevador social não funciona e que as famílias se veem amarradas aos seus contextos de partida, não podendo escolher as escolas dos filhos, e amarradas às suas condições materiais, não tendo alternativas a um Serviço “Nacionalizado” de Saúde esgotado. Num país que olha com estupefacção e incredulidade as manobras nas altas esferas do poder judiciário e tarda em percepcionar que a corrupção, cancro da democracia liberal, é de facto combatido e punido. Num país profundamente assimétrico territorialmente, quer entre litoral e interior, quer entre centros e periferia, com graves problemas estruturais ao nível da mobilidade e dos transportes. Num país com uma das mais baixas taxas de produtividade de Europa, e um dos mais baixos PIB per capita da zona Euro. Num país com um défice demográfico tão soturno e sem pistas consistentes de promoção da natalidade.

Numa Europa em crise, económica e política, obstinada no seu centralismo e incapaz de endereçar respostas eficazes aos riscos que assomam nas suas fronteiras, e mais pobre agora com a saída do Reino Unido.

Num mundo onde as questões das alterações climáticas, da protecção dos dados pessoais, as novas relações de trabalho e a Inteligência Artificial colocam tantos desafios e oportunidades.

Num país e num mundo assim, a direita e os seus partidos têm tudo para se afirmarem pela positiva na defesa da síntese entre os seus valores e o espírito do seu tempo.

Num país assim, por exemplo, para um partido útil, de direita, a tão sonora proclamação da defesa da família, não é no juízo moral sobre a sua constituição que se expressa, mas na defesa da família às 7h00 da manhã de segunda-feira, antes de levar as crianças à escola, para depois apanhar transportes abarrotados, incertos no cumprimento do horário, e demorar uma hora para chegar ao local do trabalho. Ou às 23h40m de sábado, em Almada, com o filho a apresentar dificuldades respiratórias, e o Hospital Garcia de Orta com as urgências pediátricas encerradas, o hospital mais próximo em Lisboa, e o carro ainda na oficina, à espera do subsídio de férias para poder pagar a reparação (sem IVA, para ficar mais barato). Ou o tempo todo, com o avô gravemente doente e sem acesso a cuidados paliativos.

Seguir outro caminho, com outras motivações, e deixar sem resposta os anseios de uma vida melhor de pessoas e famílias, até pode encher um ou dois taxis ideologicamente conformes, mas claramente vira as costas ao cosmos e a um universo imenso de eleitores abandonados à sua sorte e entregues às consequências da sua abstenção.