“Sou levado a pensar que esta decisão política de não recondução de Joana Marques Vidal é talvez a mais aestranha tomada no mandato do Governo que geralmente é reconhecido como geringonça”. Foi com esta frase polida e aperfeiçoada ao detalhe que Cavaco Silva comentou a decisão de Marcelo Rebelo de Sousa, incluindo-o na geringonça. Marcelo acusou o toque e incapaz de estar calado, falou dizendo que quando já não for presidente não comentará ex-presidentes, deduzindo-se que o fará enquanto presidente.

Mas o mais interessante no comentário de Cavaco, e quando o ligamos as outras intervenções que proferiu sobre o actual estado das coisas do Estado, é o quanto as suas posições se tornaram contracorrente, anti-sistema. É certo que essa foi sempre a imagem de Cavaco, mas também é verdadeiro que, através dos seus dois mandatos com maioria absoluta, pa visão político-financeira que tinha do país se confundiu com este. Foi o artigo de Cavaco Silva sobre a boa e a má moeda que deu um golpe na credibilidade de Santana Lopes como primeiro-ministro, tal como foi o discurso da sua segunda tomada de posse, em 9 de Março de 2011, que abriu a porta para a queda de José Sócrates. Nesse dia, Cavaco Silva alertou para “os riscos dos grandes investimentos que não temos condições para financiar, que não contribuem para o crescimento da produtividade e que têm um efeito temporário e residual na criação de emprego”. Com esta frase, e outras incluídas no mesmo discurso, Cavaco enfureceu o PS e tornou-se num alvo a abater pelo sistema que usa o dinheiro público em prol de políticas que favorecem de modo particular certos sectores da sociedade em detrimento do país no seu todo.

Depois de Cavaco foi a vez dos partidos de direita. Nem Passos Coelho nem Paulo Portas estavam preparados para o que aí vinha quando assumiram as lideranças dos respectivos partidos. O choque foi profundo. E esta é a análise que poucos até agora fizeram: que a austeridade não afectou apenas o país, mas alterou também o PSD e o CDS, principalmente o primeiro. Digo o primeiro porque tanto um como outro foram influenciados pelo modo como os respectivos líderes reagiram às manobras de Costa em 2015. Enquanto Portas se afastou e profere agora comentários inócuos na TVI24, Passos manteve-se na oposição até esta se tornar insustentável e o seu único comentário político traduziu-se no artigo que escreveu para o Observador, e que consistiu num fortíssimo agradecimento a Joana Marques Vidal pelo seu trabalho enquanto procuradora.

Quer se queira quer não, as diferentes atitudes de Passos e de Portas perante a mesma situação marcaram os respectivos partidos e isso é evidente no aparente melhor aproveitamento que o CDS tem tido na actual situação política. Mas o que releva é que os dois, apesar de terem reagido diferentemente, conhecem agora bem o preço das políticas de esquerda. Sabem que estão a pagar politicamente por erros cometidos por outros, razão pela qual Rui Rio pode não passar de um mero interlúdio nesta mudança que se está a operar na direita.

Mas não foram apenas Cavaco, o PSD e o CDS que se tornaram anti-sistema. O próprio eleitorado de direita foi pelo mesmo caminho. Apesar de todos os ataques e críticas à anterior governação, feitas pela esquerda e fortemente ampliados na imprensa, PSD e CDS tiveram em 2015 mais de 2 milhões de votos. Mais que o PS. Este eleitorado manteve-se fiel porque sabia, sempre soube, que a receita aplicada daria frutos como está dar neste momento. Este eleitorado sabe, saberá sempre, que a política da geringonça tem custos que vão ser suportados por todos. Este é o eleitorado que não é contemplado com as benesses que Costa cirurgicamente distribui com o Orçamento de Estado, mas que paga a factura. É este eleitorado que, apesar de português, tem sido ignorado porque se tornou anti-sistema.

Em 1978, o PS não aceitou juntar-se ao PSD para combater o comunismo. Em 1978, não era crível que um ano depois a AD ganhasse as eleições com maioria absoluta com um programa de governo anti-sistema. Não era porque ninguém se deu conta que boa parte do eleitorado também era anti-sistema. Da mesma forma, e porque o que não se quis ver em 1978 não se quer saber em 2018, é impossível dizer-se o que vai acontecer em 2019.

Advogado