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Um ponto no espaço: é tudo o que basta. Um ponto, estático ou flutuante, qual sorvedouro de pensamentos onde centenas, milhares de dançarinas imaginações confluem num orgíaco banquete além-matéria. As ímpias dançarinas, a ritmo pagão, confundem-se para depois regressarem aos donos, à matéria, sob infinitas formas. A Meca do pensamento, tomando fantasias por peregrinos.

Um ponto no espaço: é tudo que o basta para criar uma escultura imaterial à imagem da Lo Sono de Salvatore Garau, vendida em leilão por 15 mil euros. O vazio “não é nada mais do que um espaço cheio de energia“, reivindica o artista.

Tendo assistido a grande parte da convenção do MEL, não me admiraria se uma semelhante dualidade fosse, também, reivindicada por artistas (ou filisteus) para o evento.

O vazio é irrefutável: a ausência de denominadores comuns programáticos foi, quiçá, a estrela da convenção. Na mesma linha, a falta de uma figura federadora capaz de colar essas ideias e, quando necessário, de as remendar. Além dos vazios, de pálidas presenças se foi montando a obra: a tibieza da oposição do PSD e a aparente apatia à volta do CDS, sem que mérito tenha faltado a intervenções indissociáveis dos dois partidos, como as de Joaquim Miranda Sarmento e Cecília Meireles.

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Não obstante, esta direita que a ritmo crescente se vai desconhecendo (e, com isso, cada vez mais conhecida se torna para os seus adversários) está longe de ser oca de ideias, como se pôde constatar no MEL, com primor para a abrangente matiz de temas constituintes da plataforma. Desde palestras e conversas mais técnicas, sobre assuntos historicamente domesticados pela direita (finanças, economia), até filões onde a prospeção é por demais incipiente e insuficiente (cultura de cancelamento, combate ao politicamente correto).

Um coro de críticas proveniente do espaço não-socialista acerca da ação sobre esses novos filões não se fez tardar, almejando higienizar a direita de toda e qualquer discussão subjetiva, que extravase a objetividade dos factos e a assepsia dos números.

Uma direita vegetariana, pronta a deixar um prato intocável acaso uma ínfima parte deste tenha, porventura, entrado em fugaz contacto com um bife. Uma direita com pejo de entrar no debate cultural, relegando-o, altivamente, para quem o está ma vencer e domar, assim como para quem se comporta como uma caricatura do que a reação a essa vitória deveria revelar.

A “ditadura do politicamente correto” é por essa ala vegetariana tratada como um objeto que em nada interessa ao cidadão comum. A mesma que amaldiçoa o populismo que da sua essência se apodera para construir eleitorado. Ora, é um jogo do qual, então, a direita moderada não poderá sair vencedora: ficando de fora, fica com a segurança de não perder, pois nada diz; nele participando, é automática a derrota, uma vez que são discussões alheias ao “português comum”: por todos conhecido, mas para o qual ninguém consegue falar.

A direita tem de adquirir uma voz clara e ressonante contra os grilhões que ameaçam a liberdade de pensamento, o último reduto para todas as outras. Uma voz que não se predisponha a ficar refém de outras menos moderadas, hábeis no entrelaçar dessa luta com outras distintas, manipuláveis ao ponto de como tal não se afigurarem.

Um exemplo. Não tivera, ainda, Nuno Palma terminado a sua análise e já o horror, o impensável, a apologia do fascismo se metastizava nas redes sociais: no centro de congressos de Lisboa ovacionava-se o Estado Novo.

A campanha de difamação difundiu-se furiosamente, tentando até atingir a carreira do académico (já estamos nesse confrangedor ponto … os rebates não chegam, nem mesmo os insultos, são necessárias as queixinhas). Embaraçosamente, Pedro Marques, nosso eurodeputado, não se coibiu de participar. Por carência de compreensão ou calculismo político? Talvez revelando um nível de cinismo acima do recomendável, confesso que prefiro a segunda opção: pessoas em cargos de responsabilidade que se regem por uma estratégia – a qual posso adorar ou repudiar, indiferente –, ao invés de apenas demonstrarem falta de capacidade. Venha o maquiavélico opositor ao dócil incompetente.

A velocidade com que Nuno Palma foi vilipendiado reflete o porquê de, para a direita, ser uma questão de sobrevivência bater-se pelos símbolos, pelas metáforas e demais figuras de estilo que colorem o nosso quotidiano. Pelo direito a ser proprietária da sua subjetividade, sem receios de hipotéticas contaminações, e pelo prazer e alento de ser o contraditório da claustrofobia com que que os arautos do cancelamento rarefazem o ar que respiramos.

Não deixarão de se fazer ouvir as críticas ao vazio que ensombra a direita. Vindas dos vegetarianos, que não querem ver a sua dieta política desvirtuada, ou dos que sobrepõem o vazio – a falta de um programa, hoje arregimentado ao redor da contestação ao governo em (des)funções (o que, pelo menos em Israel, parece um programa suficientemente viável) – ao poder criativo da página em branco.

Também os há os que, como eu, olham com esperança para o vazio, nada mais do que um espaço cheio de energia. Bem difícil o exercício, é inegável: o líder da oposição, em vez de encarar e moldar este vazio, nega a sua existência e distrai-se a falar das moscas que cruzam este ponto; André Ventura, entre gritos, drama e histrionismo, apressa-se a materializar algo que a tantos não agrada, arrogando-se o único escultor da sala.

No fundo, tudo se resume ao seguinte: o relógio não pára, os milhares de milhões da bazuca em breve chegarão e poderão empolar ainda mais o PS. Até que ponto precisaremos de ver materializada a energia deste imaterial vazio? Para quando o acordo que confirme a passagem deste nada, deste ponto inexistente num concorrido espaço, a tudo? A escultura existe ou não existe?