Foi com uma mistura de surpresa, indignação e apreensão que a Europa política, reagiu à publicação da Estratégia de Segurança Nacional dos EUA. As três páginas que o documento dedica à “questão europeia” foram as que mais deram que falar. Mas, comparando com a Estratégia de Trump de 2017, não se pode dizer que haja ali, na substância, grandes novidades. Ou já nos esquecemos da razão por que, na Europa da época, foi tudo a correr para a “Cooperação Estruturada Permanente”, que acabou por se revelar, na melhor das hipóteses, uma ilusão, e, na pior, um embuste? Fora a diferença cronológica, a grande inovação conceptual da geoestratégia trumpista está noutro aspecto. Refiro-me ao “corolário Trump” da ressuscitada Doutrina Monroe.
Em 1823, a jovem república americana ainda lambia as feridas de uma humilhante guerra com o império britânico que vira as tropas inglesas incendiarem a cidade de Washington, incluindo a residência do chefe do Estado. O Secretário de Estado de então, James Monroe, tornara-se, entretanto, Presidente da União e enviava a sua mensagem anual ao Congresso. Lá pelo meio do texto, expunha uma novíssima e atrevida estratégia americana. Saída da cabeça do seu Secretário de Estado, e futuro Presidente, John Quincy Adams, não se tornou imediatamente “doutrina” do Estado americano. Mesmo nas décadas seguintes, as tentativas no Congresso para operar tal promoção foram sempre derrotadas. A América era ainda uma pequena e frágil república de cariz agrário; era o império britânico quem mandava nos dois oceanos. Contudo, nada fez mais por delinear um lugar geopolítico no mundo para os EUA do que essas linhas. Foi a explicitação da vontade de construir, mais do que uma “esfera de influência”, uma hegemonia e um império.
No seu enunciado, o que viria ser a Doutrina Monroe reflectia a ansiedade e a fragilidade americanas. Havia a preocupação crescente de que Portugal e Espanha, depois de ver perdidas as suas possessões nas Américas, quisessem reavê-las. Eram numerosos os rumores de que a Santa Aliança, uma vez contidas as ondas de choque da Revolução francesa no continente europeu, ajudaria a Espanha a derrotar as revoluções independentistas na América. Como se não bastasse, os EUA, que ainda não tinham chegado ao Pacífico, mas era já nesse oceano que punham os seus olhos, receavam que os Russos e, sobretudo, os Britânicos os antecipassem na colonização do noroeste americano. Era preciso uma acção retórica preventiva que criasse um novo estado geopolítico de coisas. Se havia, na década de 20 do século XIX, poder militar americano para suportar as proclamações, era problema que ficaria convenientemente adiado.
E o que proclamaram os Americanos? Inventaram uma nova divisão cartográfica do mundo. Aos familiares hemisférios norte e sul, cortando o mundo latitudinalmente pelo meio, o governo americano avançava para cortar o mundo ao meio longitudinalmente. Assim se criaram os hemisférios ocidental e oriental. O primeiro incorporava todo o continente americano e o Oceano Pacífico. O segundo abrangia os restantes continentes. No fundo, os Americanos imitavam Portugueses e Espanhóis, que pouco mais de 300 anos antes tinham dividido o mundo traçando meridianos no Tratado de Tordesilhas (e de Saragoça) segundo as suas conveniências geopolíticas.
Por sua vez, os Americanos acrescentaram um elemento novo à divisão do mundo. O hemisfério deles era jovem e republicano. O dos Europeus (e restantes povos) era velho e despótico. O mundo americano era o futuro e o progresso. O europeu a corrupção e a decadência. Foi assim, com uma combinação de vontade de império e de zelo republicano, que os Americanos declararam que o hemisfério do Ocidente estava interdito às colonizações e jogos de poder dos Europeus.
Os EUA arrogavam-se em defensores das liberdades republicanas de todos os países americanos, sem que nenhum deles lhe tivesse encomendado o favor, nem que as consciências americanas revolucionárias ficassem demasiado sobressaltadas por haver um “imperador” a mandar no México e outro o Brasil. Fosse como fosse, a expansão europeia tinha agora que se confrontar com o porteiro da casa “ocidental”. Ninguém podia correr mais depressa dos que os pioneiros americanos lentamente a caminho do Pacífico para cumprirem o Destino Manifesto da nova nação – from sea to shining sea. E ninguém podia atrever-se a reverter as independências que tinham sacudido os impérios portugueses e espanhóis na região. Em contrapartida, os Americanos comprometiam-se a ignorar as guerras e lutas pelo poder das potências europeias. Nem seria parte de nenhuma aliança, nem se intrometeria na política interna dos Estados do velho continente. Os EUA teriam uma política externa estritamente defensiva. Como John Quincy Adams avisara dois anos antes, a jovem república americana, defensora dos direitos naturais dos indivíduos, estaria de alma e coração com todos os povos que se quisessem emancipar das trevas, seguindo o seu próprio exemplo, mas não iriam para o estrangeiro “à procura de monstros para destruir”.
Em contrapartida, a Doutrina era clara: se os Europeus pusessem os seus pés subversivos em qualquer parte do continente ocidental, os EUA responderiam em defesa dos valores republicanos. Primeiro, o continente americano tinha de se tornar seguro para a república; só mais tarde, com Wilson já na Primeira Guerra Mundial, é que a ambição se tornaria global: aí seria o mundo inteiro a carecer de protecção dos EUA para se tornar “seguro para a democracia”.
No início do século XX, a Doutrina teve o seu “corolário Roosevelt”, que ameaçava com a intervenção militar, com certeza, em qualquer ponto do território do continente onde a ordem republicana, ou o pagamento de dívidas aos americanos do norte, estivesse em causa. Agora, no início do século XXI, o novo “corolário” Trump adverte para a intervenção americana sempre que urja evitar a influência e as garras de outras potências, leia-se, a China, no hemisfério Ocidental.
Com a Doutrina Monroe, Trump tem quase tudo o que quer. Fustiga os neoconservadores e liberais internacionalistas que andaram nas últimas décadas em cruzadas pela implantação da democracia nos outros três cantos do mundo. Faz a conversão de quaisquer propostas de alianças em cálculos prudenciais, segundo a presunção de que a república americana não se deve afligir com o carácter ético e ideológico das potências com as quais tem de lidar. Expulsa a China do seu “quintal” indispensável para a reconstituição das cadeias de abastecimento. E ainda serve para acusar o velho continente europeu de corrupção, tirania e decadência. Pelo caminho, recupera, para gáudio do mosaico ideológico do movimento que Trump agrega, a confiança na pureza da missão histórica americana. Quincy Adams, invocando o velho sermão de um dos primeiros colonos britânicos do século XVII, teimava em ver na América “um farol no topo da montanha, para o qual os habitantes da Terra podem virar os olhos em busca de uma luz genial e salvífica”. Só que, desta vez, os ideólogos de Trump esperam que os “habitantes da Terra” não queiram ir a correr imigrar para lá.