Manifestações e protestos, vigílias e manifestos abundaram a respeito de Gaza. Foi-nos infligida toda uma flotilha de barcos de recreio a fingir que iam levar ajuda humanitária aos civis palestinianos vítimas do fogo cruzado entre o Hamas e Israel. Mostram que, ao contrário do que dizem, há muitos europeus que sentem, como eu também sinto muito o sofrimento dos palestinianos. Mas sempre resisti à ideia de que a Europa – com mais ou menos protestos – poderia ter um papel decisivo nesse conflito, que não o teve, comprova-o o cessar-fogo, frágil mas indispensável, em Gaza, que foi negociado, sobretudo, pelos países da região e pelos EUA. Também não aceito a ideia de que Gaza é um conflito esquecido. Há outros 60 conflitos armados espalhados pelo Mundo, quase todos têm muito menos visibilidade do que Gaza. O Sudão à custa de massacres visíveis do espaço tem, agora, um pouco mais de atenção, mas sem manifestações que se comparem. É legítimo perguntar, porque não?

Gaza é um dos territórios mais pequenos do Mundo. Já o Sudão é o terceiro maior país de África. Os mais de 50 milhões de sudaneses estão, desde 2023, a braços com uma sangrenta guerra civil, a terceira que enfrentem desde a independência, em 1956. Na verdade, este país do Sahel teve apenas 10 anos de paz, e ainda menos de governação civil democrática, tendo passado por seis golpes de estado vitoriosos. Esta é uma guerra que já causou, pelo menos, 150.000 mortos, e 12 milhões de deslocados, seis vezes a população total de Gaza. Onde têm estado todos estes militantes tão preocupados com crises humanitárias?

Não duvido, repito, que muitos europeus estão verdadeiramente chocados com a situação humanitária em Gaza. Eu também estou. Mas é evidente que os promotores dos protestos relativamente a Gaza por essa Europa fora, foram bem para além dessas preocupações ou críticas legítimas. Uma parte importante representa a tentativa de regresso do Terceiro-Mundismo, que usando a defesa dos descamisados globais, procura combater os regimes liberais e a acusar a Europa livre de ser a culpada de todos os males do Mundo. Ora, as guerras no Sudão ou na Ucrânia não lhes são de grande serventia.

A guerra na Ucrânia é, por vezes, usada pelos que tentam passar a ideia de que só tem visibilidade por as vítimas serem europeias. Como se fosse ilegítimo acompanharmos com mais atenção uma guerra no nosso continente, que pode ameaçar-nos diretamente. Ignoram ou escondem o facto de este ser o conflito armado mais mortífero do Mundo, em 2024. E se a maioria das baixas é de militares, isso é porque Kiev dá prioridade a tentar proteger os seus civis e concentra os seus ataques em alvos bélicos russos. Nem o facto de ser abertamente uma guerra de conquista pela Rússia, um exemplo público de imperialismo sangrento, mobiliza muitos destes supostos militantes anti-imperialistas.

O Sudão também não serve facilmente os que querem explorar o filão da culpa universal ocidental. Apesar de ser um conflito em que foram documentados mais de 1400 crimes de guerra em que os ex-Janjaweed, rebatizados de Forças de Apoio Rápido, massacram africanos, gritando slogans islamistas e racistas. Estas forças contam, sobretudo, com o apoio da Rússia ou dos Emiratos Árabes Unidos. É, portanto, difícil culpar o Ocidente do que por ali sucede. Não quer dizer que não tentem, fazem-no com a ideia de uma culpa por associação por via dos Emiratos Árabes Unidos, como se o país não tivesse, também, boas relações com a China ou a Rússia, esta última uma aliada no cartel do petróleo. Como se o Ocidente fosse culpado pelo que fazem todos os países com que faz negócio, ou pudesse dar ao luxo de importar petróleo e gás apenas da exemplar Noruega. Porque é, essencialmente, disso que se trata para muitos destes organizadores e militantes: culpar a Europa livre por todos os males do Mundo, exigir que resolva todos os problemas globais, e, de caminho, para nos purgarmos dos pecados original de nascermos europeus, querem impor-nos os dogmas desta seita.

Quais são os problemas da cartilha Terceiro-Mundismo? Desde logo vem de um velho e gasto marxismo, apesar de, ironicamente, muitos jovens papaguearem o respetivo catecismo como se fosse uma grande novidade e não tivesse falhado uma e outra vez. É má História, que ignora a complexidade e nuance do passado em nome de um maniqueísmo politicamente motivado. O colonialismo ocidental, com a sua inegável quota-parte de violência e injustiça, é apresentado como algo de único: como se os impérios não fossem a regra na história global durante os milhares de anos em que imperava direito de conquista, ou como se os europeus não fossem também, por vezes, vítimas do imperialismo e do esclavagismo. Os europeus seriam os grandes culpados do que se passa em Gaza porque os britânicos conquistaram e governaram a Palestina entre 1917 e 1948. Mas porque não culpar os otomanos que decidiram declarar guerra aos Aliados, em 1914, o que as levou a perder Palestina e o resto dos territórios árabes que ocupavam desde o século XVI? Porque não culpar os Estados árabes e os líderes palestinianos que, em 1948, recusaram a solução de dois Estados, proposta pela ONU e apoiada pelos britânicos? O Sudão foi colonizado pelos britânicos? Sim, é verdade. Mas os britânicos fizeram-no em conjunto com os egípcios, o Sudão era um condomínio. E os britânicos apenas estiveram por lá poucas décadas, e foi Londres que forçou o Egipto a aceitar a independência sudanesa, do Cairo queriam continua a governar o território, como tinham feita inúmeras vezes ao longo da história. Sempre que o estado egípcio se reforçava conquistava a região sudanesa para explorar os seus recursos e escravizar a sua população.

O terceiro-mundismo é, sobretudo, uma péssima análise da atualidade. Os terceiro-mundistas passam a vida a atacar um colonialismo morto, mas manifestam uma mentalidade neocolonial doentiamente eurocêntrica; agem, manifestam-se como se a Europa ainda fosse o centro do Mundo e pudesse facilmente impor a sua vontade. Isso nunca foi verdade, hoje ainda é menos o caso. A Europa tem dificuldade em fazer-se ouvir no palco global, quanto mais em impor soluções em situações de guerra. No Sudão, tal como em Gaza, o cenário mais provável para um cessar-fogo será uma negociação envolvendo, sobretudo, vários países da região – como os Emiratos e o Egito – bem como os EUA.

Podem-me perguntar porque não me mobilizo eu pelo Sudão? Eu não tenho apetência por militâncias, ou manifestações. Não gosto muito de multidões, sobretudo quando acabam, demasiadas vezes, a gritar slogans de grupos terroristas. Faço análise e comentário, em nome próprio, e há anos que aponto para a situação no Sudão, e falo de outros destes 60 conflitos armados, onde se verificam situações humanitárias graves, como Haiti e a Nigéria, o Congo e a Birmânia. Também tendo a não acreditar na eficácia desse tipo de manifestações nesta Europa com influência global limitada, em particular quando estamos a falar de conflitos armados. Significa isto que os europeus devem desistir dos seus valores e princípios? Não, mas precisamos de olhar para o Mundo de forma mais realista. Devemos, desde logo, dar prioridade a defender melhor o nosso continente, reforçando o investimento em defesa para dissuadir agressões e para termos mais credibilidade global. E temos de nos deixar de pregações, uma diplomacia europeia assente na culpa – nossa e alheia – não será eficaz, será uma prenda dada às grandes potências ditatoriais como a China ou a Rússia.