Desde o 25 de Novembro que há dois “25 de Abril” em Portugal. Aliás, só há dois por causa do 25 de Novembro. O “25 de Abril I” foi o golpe de Estado que acabou com um regime autoritário e permitiu construir uma democracia. Todos os democratas em Portugal, do PS à direita, celebram esse 25 de Abril. Por causa dele, vivemos em liberdade. Sem ele, não seríamos o país que somos; a nossa vida seria bem pior. Mas, muito mais importante do que celebrá-lo, é defendê-lo.

Depois, há o “25 de Abril II”, daqueles que não gostam da liberdade. Para esses, as extremas esquerdas, do Bloco ao PCP, o 25 de Abril foi o início de uma revolução para substituir uma ditadura por outra que teria sido muito mais violenta. Para estas esquerdas, 1974 em Portugal deveria ter sido como 1917 da Rússia. Eles nunca quiseram construir uma democracia em Portugal, nunca desejaram um país livre. Queriam apenas chegar ao poder para impor uma nova ditadura aos portugueses. Essas esquerdas continuam a celebrar Lenin e Trotsky, os Pais Fundadores de uma das ditaduras mais brutais que existiu na Europa no século XX. Se eles tivessem chegado ao poder, nunca mais votaríamos, não haveria opinião livre (por exemplo o Observador não existiria), não haveria propriedade nem empresas privadas (a SIC e o Expresso, que hoje são os grandes instrumentos de comunicação de Louçã, não existiriam se Louçã algum dia fosse PM de um governo maioritário do Bloco).

Em Portugal, para se construir a democracia, não foi suficiente derrubar o Estado Novo, depois foi necessário derrotar o comunismo e as extremas esquerdas. Assim, o “25 de Abril II” começou a ser derrotado com o 25 de Novembro e depois com a primeira maioria absoluta da AD. A vitória eleitoral da direita democrática foi o momento em que os portugueses disseram que queriam uma democracia liberal e não um regime totalitário comunista. Mas a morte da possibilidade de uma ditadura de esquerda aconteceu com a adesão europeia em 1985. Quando o PS de Mário Soares escolheu a Europa colocou-se ao lado da direita democrática, contra as esquerdas totalitárias.

A escolha pela Europa, pela democracia liberal, pelos direitos e liberdades dos portugueses e pela economia de mercado não foi uma consequência natural do 25 de Abril. Foi uma vitória política contra os seus adversários, contra o PCP e contra aqueles que se juntam hoje no Bloco. Por isso mesmo, essas esquerdas são contra o Euro e contra a integração europeia. É fundamental que alguns sectores na nossa direita, mais cépticos em relação à União Europeia, entendam que a Europa é o seguro de Portugal contra uma ditadura das esquerdas.

O PS foi crucial na vitória da liberdade europeia contra a ditadura Marxista. Por isso, muitos democratas viram com preocupação a geringonça e a aliança do PS com os Marxistas anti-europeus. Tal como Janus, o PS tem duas caras, uma europeia e uma jacobina. A primeira afasta-o das extremas esquerdas, a segunda aproxima-os. Celebram o 25 de Abril juntos, mas depois separam-se quando precisam de governar de acordo com as regras europeias. Nas celebrações do 25 de Abril há um lado quase patético. Todos nós sabemos, e o PCP e o Bloco ainda sabem melhor do que nós, que também estão a lamentar uma derrota: a derrota da ditadura Marxista. Nesse sentido, a celebração do 25 de Abril pelas extremas esquerdas é uma contradição: é muito estranho ver os que mais ameaçam a liberdade dos portugueses, a celebrar o “dia da liberdade”.

Mas ninguém tenha ilusões. O PCP e o Bloco continuam a ser partidos totalitários, e nunca mudarão. Enquanto estiverem sozinhos, os portugueses podem estar descansados. Se um dia a face jacobina do PS derrotar a sua face europeia, então tudo se torna perigoso. De certo modo, o PS é um micro retrato da democracia portuguesa: é a Europa que o separa da ditadura jacobina. Mas a tensão entre as duas faces e a tentação pelos abusos do poder fazem parte da genética socialista. Por isso, devemos estar sempre vigilantes. Ainda mais em tempos de crise.