Há dias que parecem concentrar décadas de História. O que está a acontecer entre Washington, Moscovo e Kiev não é apenas mais um episódio da guerra na Ucrânia; é o reflexo das fraturas de um mundo onde a palavra “aliança” começa a perder significado. Donald Trump, num misto de pragmatismo e cinismo, está a redesenhar a política externa americana com a pressa de quem quer deixar uma marca — mesmo que essa marca seja feita sobre os escombros de um país em guerra. Volodymyr Zelensky, outrora celebrado como o herói de uma resistência improvável, é agora chamado de “ditador sem eleições”, enquanto a Europa assiste entre o desalento e a perplexidade a um jogo onde as palavras pesam menos do que o sangue derramado nos campos de Donetsk.

O Teatro das Máscaras Caídas

Trump não inventou a arte da provocação, mas fez dela uma estratégia de governo. Ao telefonar para Vladimir Putin antes de falar com Zelensky, não só inverteu a coreografia diplomática como expôs uma verdade desconfortável: para Washington, a Ucrânia já não é um aliado, mas um ativo negocial. As exigências de concessões territoriais, a pressão para adiar a adesão à NATO e a proposta de exploração dos recursos naturais ucranianos revelam um cálculo frio. “Um comediante modestamente bem-sucedido”, disse Trump sobre Zelensky, como se a resistência de um povo inteiro pudesse ser reduzida a um sketch de mau gosto.

Zelensky, claro, não é imaculado. A suspensão das eleições sob lei marcial deu munição a quem o acusa de autoritarismo, mas qual seria a alternativa? Fazer eleições em pleno bombardeamento, com um quinto do país sob ocupação? A acusação de “ditador” torna-se ainda mais absurda quando vem de quem elogia Putin, um líder que há décadas sufoca qualquer oposição. A Ucrânia não é a Rússia, mas Trump parece decidido a tratá-las como se fossem peças equivalentes num tabuleiro onde Kiev é a mais descartável.

A Solidão de Quem Esperou Demais da América

Uma imagem continua a pairar na memória: Zelensky, em 2022, a discursar no Congresso americano, vestido com o seu habitual uniforme verde-oliva, a pedir ajuda com a voz embargada. Os EUA responderam com armas, dinheiro e promessas. Três anos depois, o mesmo Zelensky é acusado de ter feito “um trabalho terrível”, como se a resistência ucraniana fosse um fracasso pessoal e não um ato coletivo de sobrevivência.

A mudança de Trump não é apenas uma alteração de estratégia; é a aceitação de uma realidade: os EUA estão cansados de ser o “polícia do mundo”, mas esquecem-se de que, por vezes, ser polícia significa impedir que os mais fortes esmaguem os mais fracos.

A Europa, por sua vez, nunca quis partilhar esse fardo de forma significativa. Mas a resposta não pode ser substituir a solidariedade por ultimatos. A ideia de enviar tropas europeias para a Ucrânia sem sequer consultar Kiev parece mais um gesto de desespero do que um plano concreto. Emmanuel Macron e Olaf Scholz falam de “soberania europeia”, mas como se constrói soberania sobre os escombros de um aliado? Zelensky já foi claro: “Não posso vender o meu país.” A questão agora é saber se, em Bruxelas e Washington, ainda há quem se preocupe com o preço moral dessa venda.

O Preço do Ceticismo

Trump diz que “só ele” pode negociar a paz. Mas que paz seria essa? O esboço do acordo entre os EUA e a Rússia, revelado por The Telegraph, prevê eleições na Ucrânia supervisionadas por Moscovo — um cenário que transformaria Kiev num Estado-fantoche, forçado a escolher entre a rendição e a aniquilação. Não é um tratado de paz; é uma capitulação disfarçada de diplomacia.

E, no entanto, até alguns dos aliados da Ucrânia começam a hesitar. Nos bastidores, ouve-se cada vez mais um sussurro incómodo: “Talvez seja melhor baixar o tom.”

Aqui está a verdadeira tragédia: após três anos de resistência, a Ucrânia não está apenas a ser encurralada pela força militar da Rússia, mas também pelo cansaço do Ocidente. As palavras de Trump refletem o que muitos já pensam, mas poucos dizem em voz alta: “Até quando vale a pena sacrificar-se por um país distante?”

A resposta, porém, não se encontra nos cálculos geopolíticos, mas sim na memória de Bucha, de Mariupol, das crianças deportadas para a Sibéria. Esquecer isso não seria apenas trair a Ucrânia, mas também a ideia de que há fronteiras que não se negociam.

O Que Resta da Fé

A Ucrânia não quer ser mais um capítulo na longa lista de países vencidos pela História. Zelensky, goste-se ou não, tornou-se o símbolo de um povo que insiste em existir. Trump, com a sua retórica de deal-maker, reduz tudo a transações. Mas há coisas que não têm preço: a dignidade, a soberania, o direito a não viver à sombra de impérios.

A mudança na política americana não é apenas uma questão estratégica — é um teste à consciência do Ocidente. E se falharmos, não seremos apenas cúmplices de uma tragédia. Seremos algo pior: espectadores que, no fim do espetáculo, aplaudem o carrasco.