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O que fazer com o Chega? Como devem os partidos estabelecidos lidar com um partido novo, cujo destino, nesta fase, parece ser o do crescimento? Ao contrário da maioria das pessoas que tem vindo a terreiro opinar sobre a melhor maneira de lidar com o Chega, tenho dúvidas. Quanto mais literatura académica leio sobre o tema, com mais dúvidas fico. Felizmente, os tudólogos que pululam o espaço público não têm de se preocupar com as análises que se vão fazendo sobre como lidar com a direita radical. Falam de epidemiologia, a paz no Médio Oriente, a política do presidente Xi, gestão hospitalar e políticas de saúde, as eleições americanas, ou o legado de Angela Merkel da mesma maneira. Sempre com totais certezas e omnisciência. Abençoado o país que tem a sorte de ser pastoreado por tão douta gente.

Antes de falarmos sobre o Chega, é preciso perceber o contexto de competição partidário no qual este emergiu. Desde 1975, que o eixo de competição partidária em Portugal se centra na clivagem entre partidos do sistema (PS, PSD e CDS) e anti-sistema (PCP e BE). Em 2015, para se salvar de uma derrota absolutamente humilhante, António Costa recentrou este eixo de competição. A partir de então, afirma o Primeiro-Ministro, todos os partidos tinham igual legitimidade para participar plenamente na vida política nacional. O cordão sanitário, habilmente montado por Soares para garantir que partidos de origem estalinista, absolutamente infrequentáveis, não tivessem capacidade de aceder ao poder, estava quebrado. Em meados de 2020, já com a crise pandémica instalada, Costa voltou a reiterar que, para efeitos de Orçamento do Estado, apenas negoceia à esquerda, alienando o PSD, parceiro natural com o qual, de resto, o PS construiu a democracia portuguesa como hoje a conhecemos.

A mudança dos padrões de competição operada por António Costa tem consequências para as dinâmicas internas no bloco da direita. Ao quebrar, pelo menos retoricamente, a possibilidade de governação e negociação inter-blocos, António Costa contribui para uma polarização entre os blocos da esquerda e da direita. Agora, cada bloco tem de ser auto-suficiente, não só para chegar ao poder, mas para manter-se lá. De acordo com o novo paradigma da política portuguesa, haveria uma rotação entre os dois blocos. O PS seria o pivot de uma grande coligação, tácita ou formal, de esquerda. O PSD seria o pivot de uma coligação, de resto já clássica, com o CDS-PP.

Em 2019, surge o Chega, criando um enorme problema à direita portuguesa. Com as actuais dinâmicas eleitorais, parece ser impossível que PSD e CDS consigam, deixando o Chega de fora, atingir o número mágico de 116 deputados na Assembleia da República. O PSD fica, pois, confrontado com um dilema.

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Por um lado, pode simplesmente desistir de atingir o poder, assumindo a total mexicanização do poder, com o PS a perdurar na liderança do Executivo, uma vez que, sendo sempre minoritário com o CDS, o PSD nunca mais conseguiria chegar a São Bento. Por outro lado, pode responder aos incentivos criados por Costa e usar toda a força eleitoral à direita para criar uma alternativa.

Felizmente, o atraso endémico de Portugal permite-nos olhar para os restantes países europeus, onde estes dilemas se colocaram há mais de uma década, para perceber quais as causas e as consequências da entrada do Chega no clube dos partidos com pleno direito a influenciar as políticas públicas. A literatura académica sobre os efeitos dos partidos de direita radical na competição partidária tem muitas dúvidas e algumas (poucas) certezas.

Em primeiro lugar, a estratégia de acomodação dos partidos de direita radical leva, a prazo, ao seu enfraquecimento. Isto é, os partidos dominantes conseguirão o esvaziamento dos partidos de direita radical. A estratégia adversarial conduz a um crescimento galopante dos partidos de direita radical. Corremos, naturalmente, o risco de, sendo impossível fazer oposição/influenciar as políticas públicas dentro do sistema, só restar a oposição ao sistema. Cada uma destas estratégias tem, naturalmente, custos. A estratégia de acomodação, esvaziando a agenda dos direitos de direita radical, tem como mecanismo a capacidade dos partidos de direita mainstream adoptarem algumas das posições ideológicas do partido de direita radical.

O problema do Chega é que, alas, não tem a mínima densidade ideológica. Ao contrário dos seus congéneres europeus, alicerçados em movimentos de grassroots, muitos deles saudosistas de regimes pouco recomendáveis, o Chega é um one-man show. O que há no Chega para ser absorvido pelo PSD? Bem, para além do estilo popularucho de André Ventura, desenvolvido em noites e noites de comentário de bola na CMTV, medidas avulsas como a castração química dos pedófilos ou a subsidiodependência dos ciganos, não são verdadeiramente uma ideologia. O PSD não tem nada a absorver do Chega, na medida em que o Chega é um vazio ideológico que vive de tiradas de um líder indiscutivelmente carismático, mas cujas convicções são, no mínimo, frágeis. Ventura será fácil (e barato) de comprar, se aí chegarmos.

Apesar de tudo isto, não devemos menosprezar o Chega. A direita está num dilema difícil. Para além dos Sebastianistas, que acreditam que Passos Coelho regressará num dia de nevoeiro para os resgatar das malhas do Socialismo, o CDS é hoje um partido em estado terminal. Apenas por milagre se poderá salvar. Rui Rio está entre a espada e a parede. Costa virou as costas a um eventual Bloco Central, que se impunha neste momento de crise nacional, atirando Rio para a negociação com os actores relevantes do seu lado da barricada. Infelizmente, esse actor é cada vez mais o Chega. Aguardemos os próximos meses para tirarmos conclusões mais sustentadas.