As notícias sucedem-se em catadupa sem lógica aparente, e os discursos afirmam uma coisa hoje e o contrário amanhã. É muito difícil interpretar a realidade que nos cerca, perceber o que move cada um dos atores políticos globais, em particular os que reagem à globalização ao mesmo tempo que a aprofundam. Nada é o que parece.

Proponho que se olhe para as ações da administração americana de uma forma diferente do habitual. Já que filtramos sempre o que nos dizem, quer queiramos quer não, podemos, por uma vez, não ouvir a linguagem pouco polida, a ausência do verniz que normalmente suaviza a ação diplomática, a falta de bom senso na ciência, na medicina ou no suporte social, ou os companheiros de estrada especialistas em teorias de conspiração. Se o fizermos, veremos à nossa frente um país que ainda transporta consigo uma enorme ambição e uma quase ilimitada capacidade de inovação, mas que já não pode decidir tudo sozinho. Que vê passar entre os dedos o controlo de uma boa parte das matérias-primas do mundo, que precisa de reequilibrar a sua balança comercial. E que para o fazer só encontrou o caminho de abandonar a responsabilidade moral para com o mundo que não consegue mais carregar, defender com “unhas e dentes” o acesso às matérias-primas e à energia, e destacar-se dos que ainda têm menos peso que ele, para defender o seu lugar e o seu quinhão na mesa das negociações globais.

A União Europeia tem uma posição política eticamente muito forte no que respeita a quase todos os problemas do mundo. Mas essa vantagem moral transforma-se numa desvantagem real sempre que a situação endurece, quando tem pela frente forças que não partilham os mesmos valores, ou se torna necessário que os fins justifiquem os meios, e seja preciso projetar força. É muito importante distinguir o bem do mal e a mentira da verdade. Deve animar-nos a esperança de que a perfídia não vencerá, mas para que tal aconteça precisamos de estar mais preparados. O afastamento da União das negociações dos conflitos da Ucrânia e Israel é a prova provada de que o caminho que está a ser seguido não pode estar certo.

Para escapar à irrelevância, no meio do caos em que vivemos, a União Europeia tem de mudar. Para isso é necessário compreender o que está profundamente errado. Se quisermos estabelecer uma hierarquia de áreas, muito interligadas, que devem ser repensadas sem demora, eu diria que poderíamos elencar a defesa e a segurança interna, a garantia do acesso à energia e às matérias-primas e o controlo da mudança climática. Todos os outros aspetos, entre os quais se contam questões tão fundamentais como a liberdade individual, o modelo económico, a qualidade de vida em todas as suas dimensões, ou a coesão social, delas dependem.

Consideremos o caso da despesa na área da defesa. Apenas conseguimos manter a qualidade de vida de que gostamos porque os Estados Unidos da América a pagam por nós. Existe o equívoco de que a indústria da defesa não pode promover o emprego e o desenvolvimento económico e que se trata de atividade imprópria e uma despesa inútil. Não penso que seja verdade. No mundo de hoje não há estratégia para a defesa que dispense um contributo determinante da investigação e inovação, do aumento da capacidade produtiva, e um papel insubstituível dos empresários capazes de desenvolver num período muito curto essas capacidades.

Investimentos em defesa, quer públicos quer privados, para além da sua importância económica direta, desencadearão resultados com aplicação nos outros setores da economia. Todas as áreas do conhecimento têm a obrigação de se questionar qual o contributo que podem dar para reforçar os sistemas de defesa, despojando-se de limitações moralistas.

A necessidade de garantir o acesso à energia e às matérias-primas está também inquinada em Portugal e na Europa. Não vale a pena revisitar a questão da possibilidade de ser explorado gás natural na margem algarvia, porque na fase em que já estamos de transição energética, a sua disponibilidade não tem a mesma importância do que teria quando a polémica atravessou o país. Mas é importante olharmos urgentemente para o que se está a passar em todos os processos que envolvem a exploração de lítio, as matérias-primas críticas no oceano, ou simplesmente, a construção de barragens para produção hidroelétrica. Somos nós próprios que estamos a dificultar, e mesmo a impedir, o acesso à energia e às matérias-primas.

Num mundo onde a administração americana se permite questionar a independência de nações tradicionalmente suas amigas na busca de minerais críticos, nós estamos a alimentar um sem número de dificuldades desnecessárias para a gestão do pouco que temos, em terra ou no mar. Podem ser manifestações de ativistas, providências cautelares ou moratórias. Todas as razões são estimáveis. Todos os processos são realizados dentro da lei e estão em linha com inúmeras “diretivas” comunitárias. Todos estes obstáculos são profundamente errados.

O controlo, tanto quanto possível, da mudança climática é mesmo necessário, e isso exige a redução das emissões de gases de efeito de estufa. O processo seguido pela Europa que se colocou na primeira linha do discurso político, está neste momento com dificuldades em avançar e mesmo os grandes resultados na utilização de energia fotovoltaica são devidos à sua massificação na China e à consequente redução de custos. Duas decisões infelizes contribuem para este estado: o encerramento e a não modernização de centrais nucleares que, com todos os seus riscos e defeitos, são climaticamente saudáveis, e o atraso inacreditável na transição dos motores de combustíveis fósseis para motores elétricos de última geração.

Uma parte significativa deste problema prende-se, a meu ver, com a centralidade do “mercado do carbono”, que se julgou capaz de acelerar esta transformação, criando impostos sobre as atividades produtoras de gases de efeito de estufa, não valorizando os efeitos nefastos que mais este imposto tem sobre a economia e o custo de vida e utilizando esses recursos em ações consideradas amigas do ambiente, algumas das quais socialmente questionáveis. A notícia recente de que a indústria automóvel europeia vai comprar à Tesla de Elon Musk dois mil milhões de euros de créditos de carbono mostra o insensato da estratégia: as emissões das viaturas geneticamente europeias não vão diminuir, a penalização irá dificultar a sua transformação e, ironia das ironias, vamos pagar aos que não acreditam na mudança climática, mas constroem carros elétricos e nos faturam créditos de carbono.

Não consigo compreender porque se arrasta esta situação e não descortino que nova humilhação precisa a União Europeia de sofrer para mudar de vida. Mas sei que está explicada a razão pela qual a Europa não precisa de enviar mais sondas para Lua, ao contrário dos Estados Unidos, da China, da Índia ou mesmo de Israel. Os lunáticos andam por aqui.