Sempre nutri uma certa curiosidade, quiçá divertida, pela futurologia. Confesso, porém, que nunca a entendi como ciência, ou seja lá o que for. A verdade é que não é preciso ser um génio para antever o que se avizinha: dias e semanas de roupa suja a ser lavada no tanque público, onde uma palha se transforma num fardo e um silo aparentemente cheio esconde a ausência de um único grão de verdade.

Estamos a poucos meses das eleições legislativas em Portugal, e o cenário que se desenha é tão previsível quanto desolador. A campanha eleitoral promete ser um espetáculo de acusações mútuas, escândalos revelados a conta-gotas e uma retórica vazia que mais parece um ciclo interminável de lavagem de roupa suja. A diferença é que, desta vez, a água do tanque está turva, e o sabão parece ter perdido a eficácia.

Os partidos políticos, como é habitual, preparam-se para desenterrar os esqueletos dos armários alheios. A estratégia é clara: enquanto uns tentam limpar a própria imagem, outros dedicam-se a sujar a dos adversários. O problema é que, neste processo, a roupa que deveria sair limpa acaba por ganhar manchas ainda mais difíceis de remover. E o público, esse, assiste ao espetáculo com um misto de fascínio e repulsa, como quem observa um acidente de automóvel em câmara lenta.

O que mais preocupa, no entanto, não é a sujidade em si, mas a forma como ela é manipulada. A política transformou-se num jogo de aparências, onde o que importa não é a verdade, mas a narrativa. Uma simples palha de escândalo é amplificada até se tornar um fardo insuportável, enquanto os silos de promessas vazias continuam a ser apresentados como celeiros de soluções. O resultado é um deserto de credibilidade, onde a confiança do eleitorado se esvai como água entre os dedos.

E assim caminhamos para um futuro que, longe de ser brilhante, parece cada vez mais sombrio. As eleições legislativas deveriam ser um momento de reflexão, de debate sério e de escolhas conscientes. Em vez disso, arriscam-se a ser um palco de circo, onde os protagonistas se digladiam por migalhas de poder, enquanto os verdadeiros problemas do país ficam à espera de solução.

Resta-nos esperar que, no meio desta lavandaria pública, surja alguém com a coragem de mudar o paradigma. Alguém que, em vez de se preocupar em lavar a roupa suja dos outros, se dedique a limpar a casa. Porque, no fim do dia, o que importa não é a cor da bandeira que se levanta, mas a qualidade do chão que se pisa.

Até lá, preparemo-nos para dias de muita água suja, sabão gasto e roupa que, no fim de tanto lavar, pode acabar ainda mais manchada. O futuro, afinal, não é tão difícil de prever. Basta olhar para o presente.