A nossa filha mais velha, a Maria, esteve a trabalhar numa exposição sobre Camões no antigo Pavilhão de Portugal na Expo. Como foi só durante um mês, sentenciou: “venham rápido para vos dar a minha visita guiada antes que acabe”. Assim fiz. Fui em direcção à célebre pala do Siza Vieira e procurei pela porta certa. A minha filha, que me ia guiar, não sabia o que era a pala. Ela já está na Lisboa do Século XXI e eu ainda na do XX.
Quando cheguei, a Maria despedia-se de um grupo de sexagenárias animadas que, pelo entusiasmo, tinham apreciado o trabalho dela. Disseram-lhe: “próxima vez que encontrarmos o Camões, mandamos-lhe um abraço seu!” Agora os próximos fregueses resumiam-se a mim. A minha filha ia dar a visita a guiada apenas ao seu pai. Nunca nos tinha acontecido. O pai ser guiado pela filha—experiência fantástica.
Foram cerca de 40 minutos. Em circunstâncias normais teria levado uma hora mas era o único a fazer perguntas à guia, a minha filha. A exposição chamava-se “Meu matalote e amigo Luís de Camões”. A frase é retirada do amigo de Camões, Diogo do Couto, que certa vez o encontra deprimido e de bolsos vazios em Moçambique. O conceito da exposição acompanha o poeta em percurso de vida alargado, percorrendo “Os Lusíadas” do mesmo modo que se percorre a própria história portuguesa, entre glórias e fracassos. É sugestiva a proposta: encara os descobrimentos do mesmo modo que destapa o que teimamos em não querer descobrir dentro da nossa alma nacional. É triunfo e é terapia.
A exposição junta textos camonianos e outros, com esculturas e pinturas de lugares tão distintos como o Museu de Arte Nacional e o de Arqueologia, a Gulbenkian, e também colecções privadas. Não só é boa e breve, como também é gratuita. Os leitores ainda vão a tempo (terminará a 27 de Julho) , e se houver novas edições, não percam. Importa dizer que foi comissionada ao Professor João Figueiredo da Universidade de Lisboa.
A Maria guiou-me com competência e alimentou a minha curiosidade. Não é isso que desejamos de qualquer pessoa que nos lidere? Que trate das perguntas que temos e que abra a porta às que não esperávamos—sermos respondidos e orientados para perguntarmos mais. Queremos que o processo se cumpra e queremos que o processo fique por cumprir. Saí a saber mais e a querer saber mais. Saí orgulhoso e comovido.
Tudo acontece rápido. Próximo Domingo faz 23 anos que me casei com a Ana Rute. Pensar que, em menos de nada, a minha filha mais velha me guia em exposições sobre Camões deixa-me a cabeça à volta. O rodopio alimenta-se de surpresa e gratidão. Por um lado, não imaginei que o guião fosse neste sentido, por outro, ele é muito melhor do que teria imaginado. Ser ensinado pela minha filha à sombra da pala do Siza Vieira no Pavilhão de Portugal—que prodígio nacional e pessoal.