A ordem internacional é uma ordem que assenta, por um lado, em princípios aceites pelos principais poderes mundiais, como fundamentos da legitimidade dessa ordem e fontes consequentes das relações inter-estatais; por outro, numa realidade geopolítica que leva em conta os interesses dos Estados – dos grandes, dos médios e dos pequenos – nesta relativa progressão.

As ordens internacionais no mundo europeu – e a partir do século XIX e, sobretudo, do século XX, no mundo euroamericano – revestiu sempre estas características: um ordenamento teórico de valores de justificação e legitimação, e um regulamento institucional sobre a repartição do espaço e a decisão dos respectivos conflitos.

Na Respublica Christiana, o poder dos Papas como Gregório VII e Inocêncio III fazia deles uma espécie de árbitros da ordem dos Reinos – e comunidades políticas em geral – da Europa cristã. Podiam travar conflitos com o Imperador e com os Reis. Mas tinham armas espirituais – a excomunhão e o interdito, uma, pessoal, outra territorial – que tinham, perante populações crentes e obedientes, “assim na Terra como no Céu”, a sua eficácia. Nem sempre, mas até aos finais do século XIII, à crise entre Filipe o Belo e Bonifácio VIII (quando Sciarra Colonna esbofeteou o Papa Bonifácio VIII em Anagni, em 1313), funcionou. Depois o rei de França impôs-se a Roma, acabou com os Templários, levou os Papas de Roma de Avignon e a República Cristã evaporou-se, num século em que chegou a haver papas que trocavam excomunhões.

A partir daqui – e também com a crise e decadência da ordem feudal e com centralização do poder dos reis nos Reinos – a que aspectos de tecnologia militar como os canhões de bronze dão uma grande ajuda – surge uma estrutura de poder na Europa, em que são os Reinos – de França, de Inglaterra, de Portugal, edo Sacro Império, as Repúblicas e de Veneza e de Génova, entre outros – os participantes.

Mas tão depressa se dá a consolidação deste ensaio de ordem, tão depressa chega a heresia de Lutero, e a famosa linha de amizade-inimizade schmittiana passa a ter também um factor ideológico-religioso. E assim é (a Reforma vai dividindo a Europa e os países europeus como a França, ao longo do século XVI) até ao final da Guerra dos Trinta Anos, em que se passa para uma espécie de secularização dos poderes: há um soberano que, geralmente a troco da lealdade política dos súbditos, lhes concede liberdade religiosa. É o princípio da laicização do político, embora tenha as suas reservas e excepções: Luís XIV vai abolir o édito de Nantes (com que o seu avô Henrique IV tinha dado liberdade de culto aos Huguenotes e em Inglaterra os católicos serão discriminados, praticamente até meados do século XIX).

Mas, a partir daqui, entramos numa ordem política em que o princípio monárquico – progressivamente a evoluir para a monarquia absoluta do despotismo (mais ou menos iluminado, mais ou menos obscuro) – vai ser a regra ideológica e a Realpolitik dos interesses nacionais ou dinásticos, a regra das relações internacionais entre as potências.

Estas potências, na Europa do século XVIII, nas vésperas da revolução, são a França, a Grã-Bretanha, a Prússia, o Império dos Habsburgo de Viena e a Rússia. A Espanha foi-se apagando, a Rússia entrou no grupo a partir de Pedro o Grande e de Poltava, e a Prússia, do Rei-Sargento e de Frederico II.

Há depois um interregno ideológico com a Revolução Francesa e as consequentes Guerras da Revolução e do Império, que reintroduzem um quarto de século “ideológico” na Europa entre 1790 e 1815, que se vai prolongar praticamente até meados do século XIX. Primeiro as monarquias europeias, assustadas e indignadas com o regicídio de Luís XVI, invadem a França, mas são repelidas. Do Terror e do Thermidor, da luta entre revolucionários radicais e moderados em Paris, acaba por sair, como síntese da Revolução possível, Napoleão. Que vai, com a sua legitimidade de césar vitorioso e salvador da República, fazer como o outro – derrubar a República que acabou de salvar. E são mais uns anos de império militar, de guerra permanente – uma guerra de interesses político-económicos conduzida por Londres e uma resistência nacional e patriótica dos povos primitivos dos extremos europeus – portugueses, espanhóis e russos que inauguram a guerra do “partisan”, o guerrilheiro, o camponês religioso, que resiste à fúria dos franceses com igual ou mais ferocidade que a deles. E ganham.

Os primeiros guerrilheiros, em boa verdade, tinham sido os católicos e realistas vendeanos, que os Republicanos tinham tentado exterminar num dos primeiros genocídios da História Moderna.

A luta da primeira metade do século XIX, sobretudo nas monarquias da Europa do Sul – França, Espanha, Portugal, reino de Nápoles – é entre legitimistas ou tradicionalistas e liberais. Estes são os moderados da Revolução Francesa,  resignados à monarquia, limitada por uma Constituição que, como nos Estados Unidos é um documento escrito, ou na Grã-Bretanha por costumes com força de lei, regule o poder real, trace a divisão dos poderes e favoreça um modelo oligárquico em que a nova classe burguesa e a parte das classes antigas que com ela se aliou, possam governar e enriquecer  sob o signo da liberdade económica (às vezes entendida como protecção estadual para os próprios liberais e seus negócios) e da modernização industrial.

Neste quadro político-ideológico, a nova ordem geopolítica fora ditada pelos vencedores de Napoleão em Viena, em 1815, numa negociação em que o realismo dos vencedores, encarnado por Metternich, criou uma ordem europeia relativamente estável, que duraria um século até aos canhões de Agosto de 1914.

Mas já então, numa Europa do Constitucionalismo liberal – em economia e em política – mas liberal-conservador ou conservador – liberal despertara oficialmente em 1848, ano do Manifesto Comunista, uma cosmovisão político-social alternativa que ia, rapidamente, revolver o mundo das ideias e criar novos elementos de confronto ideológico, mantendo-se, entretanto, ainda nas periferias – como na Rússia dos Romanov – modelos ideológicos e institucionais antigos.

Será deste Manifesto e das suas consequências ideológicas e sociais – que aparecerão logo no próprio ano de 48 – que vão sair em movimento as forças que vão determinar os conflitos, mas também a forma das coisas que vêm no século seguinte.