No artigo A beira do precipício, aqui publicado há dias, apresentei uma simulação de distribuição de mandatos de deputados à Assembleia da República. A estimativa foi feita para a hipótese de, nas eleições de 6 de Outubro, se verificarem resultados em linha com as europeias de Maio passado e com as sondagens para as legislativas divulgadas nas primeiras semanas de Julho. Depois, em duas notas finais ao mesmo artigo, acrescentei a simulação ajustada à projecção da Pitagórica para JN/TSF, uma sondagem que divergia das outras em pontos significativos.

Hoje, faço o mesmo com a sondagem da Multidados para a TVI, divulgada anteontem. Trata-se de uma previsão também muito diferente das anteriores, com projecção de voto muito superior para o BE e o PAN e inferior para todos os outros.

Começo por um quadro comparativo, a fim de termos noção das diferenças:

Como ninguém fez a projecção em número de mandatos da última sondagem da TVI, considerei importante fazer uma simulação dessa correspondência a título de informação complementar, usando a mesma técnica que usei no artigo anterior. Numa sondagem de eleições legislativas, é isso o fundamental: não importa apenas a percentagem prevista para cada força pública, mas estimar como ficariam as diferentes bancadas parlamentares. É isto que permite antecipar a formação de maiorias e os possíveis arranjos políticos.

Assim, para a hipótese desta sondagem:

obtive, em simulação, a seguinte projecção de distribuição de mandatos:

Estes números pressupõem dois “ses”, na linha do que expliquei no artigo anterior. Primeiro “se”: as percentagens anunciadas pela TVI, com base na sondagem da Multidados, se confirmassem nas próximas eleições de 6 de Outubro. Segundo “se”: a votação de cada partido se repartisse pelos diferentes círculos eleitorais da mesma maneira que ocorreu para esse mesmo partido na última eleição legislativa em que todos estes concorreram entre si.

Não é possível simular a possível eleição de deputados por outros partidos. A sondagem da Multidados não apresenta resultados atribuídos a qualquer outro partido individualmente. A sondagem agrega os pequenos partidos na rubrica “Outros” a que atribui 5%. E considera haver 7,7% de brancos e nulos, o que parece demasiado alto face ao que tem acontecido nas legislativas – embora, nas europeias, a soma de brancos e nulos fosse de 6,9%. Já a percentagem para “Outros” parece muito baixa para tanto partido concorrente: nas europeias, foi de 7,9% (sem contar com o Aliança) e 9,8% (incluindo o Aliança).

Os principais destaques políticos de resultados deste calibre seriam os seguintes:

  • O Partido Socialista não alcançaria a maioria absoluta, ficando a nove mandatos dessa fasquia. Mesmo que o PS conseguisse captar o máximo possível de mandatos nesta votação percentual (35,5%), ficaria a cinco mandatos de distância da maioria absoluta.
  • A Assembleia da República teria, por larga margem, a maior maioria de esquerda da nossa história parlamentar. A maior, até hoje, aconteceu em 2005/09: maioria de esquerda com 143 deputados. Agora, neste cenário, a maioria de esquerda atingiria os 172 deputados – PSD e CDS-PP não teriam mais do que 58.
  • A esquerda deteria confortavelmente maioria parlamentar de 2/3, quer com o PAN (172 deputados), quer sem o PAN (154 deputados). PSD e CDS-PP juntos ficariam muito longe de a poder impedir: necessitariam de um mínimo de 77 deputados; não alcançariam mais do 58 (ou, mais do que 61, mesmo captando o máximo do possível com as votações projectadas pela TVI).
  • O PS ficaria numa posição muito confortável, podendo fazer maioria só com a CDU, só com o PAN, só com o BE, ou só com o PSD.
  • O PSD perderia representação parlamentar nos círculos do Alentejo, à excepção de Setúbal, e na emigração pela Europa.
  • O Bloco de Esquerda aproximar-se-ia de ser um partido nacional, apenas não elegendo deputados nos círculos eleitorais com cinco ou menos mandatos.
  • O PAN teria uma expansão da sua representatividade territorial semelhante ao BE, elegendo deputados nos círculos de nove ou mais mandatos, com excepção de Viseu (onde não elegeria) e da Madeira (onde elegeria, num círculo de apenas seis mandatos).
  • A CDU poderia perder representação parlamentar em Braga, Faro e Santarém, sendo afectada pela ultrapassagem não só pelo BE, mas também pelo PAN.
  • O CDS-PP só poderia eleger deputados apenas em Lisboa (2) e no Porto (1), caindo para a posição de sexto partido.

Resultados destes bem podem ser olhados como a Revolução de Outubro.

Pode obviamente desdenhar-se da sondagem da Multidados que lhes serve de base e que, na verdade, causou surpresa. Mas o mais avisado é tomar as suas indicações como isso mesmo: indicações – e, à direita, agir no sentido de a contrariar, conseguindo que não se verifiquem, nem de perto, nem de longe. Já a esquerda encontrará aqui razões para sorrir, com excepção da CDU e, em parte, do PS. Toda a esquerda gostaria de consolidar um panorama destes e, nos casos do PS e da CDU, melhorar o seu desempenho específico e a respectiva colheita.

Espera-se que o centro e a direita não ajudem a esquerda. Mas, se em Outubro, com estes números ou outros similares, os resultados eleitorais forem de festival à esquerda e cataclismo à direita, ninguém pode espantar-se. Não têm faltado avisos. As sondagens mostraram, continuamente, um quadro nesta onda favorável à esquerda ao longo dos quatro anos da legislatura, agravado a partir da campanha para as europeias. Ainda faltam dois meses para as eleições. E falta bem mais do que apenas tempo.