O isolamento social é uma das dimensões mais devastadoras e silenciosas nas situações de alienação parental. Não se instala de forma repentina, emerge de um processo subtil, silencioso, progressivo e persistente, através do qual a mãe ou pai controlador/alienador, vai restringindo o espaço emocional e social da vítima alienada, até que esta se encontre encerrada numa redoma de solidão e culpa.
Esta é mais uma história descrita por um pai alienado, vítima de alienação parental durante o casamento: “Toda esta situação cria isolamento social, cria uma redoma, em que por um lado existem estes comportamentos de desregulação, por outro lado existe sempre um comportamento em que todos são péssimos, o pai é péssimo, os avós paternos são péssimos… é muito difícil viver num sítio onde sistematicamente tudo está mal, todos estão mal, sou eu é que estou bem”.
Esta descrição faz referência a comportamentos típicos da alienação e das relações abusivas, em que o agressor/alienador denigre a vítima alienada, obrigando-a a viver num ambiente de negatividade, onde apenas ele próprio atua adequadamente. Nesta situação, a perceção de segurança do agredido passa a estar associada ao isolamento, afetando a sua relação com o exterior, com a agravante de que é um processo lento, quase impercetível, mas ao mesmo tempo devastador: “Porque é muito progressivo… perde-se tudo lentamente, mas rapidamente, sem nos apercebermos…”.
O isolamento é um processo de perda da autonomia. Não ocorre por imposição direta, mas através de pequenos ajustes diários, de limites impostos disfarçados de “preocupação” e de uma vigilância e controlo constantes que se tornam parte da rotina. Como nos partilhou este pai alienado: “Eu dei por mim… eu não podia fazer uma chamada em casa… ao final de um tempo… tinha que fazer chamadas antes de chegar a casa… as chamadas eram quando ia buscar o jantar ou antes de chegar a casa, com um compasso de espera, para acabar a conversa antes de chegar a casa…
Porque a casa estava blindada, até telefonicamente…É difícil explicar isto… isto sente-se….O isolamento é gradualmente… mas rapidamente”.
Estas descrições refletem uma das estratégias mais recorrentes do controlo coercivo, conceito amplamente estudado na psicologia da violência doméstica, em que o agressor restringe progressivamente a liberdade e a rede de apoio da vítima, mantendo-a sob dependência emocional e social. O controlo torna-se tão internalizado que já não é necessária a vigilância ativa, é a própria vítima que se autocensura, regulando os seus comportamentos e emoções para evitar conflito.
A casa, símbolo de segurança e pertença, converte-se num espaço de clausura emocional. Este fenómeno é descrito na literatura como “bolha de controlo”, um ambiente onde a manipulação e o medo distorcem a perceção da realidade. A vítima alienada vive entre a incerteza e o conformismo, incapaz de distinguir o que é imposto do que é escolha própria. Como nos contou este pai alienado: “As pessoas à nossa volta veem o nosso afastamento… mas à semelhança de todos os casos não nos falam disso… veem, vivem com isso e de facto afastam-se”. Neste testemunho evidencia-se outro elemento central, da alienação parental, o silêncio social. Mesmo quando o afastamento é visível, raramente é nomeado. Os outros, amigos, familiares, colegas, percebem a mudança, mas evitam intervir. O resultado é um isolamento ainda mais profundo, alimentado pela incompreensão e pela passividade do meio envolvente.
Com o passar do tempo, este afastamento consolida-se e deixa marcas que dificilmente se reparam. Como nos referiu este pai: “E mesmo a recuperação dessas pessoas… a seis anos hoje, não é possível… há relações que se perdem, este afastamento, esta alienação de que a família é alvo, não estou a falar apenas da criança”.
Para este pai, o impacto duradouro e cumulativo da sua alienação, destruiu laços sociais, comprometeu relações de amizade e deixou um rasto de solidão, mesmo após o fim formal da relação abusiva: “A alienação, a forma como nos afastam da sociedade onde vivemos… reflete-se no futuro… há relações de amizade que se perdem… afastamentos desse período… não é fácil reconquistar com a separação… apesar de toda a gente saber porque é que aconteceu… mas há relações que se perderam nessa altura que não se recuperam”.
A alienação parental, neste sentido, não é apenas um conflito entre pais, é um processo de desintegração social e identitária que se estende a todas as dimensões da vida. Este pai alienado acrescentou: “Vive-se este isolamento por vergonha, porque estamos a ser maltratados nós próprios.”. A vergonha é um dos mecanismos psicológicos mais poderosos e paralisantes nestas dinâmicas. A vítima alienada, muitas vezes pressionada para a resiliência e para o silêncio, sente-se culpada por “ter permitido” o abuso, e esta culpa reforça o segredo. A vergonha, ao calar, protege o agressor alienador e perpetua o ciclo do controlo.
Quando este processo se cruza com a parentalidade, o impacto é ainda mais profundo. O agressor utiliza frequentemente a criança como instrumento de poder e extensão do controlo, moldando perceções e restringindo o contacto com o outro pai ou mãe: “Nos momentos que o meu filho tinha fora de casa era só comigo”. Esta frase denuncia a monopolização da relação parental, característica central da alienação. O pai ou mãe alienante procura estabelecer uma ligação exclusiva com o filho, eliminando a presença e a influência do outro.
Procurando cessar a vida em comum, a vítima acredita que o fim da relação conjugal trará alívio, mas o controlo persiste sob novas formas: “Pensei que com o término do casamento as coisas pudessem melhorar…Eu não tinha noção”, percebendo que a violência emocional não terminou após a separação, mas se transformou. A alienação parental torna-se então o prolongamento do abuso, transpondo o controlo do espaço conjugal para o campo parental e judicial.
A alienação destrói identidades e vínculos, e deixa cicatrizes invisíveis tanto nos adultos como nas crianças. A vítima não perde apenas o contacto com o filho, mas também a sua voz, a sua rede, a sua pertença social.
O testemunho deste pai alienado durante o casamento, permite-nos compreender o que o isolamento social é um dos instrumentos centrais da alienação parental e do controlo coercivo. O isolamento retira à vítima alienada os recursos emocionais e sociais que lhe poderiam permitir resistir, transformando o abuso num sistema fechado e autossuficiente.
A reconstrução após este tipo de experiência exige muito mais do que o decurso do tempo. Requer reconhecimento institucional, apoio psicossocial e reconstrução da rede de suporte. Implica devolver à vítima o direito à palavra, ao convívio e à reparação. Romper o isolamento é talvez o passo mais importante para quebrar o ciclo da alienação.