Há uns anos era a fruta normalizada. Os supermercados só vendiam fruta de acordo com as normas de produção e comercialização vindas de Bruxelas, e que mediam tudo à excepção do sabor. A fruta pequena que sabia bem era deitada fora. Quem se opusesse a esta prática e preferisse a fruta de outrora era conotado de retrógrado ou de caturra, alguém que se opunha ao progresso, ao avanço normal da sociedade; à modernidade. Hoje a percepção é a contrária. São cada vez mais os supermercados que vendem fruta pequena, feia, com bicho, por vezes com sabor que outras nem por isso (ao contrário do que reza a lenda a fruta de antigamente, sem químicos, não sabia toda bem). E claro está que quem não compra este tipo de fruta é conotado de retrógrado ou de caturra, alguém que se opõe ao progresso, ao avanço normal da sociedade. Tem piada como as modas mudam e as moscas são as mesmas. Neste caso os argumentos. Essencialmente, a acusação, o apontar do dedo, a culpabilização.

Outro exemplo é a batina dos padres católicos. Se até à década de 60 era obrigatória, a partir do momento em que deixou de o ser os padres passaram a utilizar outras indumentárias mais próprias para a época. Os tempos são outros e, perante o custo cada vez mais baixo da produção de roupa, a batina passou a ser encarada como um artigo de luxo e algo ostensivo. Apenas os padres mais tradicionais a usam e a sua utilização é um estigma, uma marca de alguém que se opõe ao progresso, ao avanço normal da sociedade; à modernidade. Até que o Livre elegeu uma deputada que, no dia da sua tomada de posse, se fez acompanhar pelo seu assessor que se vestiu tal qual os padres que usavam batina. Foi qualificado de vanguardista, progressista, avançado para a época; uma lufada de ar fresco num Parlamento bafiento. Uma vez mais é engraçado como a percepção das coisas muda de acordo com a condução da moda e como a moda mal conduzida pode ser a arma dos que praticam actos burlescos. Junto o caso do assessor vestido tal qual os padres de antigamente ao exemplo da fruta normalizada, não para realçar o ridículo do acto em si que fala por si, mas porque há uma qualidade humana comum que se encontra por trás da acusação e da culpabilização que induz as pessoas a acreditarem numa coisa e no seu contrário.

A tese do quem não está comigo está contra mim não nasceu com Salazar, existe desde tempos imemoriais, é levada à prática por quem se quer impor.  É a tese dos que querem destruir o diálogo, o debate e a troca de argumentos. Argumentar é difícil, uma verdadeira arte porque não pressupõe apenas saber falar, mas saber do que se fala. É muito mais fácil mandar uma boca, fazer uma piada, chocar, elevar o tom de voz, ridicularizar o outro, enfim, desviar as atenções para um ponto, assunto, em que não se perceba que quem choca nada sabe do que devia estar a discutir. É aqui que se chega à dita qualidade que é a sobranceria. Olhem para a forma como Joacine Katar Moreira nos olha. Atentem na altivez dos deputados do BE quando nos dirigem a palavra. Dominam apesar do absurdo que representam, como tive oportunidade de o demonstrar relativamente à entrevista que Catarina Martins concedeu à rádio Observador.

É do senso comum que a sobranceria é a força dos fracos, mas sendo o comum aquilo que é frequente, esta percepção perde-se perante a força abrupta e cortante da irrazoabilidade. Sendo o comum aquilo que se refere a todos, basta que alguns duvidem para que se questione o senso. A arrogância é como os interrogatórios que não admitem contraditório. Para os fracos não há lugar a discussão. A rendição é o seu objectivo supremo que procuram através da acusação permanente. Apostam tudo nesta estratégia porque sabem que recear ter culpa é a fraqueza humana dos fortes e o sentido crítico, a sua arma de defesa.