No desejo, há um silêncio bem mais antigo do que a fala: no princípio era o Verbo; mas antes da palavra, era a boca; antes do amor, era a fome. E sempre que dois corpos se encontram, repetem o espanto primeiro da carne que reconhece a carne – não enquanto conhecimento, mas como perda. Os antigos sabiam-no. Deram-lhe nomes: quando Afrodite emergiu da espuma, nasceu não do ventre, mas do sexo decepado de um deus – Úrano castrado pelo seu filho. Da mutilação do pai, surgiu a beleza; da violência, a curva suave de um ombro, o tremor de uma pálpebra. Eros, diz-nos Hesíodo (Teogonia 188–201), nasceu de um golpe.

Desejar é, pois, sentir essa ferida a reabrir-se no corpo. O sexo nunca é apenas um gesto de vida: é a comemoração da morte. No instante do abraço, sente-se a fragilidade do tempo: o momento distende-se, suspende-se e depois desfaz-se. O prazer é uma pequena aniquilação. La petite mort, chamar-lhe-iam talvez os romanos, embora nunca o tivessem dito assim. Preferiam nomeá-lo com metáforas de refrega e rendição, embora ambígua seja a vitória, pois sucumbem vencedor e vencido. O leito é um campo de derrota.

Os gregos imaginavam o desejo como uma forma de loucura – divina insanidade, chamava-lhe Platão no Fedro. A alma, lembrando-se das formas perfeitas que outrora viu, estremece perante a beleza; deseja ascender, mas o corpo puxa-a para baixo. Assim começa o paradoxo: quanto mais se deseja, mais se fica dividido entre a ascensão e a queda. Ver o amado é recordar algo que não pode ser recuperado. Tocar o amado é perder o que se procurava.

O corpo, uma vez satisfeito, regressa a si – pesado, mudo, sozinho. E, nesse instante, o tempo recomeça; o relógio retoma a marcha; o corpo lembra-se de que vai morrer.

Ovídio sabia que o amor era metamorfose – a passagem contínua de forma em forma, de ferida em ferida: Dafne transforma-se em árvore para escapar a Apolo; Narciso, contemplando-se, dissolve-se na água; a escultura de Pigmalião desperta. O desejo transforma a carne em mármore, o mármore em carne, a vida em imagem. Cada transformação é uma fuga à decadência que, ainda assim, transporta consigo a morte. Talvez por isso os antigos temessem menos o tempo do que o esquecimento, razão por que esculpiam os seus deuses em pedra: para preservar a curva de uma coxa, a sombra de um seio, o gesto de uma mão que um dia alcançou algo que não foi capaz de agarrar. Mas também o mármore se desgasta e os deuses perdem o rosto. O vento é o supremo escultor.

Há algo de indecente na persistência do desejo após a morte. Nas pinturas tumulares etruscas, homens e mulheres jazem juntos, sorriem entrelaçando os membros numa serenidade impossível: estão mortos há séculos, mas a sua pele brilha ainda no ocre da excitação. Talvez não sejam amantes, mas sombras que se lembram do calor. Também os romanos deixaram para trás os seus próprios fantasmas da luxúria: grafittis em Pompeia, candeeiros obscenos, estatuetas de Vénus enterradas com soldados. Até para o túmulo levaram a sua fome. A morte não apaga a memória do corpo; transforma-a em imagem.

Todo o acto de desejo é um ensaio de desaparecimento: quando olhamos alguém com saudade, lamentamos imediatamente a sua ausência. O tempo fractura-se no instante do toque. Sentem-se as antigas camadas de carne – o animal, a criança, o futuro cadáver – sobrepostas. A pele do amante não está apenas presente; é uma superfície por onde todo o tempo se infiltra. Acariciar alguém é atravessar séculos. O desejo é um abismo entre dois nadas.

Os gregos teriam sorrido: sabiam que o amor começa onde o conhecimento termina. Eros é a fome da alma que viu o divino, a nostalgia por aquilo que jamais poderá ser tocado. Mas os latinos, mais severos, ancoravam o desejo no corpo – Lucrécio, em De Rerum Natura, descreve os amantes como vítimas dos átomos: o corpo é tanto fonte de prazer como sinal de separação; cada beijo confirma que dois nunca poderão ser um.

Há uma ternura na decadência: a carne que outrora ardia, arrefece, dobra-se, amolece. O corpo torna-se um texto escrito pelo tempo – cicatrizes, rugas, silêncios. Amar um corpo é ler este texto sem esperança de algum dia o terminar.

A própria linguagem é uma espécie de exílio, também o desejo nos exila, expulsando-nos do eu para um outro cujo interior jamais poderemos habitar. Os gregos tinham uma palavra para este estado – êxtase (ἔκστασις – literalmente,  “estar fora de si”.) Habitando essa exterioridade, retomamos, de forma aguda e dolorosa, a nossa mortalidade

Até os deuses a invejavam:  Zeus, que podia assumir qualquer forma, transformou-se num touro, num cisne, numa chuva de ouro – tudo para sentir o tremor do toque humano. O divino anseia pelo finito, pelo instante que termina. A imortalidade é demasiado fria para ser desejada.

Morrer, diziam os romanos, é regressar à terra que alimenta o desejo. “Somos pó e sombra”, diz-nos Horácio (Pulvis et umbra sumus, Carmina IV.7.16), mas que coisa é o pó senão as sobras de corpos outrora entrelaçados? Cada grão de areia foi já criatura; cada respiração transporta as partículas daqueles que amaram antes de nós. Inspiramos mortos. Expiramos desejo.

Os amantes da antiguidade jazem nos seus sarcófagos de pedra, de mãos esculpidas. Entre os dedos, acumulam-se milénios de pó. O tempo passa, mas o gesto permanece – uma mão que segura outra. Apenas isso sobrevive: o toque.

O desejo não se opõe à morte; é o seu irmão gémeo. Nascem da mesma recusa – a recusa em terminar. Eros e Tanatos não são inimigos, mas cúmplices: no tremor do orgasmo, o corpo ensaia o seu espasmo final. Na quietude da morte, persiste algo do prazer: a paz de ter cessado a fome.

Os antigos colocavam moedas sobre os olhos dos mortos – estipêndio pela travessia, mas também oclusão do olhar. O desejo começa com a visão; a morte extingue-o. Mas talvez Caronte, remando pelo Estige, desejasse também – o toque da moeda, o brilho do que um dia fora quente.

O tempo é frágil porque pode ser interrompido. No amor, o tempo dobra-se; na morte, ele pára. Ambos revelam que nunca foi linear – foi sempre um círculo, um regresso. Os gregos chamavam a isto ἀνάγκη (anánkē – necessidade), a eterna recorrência daquilo que tem de ser. Nascemos dos corpos de outros; regressamos a eles em sonhos, em gestos, nos gemidos que escapam quando lhes tocamos. A própria linguagem transporta a memória da carne: amor, mors – o amor e a morte diferem numa única letra apenas.

Penso naquela mulher de Pompeia, petrificada em cinzas: a sua mão estende-se ainda – talvez em direção a um amante, talvez em direção ao ar. Capturado neste gesto, o seu corpo não está vivo nem morto. Ela é puro desejo: um movimento suspenso no tempo. É isso que nos resta – não o corpo, não o nome, mas um gesto. Um chamamento que nunca encontra resposta.

O paradoxo do desejo é que procura união, mas prospera na distância. Se algum dia alcançássemos completamente o outro, desapareceríamos. Platão compreendeu-o quando falou de Eros como um daimon (Simpósio 203b) metade deus, metade mortal, eternamente incompleto.

O desejo é esse espaço entre. E é nesse espaço que vivemos – trémulos, efémeros, luminosos. Cada abraço reabre a primeira ferida. Cada beijo repete a primeira respiração. Cada perda ensina a mesma lição: que o tempo não é um rio, mas uma pulsação que, uma vez batida, desaparece.

O corpo sabe-o mesmo quando o espírito o esquece: lembra-se do mar que deu à luz Afrodite, lembra-se da espuma, do céu despedaçado; lembra-se dos mitos porque é feito deles; lembra-se porque precisa de morrer. No final, o amor é a forma mais antiga de luto. Desejamos porque perdemos algo que não conseguimos nomear. Fazemos de um outro corpo uma ponte para essa ausência: atravessamo-la, sabendo que vai ruir, e a esse desmoronamento chamamos prazer.

Viver é desejar o que vai desaparecer. Morrer é não mais desejar. Entre ambos, resta um tremor – e a isso chamamos corpo.