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O PSD vive numa mistura de esperança e de desorientação. Esperança porque as autárquicas e o desentendimento entre as esquerdas sinalizam o fim do actual ciclo político; desorientação pois não sabe quem vai apresentar para primeiro-ministro.

É extraordinário que o partido que salvou o país da bancarrota atravesse uma das maiores crises da sua história enquanto o que conduziu o Estado à falência seja governo. Das várias explicações para o fenómeno, uma é fatal: parte do PSD não se orgulha do que fez entre 2011 e 2015. Não se orgulha, não se congratula com isso, pois há quem naquele partido discorde do que foi feito nesse período. Há quem no PSD ainda procure no Estado o motor da economia. Quem considere que sem um Estado activo e interveniente, a economia regride e as pessoas vivem pior. É esta falta de orgulho no que se fez entre 2011 e 2015 que dá origem à confusão que se assiste no PSD desde 2018. É esta falta de convicção que pode levar a que a direita perca mais uma oportunidade para inverter o fado a que o socialismo nos condenou.

Portugal está pior que em 2015. Por muitas tabelas, gráficos, esquemas e profissões de fé que nos apresentem, Portugal está pior porque as perspectivas são piores. A dívida pública bateu todos os recordes e há uma sensação de que o esforço feito de pouco serviu. Pior: que, apesar desse esforço, o país continua nas mãos dos mesmos donos; sujeito à satisfação do mesmo tipo de interesses; dependente dos fundos europeus e sem perspectiva de desenvolvimento sustentado, ou seja, de um desenvolvimento capaz de gerar riqueza que se distribua através do trabalho.

É a este Portugal descrente e decepcionado que a direita se deve dirigir. Não com o aceno de fundos  vindos de Bruxelas, mas com políticas públicas que conduzam ao crescimento económico, a um desenvolvimento que não passe por mais dívida, mas mais riqueza efectiva. Que reduza o desemprego com trabalho e não com empregos no Estado pagos com ajuda externa. Uma direita que fale das leis laborais sem complexos; que reconheça e diga que é a falta de capital que hipoteca o nosso futuro; que apresente uma visão de país e de vida em comunidade oposta à “organização da sociedade e da economia” que o BE quer impor ao país por via do PS. Uma direita que combata politicamente este processo de empobrecimento generalizado em que apenas os poderosos e os que cultivam boas relações com o poder conseguem singrar. Uma direita que faça os mais novos ficarem em Portugal por sentirem que, com dedicação e trabalho, é possível ir além da mediocridade. Uma direita que não aceite desvios ao Estado de Direito que é o último garante da liberdade e da igualdade perante a lei.

Para que tal aconteça o PSD não precisa apenas de um novo líder; necessita de um outro rumo. Tem de convencer os restantes partidos da direita a contribuírem para a apresentação de um projecto político mais liberal que o seguido até ao momento pelo actual governo das esquerdas unidas. Falta-lhe também sair debaixo do guarda-chuva de Marcelo Rebelo de Sousa. O presidente da República está desejoso de mandar na direita e, com uma esquerda dividida, dirigir o país. Além de tal constituir a uma desfiguração do sistema por portas travessas, Marcelo é a antítese do que carecemos e que referi em cima. Por muito que nos custe aceitar Marcelo aprecia este Portugal pobre e dependente que permite que o poder político o trate com uma mistura de condescendência, paternalismo e magnanimidade. Dito de outra forma: além de um líder e de um rumo, seria bom que o PSD se opusesse a Marcelo pois sob a protecção deste a direita não se une.

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