Tiago sairia de casa às 8h30 da manhã, como de costume. Era uma terça-feira. Caminharia apressado pelo bairro, para chegar no trabalho no horário certo. Mas, bem no momento de atravessar a Avenida da República, Tiago sentiria seu iPhone vibrar no bolso. Pegaria para olhar. Era uma mensagem da Joana. Ele iria rir e daria mais um passo para a frente enquanto olhava a tela. O sinal estava fechado para pedestres. O Renault Mégane pegaria Tiago em cheio e ele não resistira ao traumatismo craniano. Mas Tiago não saiu de casa naquela terça. Estava em home office.

Ana não iria ligar muito para a tempestade que estava caindo. Pensaria que seu cabelo já estava precisando ser lavado e que ela já estava a caminho de casa. “Se me molhar, paciência. Chego em casa e vou para o banho”. Ela tinha esquecido o guarda-chuva no escritório. Caminharia pela rua encarando a chuva forte sem medo. Mas haveria um raio. Um único raio. Ele pegaria Ana em cheio. O velório de Ana seria com o caixão fechado. Ninguém aguentaria ver aquela imagem. Mas Ana não saiu de casa. Ana assistiu à tempestade pela janela, com um caneca de chá e suas pantufas cor de rosa.

Fernando, cansado de tudo, do trabalho, da família, do chefe, da casa, decidiria ir beber num bar com seu amigo Alexandre. Começaria com cerveja. Depois migraria para o vinho. Mas, por fim, acabaria no whisky. Mas não em apenas uma dose. Alexandre acompanharia o ritmo. Até que Fernando se lembraria daquela quantia que emprestou ao amigo em 2018 e que, até agora, não havia sido paga. Embriagados, começariam a discutir sobre o dinheiro e a coisa fugiria do controle. Começariam a brigar. Socos e pontapés. Até que Alexandre pegaria uma garrafa e a arremessaria contra o amigo. Ele seria socorrido, mas não resistiria. Morreria na ambulância. Mas Fernando ficou em casa. Ficou lá, reclamando do trabalho, do chefe, dos filhos e da mulher, atormentando a todos.

Cristina estaria voltando do trabalho no horário de sempre. A estação de metro utilizada por ela não era muito movimentada. Cristina tinha uma mania que afligia muita gente. Pisava na linha amarela da plataforma, aquela que divide a parte segura para esperar o metro da parte insegura. Às vezes Cristina até ia um pouquinho adiante dela. Gostava da faísca de adrenalina que aquilo lhe causava. Estaria, naquela quinta-feira, em cima da linha. Faltariam 20 segundos para a chegada do metro. Seria nesse momento que uma adolescente tropeçaria atrás de Cristina, esbarrando em suas costas. Cristina seria arremessada para frente. Não haveria tempo para o maquinista evitar o pior. Morreria na hora. Mas Cristina não saiu de casa. Cristina estava tomando um banho de banheira em sua casa, ouvindo Marvin Gaye.

João pegaria o carro do pai para ir até a casa de um amigo de faculdade. Na casa dele, pacotes de batata frita estariam espalhados pela mesa. Além da batata frita, haveria outras coisas que fazem mal à saúde. Algumas lícitas, outras ilícitas. João consumiria quase todas elas. Às 4h16 da manhã sairia da casa do Afonso, com aquela certeza da imortalidade que só sentimos aos 21 anos. O acidente seria num cruzamento. João veria o sinal amarelo de longe e aceleraria cada vez mais. O impacto seria contra um caminhão. Sua mãe seria a primeira avisada. Mas o João estava dormindo. Ficou no WhatsApp com uma amiga até as 2h36 da manhã, depois adormeceu.

Muito se fala sobre as vidas que o corona levou. Com toda razão, como é óbvio. Mas certamente há vidas que, por causa dele, continuarão existindo. Os acidentes que não aconteceram, as balas perdidas que não encontraram corpos, os atropelamentos sem vítimas, os homicídios que deixaram de suceder. Ninguém falou sobre essas vidas. E, quem sabe, talvez uma delas até seja a nossa. Sempre há alguma razão para agradecer.