1 Sexo e género

O argumento biológico que apresentamos na primeira parte do texto deve ser usado com cuidado, pois não é fácil distinguir se o que dizemos acerca de homens e mulheres se deve à sua biologia ou resulta do processo de socialização. Nem tudo é biologia, e não é por acaso que a cunhagem do termo “género” teve um impacto tão relevante na forma como pensamos. A distinção entre “sexo” e “género” permite separar comportamentos que são determinados biologicamente de comportamentos que são resultado do processo de socialização e que, nessa medida, podem não só variar entre culturas, como também ser modificados dentro de cada cultura.

A diferença entre a dimensão natural e a dimensão social ficou especialmente evidente ao longo do século XX por termos assistido a profundas mudanças sociais e materiais. Por um lado, as duas guerras mundiais conduziram à entrada maciça das mulheres no mercado de trabalho, desempenhando tarefas que cabiam aos homens; por outro lado, os desenvolvimentos tecnológicos tornaram algumas profissões menos dependentes de força física e levaram ao crescimento do emprego no setor terciário, ampliando a participação laboral das mulheres.

A distinção entre sexo e género tornou-se aí evidente: parte substancial da rigidez das sociedades tradicionais no que diz respeito aos papéis sociais de homens e mulheres dissolveu-se e tornou-se mais claro o que era convencional e o que era natural. O problema é que se gerou uma tal obsessão com a igualdade que se absolutizou o género, levando à desconsideração da dimensão natural. Este é um aspeto fundamental para compreender a evolução da teoria e da prática políticas nas últimas décadas do século XX até aos nossos dias: o problema não está no reconhecimento do género enquanto papel social, mas está no passo seguinte de esquecer que o “sexo” também existe, ou seja, que existe uma realidade material, biológica e condicionada por mecanismos evolutivos e adaptativos que não podemos recusar.

Não é difícil de compreender por que razão este esquecimento foi levado a cabo: se o objetivo é criar uma sociedade nova, isso só é possível se tudo for socialização e não houver limites ao que podemos modificar. Se existir algo como uma natureza ou a realidade, então temos de admitir que há limitações para as nossas utopias políticas – algo que poucos sonhadores estão dispostos a aceitar.

Voltaremos à questão da absolutização do género na próxima semana. Por agora importa concentrarmo-nos na questão que aqui nos trouxe: se nem tudo é género e existem diferenças naturais entre os dois sexos, será possível falar de um impacto específico das mulheres na sociedade?

2 As mulheres mudam a política?

Como vimos, é possível recorrer a vários estudos etnográficos para reconhecer estruturas comportamentais típicas das mulheres e o trabalho de Joyce Benenson oferece-nos ferramentas curiosas para pensarmos num possível efeito feminino. De acordo com Benenson, as mulheres são mais igualitárias do que os homens: tendem a ser menos competitivas e a apreciar menos hierarquias, distribuindo os recursos de forma mais igualitária. Cory Clark sugere que este traço do comportamento feminino se relaciona com a inflação das notas que se tem verificado nos Estados Unidos, e esta pode ser uma boa hipótese de trabalho para analisar o caso português: como o mundo da educação se tornou praticamente um domínio das mulheres e elas tendem a ser mais igualitárias na distribuição das notas, a avaliação passou a ser nivelada por cima, com menor valorização do mérito.

Clark sugere que a ocupação do espaço público pelas mulheres tem tido outros efeitos: como são mais igualitárias e mais empáticas para com os grupos entendidos como vulneráveis, uma maior presença feminina no mundo político explicaria o sucesso de certos movimentos nas últimas décadas, como os relativos aos homossexuais ou à agenda animalista; e o mesmo valeria para a maior atenção que tem sido dada às questões relacionadas com a saúde mental. Poderíamos ainda referir o desenvolvimento de teorias feministas no domínio das relações internacionais, especialmente nos países nórdicos, que se afirmam como mais pacifistas, bem como o facto de as mulheres tenderem a ser mais favoráveis a políticas de apoio social por parte do estado.

Este argumento permitiria compreender melhor o gender gap [a diferença política entre os sexos] que os estudos recentes têm demonstrado e que se revelou também nas últimas eleições na Alemanha, com as mulheres jovens a movimentarem-se claramente para a esquerda do espectro político, enquanto os homens jovens só ligeiramente o fazem para a direita. Considerando que a agenda progressista tem adotado um discurso centrado em questões de justiça – racial, de género, ambiental –, não é surpreendente que esta se tenha tornado mais apelativa para as mulheres, sobretudo as que ainda não tiveram filhos e que, nessa medida, deslocam o seu instinto de proteção para os grupos percecionados como vulneráveis, como Clark e Louise Perry discutem aqui.

Desafiando o paradigma liberal – que, na senda de Immanuel Kant, tende a universalizar o sentido do humano e a desvalorizar a dimensão da identidade –, seria possível afirmar que as mulheres podem trazer um fator de novidade para a política, oferecendo novas interpretações dos factos e condicionando as políticas públicas que são adotadas. Simplesmente, não podemos confundir novidade com bondade. Trata-se de um erro muitas vezes formulado nesta discussão: mas ser diferente não significa ser melhor.

Este argumento apresenta ainda uma especial vantagem interpretativa por nos tornar mais capazes de compreender um fenómeno que parece surpreender a maioria dos comentadores: por que razão existem tantas mulheres em partidos de direita radical, apesar de estes parecerem defender políticas desfavoráveis às mulheres? À esquerda, muitas feministas acusam estas mulheres de estarem submetidas à lógica do patriarcado, mas se considerarmos o modo como as mulheres foram desenvolvendo estruturas adaptativas para lidar com as suas particularidades biológicas, é possível reconhecer que discursos centrados na família e na segurança e que apelam a motivações menos individualistas e mais direcionadas para o grupo e para a pertença se tornam mais atrativos para as mulheres e mais próximos dos seus interesses. E elas encontram isso nos partidos mais identitários, quer à esquerda, quer à direita.