“O secretário-geral do PS, Pedro Nuno Santos, disse este sábado que está a falar com muitas personalidades da área socialista sobre as eleições presidenciais, mas sublinhou que ainda não é o momento de o partido decidir qual o candidato que vai apoiar.” Há palavras que têm o condão de nos desviar o pensamento. No meu caso foram as “personalidades”.
Num ápice imaginei-as logo a caminho do Largo do Rato com o perfil auto-satisfeito que inevitavelmente se associa a alguém de quem se diz “é uma personalidade”. O pior é que as “personalidades” não me deixavam concentrar no que pretendia escrever e que para todos os efeitos se resumia a isto: a PSP foi a grande vencedora das manifestações de sábado. A esquerda, e até a extrema-esquerda, perceberam que não só não ganhavam nada em hostilizar directamente a polícia como arriscavam ainda perder apoio popular. Assim tudo acabou numa demonstração da capacidade da PSP em garantir a segurança a manifestantes, contra-manifestantes, jornalistas e passeantes que também não pareciam interessados em confrontos. Feita esta espécie de disclaimer — eu bem queria escrever sobre outro assunto mas as personalidades não deixaram — passemos ao incontornável: as personalidades. Aquelas, muitas, “da área socialista” que o líder do PS está a ouvir sobre as próximas presidenciais e as outras, socialistas e não socialistas, que vicejam por aí. Em Portugal, personalidade que se preze assina mês sim mês sim uma carta-aberta. No mês passado tivemos as “Vinte e uma personalidades portuguesas assinaram uma carta aberta com acusações ao primeiro-ministro. Consideram a operação da PSP no Martim Moniz um “ataque ao estado social e de direito”. Dizem que as imagens de imigrantes encostados à parede lembram outros tempos em Portugal.” Em Janeiro, nova carta-aberta e “Mais de 200 personalidades assinam carta para reforçar direito à IVG” . Na verdade as personalidades em causa pediam não só o alargamento do prazo para a realização do aborto como aquilo que designam por “regulamentação do direito de objeção” e que mais não é que uma tentativa de acabar com o direito de objecção de consciência. Esta carta-aberta teve uma vida atribulada entre as personalidades promotoras, as personalidades subscritoras e a personalidade TSF. Segundo se lê no site daquela rádio sobre esta carta-aberta: “Notícia corrigida às 09h41 retirando a nota de que a deputada Joana Mortágua é promotora da carta, ela é apenas subscritora. Retirada também a expressão “pessoas grávidas” que estava na versão inicial da carta lida pela TSF, mas não no texto final.” Em resumo, quem se mete com as personalidades leva!
Não duvido que dentro em pouco outras personalidades ou mais provavelmente as mesmas lançarão outra carta-aberta, pois havendo personalidades à direita e à esquerda, há que convir que a esquerda não só tem mais personalidades como que a verdadeira personalidade, aquela personalidade com denominação de origem, património imaterial (ou quiçá material) de Portugal, essa personalidade é de esquerda. E se por acaso não era logo, passa a ser, porque o trilho que leva do estatuto de pessoa ao de personalidade fica muito mais abreviado.
Mas deixemos estas personalidades em paz. E as outras também. O que por agora me desatina é mesmo saber que Pedro Nuno Santos anda por aí a dizer a quem o quer ouvir que “está a falar com muitas personalidades da área socialista sobre as Presidenciais” (há quem esteja no céu por menos!). Calculo que Pedro Nuno Santos, que não tenho na conta de estúpido, sabe muito bem que 100% das personalidades da área socialista com quem fala sobre as Presidenciais estão convictas de que ele ou ela próprias seriam o melhor candidato que o PS poderia ter na corrida para Belém. As personalidades são assim mesmo, caso contrário não seriam personalidades!
Com isto não quero dizer nem sugerir que Pedro Nuno não as deve escutar, às personalidades da área socialista, mas como é óbvio vai enxofrar vários egos. Mas o que para o caso convém é que Pedro Nuno Santos não esqueça que os líderes não podem trocar o povo pelas personalidades. Seja para reagir a uma operação policial, seja para escolher um candidato presidencial. Quando se lidera um partido de poder, trocar o povo pelas personalidades é um erro fatal.
No caso da segurança e da operação policial no Martim Moniz, é óbvio que aquilo que dizem as personalidades não coincide com o que diz o povo nomeadamente o povo que vota PS. Basta ouvir os autarcas socialistas para perceber essa clivagem. Já quanto à escolha do candidato presidencial a ser apoiado pelo PS, desejo a maior sorte a Pedro Nuno Santos porque para tristes figuras nessa matéria já temos Luís Montenegro.