A Chicago Booth School of Business tem um painel de economistas a quem pergunta regularmente as suas opiniões profissionais sobre assuntos económicos. Este painel é composto pelos melhores economistas do mundo, de vários quadrantes ideológicos, vários dos quais ganharam o Nobel da Economia. Mais de 40 economistas deram a sua opinião sobre os custos e benefícios do comércio internacional. Quando questionados sobre se os benefícios do comércio internacional no crescimento económico e para os consumidores são superiores a qualquer custo pontual em indústrias específicas, exactamente zero destes 40 economistas de topo discordou da afirmação. Quando questionados sobre se o acordo da NAFTA (North American Free Trade Association, um acordo comercial dos EUA com o México e o Canadá feito nos anos 90, para maior integração económica dos três países) foi positivo, mais uma vez, nenhum dos 40 economistas discordou. O consenso generalizado é que a NAFTA foi positiva e o comércio internacional livre – sem tarifas e sem quotas – também.

Perante este consenso dos economistas, importa então fazer duas perguntas: em primeiro lugar, por que é que as políticas comerciais proteccionistas parecem actualmente fazer sucesso político? Em segundo lugar, por que é que Donald Trump, eleito pelo partido Republicano, parece gostar tanto de tarifas a ponto de poder vir a desencadear uma guerra comercial entre as principais potências económicas do mundo, cujos efeitos deixarão a grande maioria das pessoas bem pior? O puzzle é especialmente interessante porque o partido Republicano era, tradicionalmente, o partido que acreditava nos mercados livres, na globalização económica e nos benefícios do capitalismo.

Para responder a estas questões importa regressar ao início do século. Em 2001, a China entrou na Organização Mundial do Comércio. Este evento parecia marcar a definitiva vitória do liberalismo económico e do capitalismo. Após a queda da União Soviética e o início da liberalização da economia Chinesa iniciada por Deng Xiaoping em 1979, até o regime comunista chinês parecia apoiar agora com uma das pedras basilares do capitalismo e da ordem international liberal.

A entrada da China na OMC foi um evento verdadeiramente transformador: retirou milhões e milhões de pessoas da pobreza e encaminhou-as para as classes médias não só na China mas também, como num dominó, em muitos outros países em desenvolvimento. Nas economias mais avançadas, na Europa e nos EUA, as classes médias tiveram acesso a um estilo de vida mais confortável do que nunca porque muitos dos produtos que consumiam tiveram uma diminuição considerável no custo – mesmo que o discurso corrente se ocupe da nostalgia por um período passado idealizado. E muitas empresas ocidentais (e os donos e trabalhadores) puderam beneficiar dos produtos chineses na sua actividade e da especialização inerente à divisão do trabalho a nível internacional.

Pouco mais de uma década volvida, os economistas David Autor, David Dorn e Gordon Hanson publicaram um influente estudo a examinar os efeitos da entrada da China na OMC no mercado de trabalho norte-americano, em particular em diferentes mercados de trabalho locais. Sendo certo que o comércio internacional beneficiou o crescimento da economia norte-americana como um todo e os consumidores espalhados por todo o país, o impacto do choque Chinês não foi o mesmo em diferentes regiões do país. Algumas zonas geográficas – aquelas que anteriormente albergavam indústrias que foram substituídas pelas chinesas – sentiram o impacto nos seus mercados de trabalho locais. David Autor e co-autores mostram que, nessas zonas, o desemprego aumentou, a participação na força de trabalho diminuiu (porque algumas pessoas simplesmente desistiram de procurar emprego) e os salários locais também diminuíram por causa da entrada dos produtos manufacturados na China.

Isto importa por duas razões. Primeiro, ao contrário do que é idealizado nos modelos económicos mais simples, os mercados de trabalho são locais: as pessoas não se movem de forma absolutamente fluida entre regiões do território, porque têm redes sociais, famílias, laços, passados e conhecimentos locais, etc. E, apesar da economia norte-americana como um todo ter vivido um período de crescimento e tenacidade consideráveis nas últimas décadas, há certos locais onde as dinâmicas económicas foram bem menos positivas.

O segundo motivo pelo qual isto importa é que, por motivos históricos, a representação política se faz com base no território. Nos Estados Unidos o Presidente é eleito pela soma de vários territórios de uma forma não proporcional à população. Isto significa que, se as perdas e dinâmicas económicas negativas estiverem concentradas no território, e se esse território tiver peso eleitoral, então o seu impacto político será desproporcional ao seu tamanho populacional. Para alguém cuja família trabalhava numa indústria que entretanto fechou não importa se pessoas noutros sítios do país estão a ganhar mais ou se os consumidores norte-americanos pagam menos pelos seus produtos. As perdas de emprego são visíveis, causam impactos sociais e económicos locais consideráveis e estão concentradas num grupo pequeno de pessoas. Os ganhos dos consumidores são difusos, são menos visíveis e estão espalhados por todo o lado. De facto, Autor e inúmeros outros economistas e politólogos já demonstraram que nestas zonas o swing eleitoral a favor de Donald Trump foi maior (na eleição de 2016). Entre eles, os famosos estados do Midwest, a cintura industrial americana no século XX. Esta parte da base eleitoral de Donald Trump entrou no consciente colectivo e do próprio presidente norte-americano como motores do seu sucesso político.

Claro que alguém ultra racionalista, como um economista, responderá que, como o comércio internacional permitiu à economia norte-americana como um todo crescer, seria teoricamente possível compensar todos aqueles que perderam o seu emprego e os ganhos obtidos ainda sobrariam. Se assim fosse, todos ganhavam com a abertura ao comércio internacional. Há, no entanto, dois problemas. O primeiro é que os programas de redistribuição e compensação não são tão robustos como deveriam ser e são politicamente difíceis de implementar. O segundo é que não é fácil desenhar programas que compensem de forma total estas pessoas de uma forma digna: não basta dar dinheiro às pessoas, é preciso também reintegrá-las no mercado de trabalho, por uma questão de dignidade pessoal dos próprios. Como sabemos, estes dois problemas foram mal resolvidos nas últimas décadas, em parte porque vários políticos (incluindo do partido Republicano) não prestaram suficiente atenção a estes problemas, acabando por espoletar o actual backlash contra o comércio internacional.

No entanto, importa também referir que o sucesso político destas ideias vai muito para além das suas raízes materialistas. Os próprios autores do estudo que apontei em cima mostram como apenas um quarto do declínio da indústria americana vem do comércio internacional: a maioria do declínio explica-se pela mudança tecnológica. Simultaneamente, durante o mesmo período, desde o início do século, também houve um movimento geográfico muitas indústrias norte-americanas que se deslocaram do Midwest para estados do Sul, porque a mão-de-obra era significativamente mais barata. No entanto, não vemos movimentos políticos populares dos estados do Midwest contra os estados do Sul. É na comparação com essas deslocalizações geográficas e com as reacções políticas às mudanças tecnológicas que podemos constatar que o poder do apelo contra o comércio internacional como arma política vai muito para lá das suas raízes económicas. Vem também de uma componente não materialista, nomeadamente nacionalista e identitária.

Muitos eleitores – e arriscaria dizer que o próprio Donald Trump – vê o comércio internacional não como actividade económica, segundo uma lógica económica, mas sim como arma de afirmação da comunidade nacional e do poder nacional dos países. Nesta visão, importar produtos é uma fraqueza e muito pouco viril. As indústrias e as economias dos outros países são uma ameaça à nossa afirmação à escala global. Só assim podemos explicar a obsessão exagerada de Donald Trump com as tarifas. A perda económica potencial ao implementar tarifas de 25% sobre todos os bens vindos do México e do Canadá vai muito para além de qualquer racionalidade económica ou da tentativa de salvar e fomentar indústrias específicas (que poderiam ser protegidas com tarifas específicas, ou melhor ainda, com outros tipos de investimentos nas mesmas). A perda enorme produzida por tarifas deste tipo seria sentida por todos os eleitores e por todos nós.

Para já, Donald Trump recuou e suspendeu durante um mês o início das tarifas com o Canadá e o México. Apesar das suas justificações retóricas, aquilo que “conseguiu” extrair da presidente mexicana e do primeiro-ministro canadiano são medidas perfeitamente banais, que iriam ocorrer e ocorrem frequentemente num mundo sem qualquer anúncio de tarifas exageradas. Pior, mesmo que estas tarifas em concreto não venham a ser implementadas, a política comercial não é para negociar mês a mês: as empresas, a actividade económica e o investimento precisam de estabilidade e o mínimo de previsibilidade. Donald Trump mostrou ser tudo menos confiável e estável. Demonstrou não ter qualquer problema em rasgar acordos feitos com outros países e até assinados por ele próprio na presidência anterior, sem qualquer motivo minimamente sensato para o fazer, como o próprio editorial do jornal conservador Wall Street Journal apontou. “The Dumbest Trade War in History”, nas palavras deste insuspeito órgão.

Os gestos simbólicos exagerados, a atitude fantasiada, a estética acima da razão e a emoção nacionalista podem ser bons para ajudar a ganhar eleições (ainda que precisem de ser complementados com ingredientes mais prosaicos, como a inflação ou o preço dos ovos). Mas são péssimos e perigosos conselheiros no que toca ao próprio acto de governar.