A aterosclerose é um processo natural que se inicia no momento em que nascemos e que vai evoluindo ao longo dos anos, a ponto de se tornar uma situação clínica em muitas pessoas. Essa “naturalidade” faz com que esteja distribuída por todo o mundo, mais nuns países do que noutros, sendo a diferença o resultado dos hábitos culturais de cada povo ou grupo social que analisemos.
É sobre isto que vou falar, num painel com outros especialistas, no evento “Debater para avançar”, promovido pelo Arterial, do Observador, no próximo dia 17 de novembro. Mais precisamente sobre os vários custos e consequências da deficiente abordagem que a sociedade portuguesa faz à problemática da aterosclerose.
O estilo de vida é, na maioria dos casos, o fator determinante para o ritmo de agravamento da aterosclerose. A componente genética também está presente, tornando cerca de 20% das pessoas menos passíveis de usufruírem de alterações de estilo de vida – mas também essa condição passará a ser possível de medicar dentro de muito poucos anos. Contribui ainda a presença de outras doenças em simultâneo como a diabetes tipo 2, a hipertensão, as doenças renais e do fígado, apenas para mencionar as mais frequentes.
A sua expressão nos sistemas de saúde é enorme: cerca de 85% de todas as mortes relacionadas com o sistema cardiovascular são devidas à aterosclerose, o que significa na Europa 3.900.000 mortos por ano, ou seja, próximo de 45% de todos os óbitos. Igualmente a sua expressão económica é proporcional à demográfica, portanto gigantesca — qualquer coisa como 1% de toda a riqueza produzida num país europeu no espaço de um ano. Em 2016, foi calculada para Portugal e o valor apurado rondou os 1.900 milhões de euros.
Estes números não são apenas estatísticas: correspondem a famílias que perdem pais, mães e avós demasiado cedo, muitas vezes em circunstâncias que poderiam ser evitadas.
A pergunta que se impõe é: se conhecemos razoavelmente bem a sua natureza biológica e clínica, se há ferramentas de diagnóstico, medicação, cirúrgicas e abordagens complementares de excecional qualidade, e se o custo humano e económico é tão brutal, porque não se age de forma similar ao que, há 50 anos, acontece na prevenção da sinistralidade rodoviária? Essa é uma pergunta a que ministros e outros gestores de saúde devem responder à população.
Desde que o país ganhou a consciência da sinistralidade rodoviária, nos anos 70, até agora, reduziu-se em 80% a mortalidade e ainda hoje há (e bem) permanentes campanhas para prevenção de acidentes, que continuam a causar quase 500 mortos por ano. Bem, as doenças decorrentes da aterosclerose, como os AVC e os enfartes (entre várias outras), causam mais de 30 mil mortos todos os anos em Portugal! É capaz de justificar uma atenção diferenciada, programas vigorosos e forte empenho de todos – desde o cidadão, no seu próprio interesse de sobrevivência, aos mais elevados escalões do Ministério da Saúde. E é possível fazer muita coisa: a questão é querer mudar.
A principal chave para reduzir a carga de doença aterosclerótica está na alteração do estilo de vida que quase todos seguimos — eu próprio incluído. Isto é, não basta que haja o conhecimento do risco e de como ele se processa. Tal é importantíssimo, mas, muitas vezes, insuficiente face às tantas outras solicitações que a vida nos impõe e torna sedentários, à oferta de comida e tradições culturais que incorporámos. Fosse o conhecimento suficiente e não exagerávamos nos doces no Natal, ninguém bebia em excesso, comia demais, fumava, deixava de praticar exercício físico.
É nesta dualidade entre saber e ser capaz de concretizar as consequências do saber que surgem as políticas públicas de saúde — o motor que nos leva a adotar melhores estilos de vida, mais conscientes do risco e, em suma, mais saudáveis. Cada um de nós pode reduzir o risco individualmente, mas é fundamental que o Estado e a sociedade criem condições para escolhas mais saudáveis — tal como acontece com a segurança rodoviária.
Esta é a génese do projeto CPO (Cardio Policy Optimiser), que nasceu no NOVA Center for Global Health (NCGH) da NOVA IMS, Universidade Nova de Lisboa. Trata-se de um projeto internacional que visa modelar o impacto da aterosclerose em vários países europeus, incluindo Portugal, e estima, num horizonte de 10 anos, o que se pode ser prevenido com recurso a políticas de saúde pública.
Para isso, foi criado o modelo ATHEROS, também ele desenvolvido no NCGH, que simula o efeito das 12 políticas de saúde pública atualmente com maior capacidade de impacto. Estão identificadas outras políticas, mas ou ainda não há capacidade de modelação ou o impacto é menor do que as escolhidas. É ainda possível calcular o custo da regressão da aplicação de políticas, elemento da maior importância numa altura em que pela Europa e além Atlântico se fala cada vez mais de redução de proteções de saúde. Os resultados podem ainda ser analisados por género e faixa etária. Em termos simples, é uma ferramenta científica que simula cenários: mostra quantas vidas e recursos podem ser poupados se reforçarmos as políticas de prevenção ou, pelo contrário, o que se perde se as abandonarmos.
Os resultados preliminares mostram que é possível fazer mais e melhor em Portugal. Se as 12 políticas forem aplicadas de forma mais vigorosa do que atualmente o são, os custos com a aterosclerose crescerão apenas ligeiramente — no essencial apenas o efeito da inflação, apesar do envelhecimento progressivo e do aumento populacional. Neste cenário, o tabagismo decai e a hipertensão e hipercolesterolemia [aumento da concentração de colesterol no sangue] estabilizam, e isso traduz-se, todos os anos, em menos 15 mil hospitalizações, 53 mil idas às urgências e 71 mil consultas médicas.
O contrário também é verdade. Se relaxarmos um pouco que seja a aplicação das políticas e seguirmos os maus conselhos que nos chegam, os fatores de risco tendem a agravar-se imenso. Os casos de hipertensão, por exemplo, podem subir até 18%, em que os custos dispararão até 1600 milhões de euros, o que significaria mais 5.600 hospitalizações, 16 mil episódios de urgência e 27 mil consultas do que atualmente. Em particular agrava-se enormemente o número de pessoas a necessitar de reforma antecipada.
A decisão está diante de nós: investir em prevenção e salvar milhares de vidas, ou continuar a pagar o preço da inação. Digam lá se não vale a pena apostar forte na prevenção e combate à aterosclerose.
Henrique Lopes é diretor do NOVA Center for Global Health e especialista em Educação para a Saúde, Políticas Públicas e Vacinação. Colabora com a Organização Mundial da Saúde e a UNESCO, sendo membro do Comité Mundial de Educação ao Longo da Vida. Integra ainda a Mission Board Vaccination Europe e a task force da ASPHER para emergências em saúde, sendo autor de 17 livros e mais de 200 publicações científicas. É um dos cronistas convidados do Arterial, a secção do Observador exclusivamente dedicada às doenças cérebro-cardiovasculares.
Antes de sair, temos três perguntas relacionadas com o artigo que acabou de ler. É um mini-questionário muito rápido e totalmente anónimo.
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Arterial é uma secção do Observador dedicada exclusivamente a temas relacionados com doenças cérebro-cardiovasculares. Resulta de uma parceria com a Novartis e tem a colaboração da Associação de Apoio aos Doentes com Insuficiência Cardíaca, da Fundação Portuguesa de Cardiologia, da Portugal AVC, da Sociedade Portuguesa do Acidente Vascular Cerebral, da Sociedade Portuguesa de Aterosclerose e da Sociedade Portuguesa de Cardiologia. É um conteúdo editorial completamente independente.
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