Apesar de ainda não ser conhecida a data exacta em que os portugueses serão chamados às urnas para escolher os seus representantes nas diversas autarquias do país, alguns partidos políticos já iniciaram o anúncio dos nomes dos cabeças de lista que se irão apresentar a votos nas autárquicas de 2025.

Um desses partidos políticos é o Partido Social Democrata (PSD) que, tendo já anunciado um número considerável de candidatos, associou recentemente a essa mesma escolha a obrigatoriedade dessas pessoas serem comprometidas com a transparência, com a ética, bem como com a idoneidade, fazendo saber que ninguém acusado pela justiça será apoiado pelo partido e consequentemente anunciado, com o seu aval, como candidato nas eleições que se avizinham.

Este anúncio surge no rescaldo do alegado caciquismo, que se encontra vertido nas recentes acusações feitas contra 60 pessoas, colectivas e não colectivas, no âmbito do processo “Tutti Frutti” e que se traduz em pretensos crimes de corrupção, abuso de poder, prevaricação, branqueamento e tráfico de influência.

Ensombrado com o processo em apreço mas, ainda assim, mantendo o firme propósito tentar obter o melhor resultado possível nas próximas autárquicas, o PSD fez ainda saber que chamou a si, Direcção Nacional, a indicação de todos os candidatos em Lisboa, tentando criar aquilo que parece ser um invólucro de integridade à volta do partido e das suas escolhas para a capital.

A intenção é compreensível e parece até louvável.

Independentemente da presunção de inocência que a todos os acusados do processo “Tutti Frutti” assiste e de sabermos que somente os tribunais poderão vir a aferir se, de facto, algum crime foi cometido, é inegável que os recentes desenvolvimentos deste processo, que se iniciou quase há dez anos atrás, trazem uma nuvem de suspeição no que toca à actividade política a que ninguém pode ficar indiferente, manchando indelevelmente não só a vida politico-partidária como também o exercício de funções públicas.

O escrutínio dos candidatos autárquicos é assim, neste momento e mais que nunca, uma necessidade imperiosa para os partidos políticos, que não querem ver a sua marca política associada a problemas judiciais de candidatos, problemas esses que possam vir a colocar em causa a sua dignidade durante a campanha eleitoral ou, mais tarde, aquando do exercício de funções, se esses candidatos vierem a ser eleitos.

Mas como conseguirá a Direcção Nacional do PSD acautelar semelhante cuidado e escrutínio na escolha de todos os outros candidatos disseminados pelo restante território nacional?

Poderá estar a cair o PSD numa falácia, por não conseguir assegurar escolhas verdadeiramente impolutas para todas as outras autarquias do país, quando tentou fazê-lo a todo o custo em Lisboa?

A escolha de candidatos autárquicos no território nacional está nas mãos das concelhias e das distritais, cabendo, ao que se sabe, à Direcção Nacional uma simples homologação baseada nessas decisões. Mas, sabendo que as concelhias e as distritais podem ter interesses em apontar este ou aquele candidato, quanto mais não seja pela orfandade de candidatos existente nessas estruturas para poder cumprir esse desígnio, como pode o PSD assegurar uniformidade procedimental na escolha de candidatos eticamente irrepreensíveis atendendo que, a título de exemplo,  muitos dos actuais incumbentes e propostos a reeleição se encontram manietados em processos judiciais de semelhante calibre ao processo “Tutti Frutti”?

Como irá este partido político actuar no país depois dos procedimentos que cuidadosamente instituiu para Lisboa?

Poderão vir a ser indicados candidatos acusados pela justiça pelo Partido Social Democrata, nas próximas autárquicas, no restante território nacional?

E os arguidos?

Permitirá o PSD a indicação de arguidos para encabeçarem listas autárquicas no território nacional?

É que apesar de todos sabermos que a constituição de um cidadão como arguido não pode ser critério para o seu afastamento da vida política, pois tal seria uma condenação em praça publica e não na justiça como é expectável, a verdade é que essa condição prejudica a imagem desse mesmo candidato e, consequentemente do partido que o endossa, criando sobre o candidato um halo de suspeição, proporcional ao número e ao teor de inquéritos que sobre ele possam eventualmente pender.

Uma coisa é certa, as escolhas que serão feitas para as próximas autárquicas, quer pelo PSD quer pelos restantes partidos políticos, irão contribuir para a sobrevivência, a longo prazo, dos mesmos.  Isso é certo! Porque os partidos políticos só existem enquanto mantiverem simpatizantes e as pessoas mantiverem a vontade de os suportar através do voto. As más escolhas dos partidos toldarão o seu futuro e contribuirão, não tenhamos dúvidas, para o contínuo crescimento de partidos populistas.

Com isto em mente, aguardemos pois para saber se a fruteira de candidatos apresentada para as autárquicas terá fruta fresca ou aprodrecida!

(Escrito de acordo com o antigo acordo ortográfico)