Os deputados ingleses encontraram finalmente um mínimo comum para aprovarem as condições do Brexit. Agora é preciso que os governos da UE27 e o Sr. Tusk também tenham bom senso e aproveitem a oportunidade para resolver de vez esta questão.

1 – A Primeira-Ministra Theresa May, uma “remainer”, não soube liderar as negociações sobre o Brexit com a UE27.

Após quase dois anos de conversações, Theresa May apresentou um acordo de saída totalmente inaceitável para os britânicos, que foi estrondosamente derrotado no parlamento.

Deixou que a saída ficasse refém de um mecanismo insignificante e desnecessário, o “backstop” para uma fronteira entre a Irlanda e a Irlanda do Norte, que nenhuma das partes deseja e que nem o “Belfast Good Friday Agreement” exige.

Além disso, aceitou que a negociação das condições de saída e da relação futura com a UE27 fossem feitas em separado, não garantiu que o Reino Unido pudesse negociar acordos comerciais com outros países, e deixou que se instalasse a ideia falsa de que os britânicos estariam a pagar 36 mil milhões de libras para sair.

No meio do processo negocial ainda convocou eleições gerais e defrontou uma tentativa de afastamento pelos seus colegas de partido.

2 – Ao contrário do que os jornais portugueses noticiam, a questão que dividiu os deputados britânicos nunca foi entre o “no deal” e o acordo para o Brexit negociado por Theresa May. Nunca nenhum deputado britânico defendeu como primeira opção a saída sem acordo. Essa opção só surgiu por causa da péssima negociação realizada pela Primeira-Ministra.

A divisão entre os deputados foi sempre entre sair ou ficar na União Europeia, não coincidindo de forma alguma com uma separação entre partidos.

Isto porque a maioria dos deputados votou contra a saída do Reino Unido (75%), os mesmos que aprovaram a realização do referendo por larga maioria, que confirmaram a saída em votação realizada em Fevereiro de 2017, e exactamente os mesmos que foram eleitos com base em manifestos políticos em que os respectivos partidos se comprometeram com a saída.

A realidade é que foram os deputados “remainers”, “tories” e trabalhistas, que prejudicaram os britânicos ao bloquear qualquer solução para o Brexit.

Os trabalhistas foram ainda mais longe, pois colocaram o interesse do partido em tentar forçar a realização de eleições gerais acima do interesse dos britânicos em ter uma saída negociada, que mitigasse os riscos e a incerteza.

3 – Finalmente parece haver um acordo no parlamento britânico. É um acordo frágil, que necessitou de apoio de alguns deputados trabalhistas para compensar os “tories” que votaram contra por se oporem à saída da União Europeia.

Mas é um acordo.

Havendo um acordo mínimo no parlamento inglês, e tendo a União Europeia já humilhado suficientemente o Reino Unido, de tal forma que outro país que queira sair já sabe com o que conta, chegou o momento de encerrar este processo.

Numa altura em que a economia europeia está a desacelerar e em que países como a Alemanha ou a Itália estão em risco de entrar em recessão, a resolução do Brexit reduziria o nível de incerteza e beneficiaria o crescimento e, por essa via, os nacionais de todos os países da UE27.

É preciso que os governos da UE27 e o Sr. Tusk tenham bom senso e aproveitem a oportunidade para resolver de vez esta questão, evitando adiamentos que prolongam dúvidas e ansiedades, e prevenindo a realização de eleições desnecessárias e ridículas (para o Parlamento Europeu) nas ilhas britânicas.

Director do Gabinete de Estudos do Ministério da Economia
O texto reflecte apenas a opinião do autor