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As pessoas, mal aprendem uma palavra, gostam de mostrar que a sabem usar. Aconteceu com “neoliberalismo” e agora é a vez de “populismo”. É claro que a maior parte das vezes o que mostram é que nãoa sabem usar. Mas isso não as incomoda, o que interessa é que o uso da palavra lhes dá o sentimento de entrarem em contacto com o mundo das ideias e com as combinações que esse mundo permite. Para dizer a verdade, a única coisa que surpreende é alguma falta de imaginação. Por exemplo, porque não adoptar como regra a utilização da expressão “neoliberalismo populista”? Que bem que ficaria num naco de prosa, desferindo um golpe certeiro em qualquer político de direita… Como em: “A União Europeia está a soçobrar às mãos do neoliberalismo populista importado dos Estados Unidos do Sr. Trump”. Não parece bem?

Mas fiquemo-nos pelos actuais usos da tribo, mais exactamente por “populista”. Já serve para tudo. O mais recente exemplo é o da aplicação da palavra a quem defendia a recondução no seu cargo da anterior Procuradora Geral da República, Joana Marques Vidal, desejo frustrado pela firme decisão de dois notórios inimigos jurados de toda e qualquer forma de populismo, o primeiro-ministro Costa e o presidente Marcelo, como Salazar apostados em nos proteger dos nossos próprios entusiasmos e maus usos da liberdade. Não se pode, nem se deve, dar tudo o que as crianças pedem. Mas, bem vistas as coisas, a utilização da palavra é reveladora. Fica-se a saber que o apreço por uma justiça que não pare respeitosamente à porta dos poderosos, como o fazia a dos saudosos Pinto Monteiro e Noronha do Nascimento, outros dois denodados anti-populistas, é uma coisa má (“populismo” significa: “coisa má”). Está-se sempre a aprender. E Marcelo, sempre professor, está sempre a ensinar. Ele e outro distinto teórico anti-populista, o Sr. Sócrates, que se ainda não escreveu um luminoso livro sobre a matéria, o fará certamente em breve. E deve mesmo valer a pena ler. Tudo em que o seu espírito toca é ouro.

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