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Caro Dr. Rui Moreira,

Aproveito sem vergonha o Observador para lhe vir dar conta de um problema que, creio, enquanto presidente da Câmara Municipal do Porto, está nas suas mãos resolver. Tranquilize-se desde já, peço-lhe. O problema em questão nada tem a ver com as supostas querelas com Manuel Sampaio Pimentel, vereador do CDS, que a imprensa noticia. Nem com a irritação que o rosto persistentemente feliz de Manuel Pizarro, feliz como que de natureza, suscita em certas pessoas. Nem sequer com a curiosa prosa que o vereador da cultura, Paulo Cunha e Silva, utiliza para apresentar o seu ciclo “Um objecto e seus discursos”, ao assinalar que semanalmente um objecto diferente (uma baixela em bronze dourado, por exemplo, ou o Manifesto Anti-Dantas) “será abordado no espaço onde se encontra por um técnico desse espaço e especialista nesse objecto e por dois convidados exteriores que o farão voar e transcender-se”.

Confesso que, neste último caso, a linguagem me parece um bom bocado cómica, mas, por um lado, enquanto houver pessoas que desejem voar e transcenderem-se sob o impulso enérgico de electrizantes “convidados exteriores”, a coisa de certo modo perdoa-se; e, por outro lado, nada no exercício perturba em coisa alguma pessoas pacatas e menos dadas ao vôo e à auto-transcendência em face de uma baixela de bronze dourado ou do Manifesto Anti-Dantas. Além de tudo, ponto importante, a Constituição permite.

O assunto para o qual peço a sua atenção não é político nem elevadamente poético. Respeita à decisão da Câmara de voltar a celebrar o S. João na Praça Mouzinho de Albuquerque, vulgo Rotunda da Boavista, depois dos vários anos da presidência de Rui Rio em que tal não aconteceu. Perguntará o Dr. Rui Moreira porque diabo o venho eu incomodar com isto e porquê só agora, sensivelmente dois meses e meio passados sobre o início da coisa. Respondo-lhe por ordem, e, no final, faço-lhe um pedido.

Porquê incomodá-lo? O melhor é contar-lhe uma história. Vivo num prédio que faz esquina com a Rotunda da Boavista, e quando, numa pacata quinta-feira, dezanove de Junho, me sentei na Rotunda em frente a uma mesinha a beber uma cerveja e a comer uma fartura, depois de olhar para várias apetecíveis mesas de matraquilhos, estava a milhas de imaginar o que se iria passar. Retrospectivamente, é verdade, a roda gigante não augurava nada de bom, nem os carrosseis e os carrinhos de choque. É fácil descobrir a origem do mal depois de ele se manifestar. A verdade é que, idiota que sou, não antecipei nada.

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Mas, sexta-feira de tarde, o mundo mudou mais do que alguém, mesmo alguém advertidíssimo da incerteza da existência, poderia esperar. Vinda do centro da Rotunda, uma voz gritava, amplificada por um potentíssimo aparelho sonoro: “Are you ready?”, “Arriba! Arriba!”, “Tudo nice?”, “Es-pe-cta-cu-lar!”, “Uau!”, e coisas assim. Com um entusiasmo e uma regularidade aterrorificantes.

É claro que me assustei. A atmosfera não era em nada balsâmica. E assustei-me cada vez mais à medida que as horas passavam e a coisa não parava. À noite, com as persianas fechadas e os vidros a tremer, era impossível ouvir música, ver um filme ou ler um livro. Acrescentei mais três portas fechadas dentro de casa e, como um animal acossado, enfiei-me, inerme, no quarto, o mais longe possível do horror. A voz continuava a berrar (“Arriba! Arriba!”) e um baixo persistente atacava, percutante, a noite. Adormeci por exaustão por volta da uma e meia da manhã, quando a gritaria parou, como alguém que, de repente, se vê livre de uma dor aguda e inteiramente absorvente.

Sábado foi a mesma coisa, salvo que naturalmente pior, porque estas desventuras deixam marcas na nossa “organização nervosa”, para falar como Júlio Dinis. Impossível fazer o que quer que seja, a não ser remoer o ódio. Domingo, fui almoçar a casa da minha mãe e cravei-lhe dois lorenins, para aquela noite e para a noite de S. João propriamente dita. Passou essa noite – o mesmo – e a noite de S. João. Terça-feira, feriado, e apesar da “organização nervosa” estar ainda mais debilitada, vi a manhã como uma manhã de Natal da infância. O pesadelo tinha acabado e o mundo ia renascer belo e puro. Ia finalmente poder ler, trabalhar, ouvir música.

O doce engano durou até cerca das quatro da tarde, altura em que os “Uaus!” e os “Arribas!” retornaram com inusitado vigor (ainda os ouço em imaginação). Às sete, enchi-me de coragem e dirigi-me ao centro do maelstrom sonoro. Aos berros (para ser ouvido), perguntei a um dos feirantes por que altura acabariam os festejos. Aos berros (para eu ouvir), respondeu-me: 13 de Julho. 13 de Julho, repito. Mas talvez um ou outro dos divertimentos, incluindo o sonoramente mais eloquente, fechassem antes. O que pensei, não digo. Refiro apenas que o feirante tinha razão, e que, embora muito amachucado, lá aguentei a longa provação. A prova é que estou aqui a escrever-lhe.

E porque lhe escrevo só agora? A verdade é que, no calor da coisa, cheguei a pôr em papel as minhas dores, no sentido de as dar a conhecer ao mundo e de designar os manifestos culpados. Mas, à última da hora, muito sensatamente, voltei atrás, porque elas vinham adornadas com uma cauda de raivazinhas malfazejas que não convinham. Um dos meus sonhos nesses dias, e nem sequer o pior, era, em memória do herói que dá nome à praça, o de colocar os responsáveis camarários pela catástrofe na posição humilhante do vátua Gungunhana em Chaimite, o filme de Jorge Brum do Canto. Se quiser, e para adoptar a linguagem do vereador da cultura, “voei” e “transcendi-me”: mas no pior sentido. A única solução era deixar passar o tempo, e, por assim dizer, “aterrar” e voltar a um estado pré-transcendente. Agosto, bondoso, lá deu uma ajuda, com alguns mergulhos e algum sol, e escrevo-lhe. Escrevo-lhe porque a ideia de que tudo se vá repetir para o ano me surge repetidamente, e com ela uma corte de pensamentos criminosos.

Não creia, por favor, que o “objecto S. João” me desagrade e que seja incapaz de produzir sobre ele “discursos” elogiosos. É uma tradição, as pessoas gostam, e eu, embora sem a energia do passado, também não me faço esquisito. É apenas a perspectiva de ter mais um mês de violência sonora e de trabalho perdido que me faz medo. E não só a mim, de resto. Resisto à tentação de lhe pedir para imaginar velhinhos doentes e acamados, obrigados a suportar, indefesos, a tortura. Até porque me poderia retorquir que, dada a idade, estarão provavelmente surdos e não sofrerão tanto assim com a berraria. Mas vária gente com quem falei, e que presumivelmente exprime os sentimentos de muitos habitantes da zona, me confessou, angustiada, idênticos temores. Por isso lhe sugiro – mais do que sugerir: imploro-lhe – que em 2015 as festividades sejam transferidas para um lugar (o Palácio de Cristal, por exemplo) onde não desgracem a vida de quem tem o grandíssimo azar de junto delas viver.

O que é que as pessoas querem quando elegem um Presidente da Câmara? Que gira eficazmente os vários equipamentos da Câmara; que cumpra as obrigações que a Câmara tem com os munícipes; que não gaste o dinheiro que não tem; que promova, da forma mais sóbria possível, a cidade; e que faça tudo isso, se possível, sem lixar a vida às pessoas. Enfim, deve ser mais ou menos isto. Admito humildemente que não pensei nunca muito na matéria. Mas não tenho a menor dúvida que o Dr. Rui Moreira – em quem, de resto, votei – é alguém atento a todas estas coisas e que este episódio do último S. João foi um passo em falso. Pedia-lhe, por isso, que meditasse seriamente a solução que lhe propus. Muita gente, certamente, lhe ficaria agradecida. Não “voaria”, provavelmente, mas ficar-lhe-ia agradecida.

Com os melhores cumprimentos,

Paulo Tunhas