1 – Primeiro andamento.

Na penumbra do imenso palco, um está sentado ao piano, o outro, pullover azul e microfone na mão, deambula, senta-se, volta a levantar-se. Às vezes sussurram os dois, às vezes Camané interpela os técnicos sobre o modo como nesse momento a luz incide sobre ele, às vezes há uma breve pausa, olham ambos para o papel com o alinhamento, monologam baixinho. E depois Mário Laginha volta a tocar e Camané volta a cantar. É o último ensaio, são os últimos retoques, a derradeira “volta” de aperfeiçoamento e detalhe antes da prova de fogo dessa noite na Casa da Música onde Camané se fará ouvir apenas acompanhado pelo piano de Laginha. Que o mesmo é dizer, com aquela convicção de aço que ponho quando a pele e o coração me dizem que estou absolutamente certa, que estou a falar de dois sobredotados. E da incrível, indefinível, jubilosa, sorte que temos em eles terem ambos nascido em Portugal. De os poder ter aqui mais à nossa mão.

Segundo Andamento.

Uma vez, há muitos anos, fui sozinha à Aula Magna ouvir Camané. E naquela brevíssima pausa que por vezes acontecem aos fadistas no “swing” de uma frase, ouviu-se uma voz feminina soltar-se da plateia para o palco “Ai… Camané”. Era aquilo mesmo, que outra coisa dizer, nunca mais me esqueci. E hoje, na tarde ensolarada do Porto onde vim para este espectáculo, assistindo ao ensaio na deserta plateia prateada da Casa da Música, mais uma vez percebo que mais nada senão aquele “ai Camané” pode rematar o fulgor do “Com que voz”. E pode – se é que pode – oferecer-nos, em estado quimicamente puro, o desamparo de “Abandono”, que ouço agora. Momentos de graça, também percebo.

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