Em geral, para tentar explicar o que estamos a viver, é costume remeter-se para O Mundo de Ontem, de Stefan Zweig, ou para obras de Joseph Roth e de Fitzgerald, sem esquecer Thomas Mann ou Franz Kafka. Há, no entanto, algo que podemos acrescentar: o inusitado King Kong, cuja primeira versão (1933) é contemporânea de Zweig e de Roth.

A história é conhecida. No meio de uma profunda crise, civilizacional e pessoal, um realizador parte em busca de uma ilha mítica, com o pretexto de rodar, a partir dessa experiência, um filme. A ilha, afinal, tem pouco de mítico, e todos acabam por se deparar com uma civilização primitiva que oferece mulheres a Kong, um deus-gorila gigante. Essa civilização captura Ann Darrow, a estrela do filme, que, depois de algumas peripécias, acaba por ser salva pela equipa. Mas, o realizador lembra-se de capturar Kong, de o trazer para a “grande cidade” e colocá-lo em exibição. É óbvio: as multidões acorrem ao teatro para ver a criatura, batem palmas, gritam de entusiasmo, festejam as bênçãos do progresso e da técnica e abrem champanhe em celebração da superioridade humana, até que Kong se solta e o caos se instala. Hoje estamos precisamente nesta fase: quando Kong está à solta, estamos a tentar apanhá-lo, mas sabemos — pelo menos quem viu o filme sabe — que isso não significa que tenhamos aprendido o porquê de termos chegado até aqui.

Como no filme, sofremos hoje as consequências de quem, tentando simplesmente safar-se, autojustificar-se, salvar-se, por um toque de megalomania, acreditava que estava a salvar o mundo inteiro. Como no filme, sofremos hoje as consequências de cruzar o inacessível, do nosso fetiche em ver e exibir “raridades”, convencidos de que a nossa superioridade nos vai redimir e proteger de qualquer infelicidade. Como no filme, sofremos hoje as consequências da arrogância e da presunção. Como no filme, mesmo capturando o monstro, só o usamos para tirar fotografias nas quais apareceremos em pose de vitória. Como no filme, o monstro é sempre o monstro, mas só está entre nós por nossa culpa: fomos nós que o fomos procurar, fomos nós que o trouxemos, fomos nós que o exibimos, fomos nós que quisemos brincar com ele. Como no filme, o nosso objetivo é sempre salvar o mundo do seu abismo. Como no filme, o monstro é muitas coisas, e talvez as mais evidentes sejam, afinal, as menos monstruosas.

Dou um exemplo. Ao longo da modernidade, prevaleceu a ideia de que podíamos matar Deus ou ser como Ele, e essa ideia – porque uma ideia nunca é só uma ideia – levou muitos a aceitar que o poder, fosse ele científico, político ou cultural, não servia apenas para dominar a natureza, mas também para a transformar, numa transformação anunciada como libertação e emancipação. Nesse clima, chegamos ao que Tocqueville perspetivou em A Democracia na América: “uma multidão de homens (…) que giram incessantemente sobre si próprios (…) e existem apenas para si e em si mesmos”. Ou seja, o mesmo caldo cultural em que o filme King Kong acontece.

Não é de admirar, por isso, que, na semana passada, enquanto a classe esclarecida se debruçava sobre as eleições presidenciais, a malta nova, essa magna entidade sociológica, estivesse mais preocupada com uma série de combates que agremiou um elevado número de jovens, sedentos de sangue e de vitória, no Campo Pequeno, no sábado passado.

(Se está a ler isto e não sabe do que estou a falar, acredite que esta é a prova de como hoje vivemos em mundos paralelos e não comunicantes.)

Reservo os meus comentários mais acutilantes sobre este tipo de eventos para o foro privado, porque não quero ofender tão zelosos defensores da virilidade, mas a recente cultura da agressividade e dos investimentos, do dinheiro e do Dubai, não é apenas uma exibição de narcisismo, por vezes encapotado de generosidade e boa vontade. É uma clara procura de propósito e de segurança. Temo é que não seja totalmente consequente. Suspeito que seja a nova autoajuda. O sintoma de que o Kong anda à solta pela cidade.