A meio do debate com António Filipe, Gouveia e Melo disse: “O senhor tem uma concepção da sociedade, que vem da origem marxista, que vem da ditadura do proletariado”. Sorridente, António Filipe respondeu que a ditadura do proletariado foi um conceito abandonado pelo PCP ainda antes do 25 de Abril. Uma novidade no pensamento do PCP? Por esta não esperava! Grande apreciador de oxímoros, fiquei encantado com este exemplo e tomei nota para investigar mais tarde, até porque António Filipe estava a meio de um elogio a Fidel Castro e eu sou fã deste novo tipo de não-ficção televisiva que é o true crime.

António Filipe não é um comunista qualquer. Ao ser designado pelo partido como candidato à Presidência da República, fica imediatamente à bica de um feito único: tornar-se no primeiro Chefe de Estado comunista da história – se só contarmos com os eleitos em eleições democráticas, claro. Daí que tenhamos de estar atentos a todas as suas declarações. E esta sobre a supressão da ditadura do proletariado merece escrutínio. Para mim, comunismo sem ditadura do proletariado é como avião sem asa, fogueira sem brasa, futebol sem bola, Piu-piu sem Frajola. Está ao nível de amor sem beijinho, Buchecha sem Claudinho, circo sem palhaço, namoro sem amasso. Para mim (e desconfio que para a Adriana Calcanhoto), faz tanto sentido quanto neném sem chupeta, Romeu sem Julieta, carro sem estrada ou queijo sem goiabada.

É que, segundo o marxismo-leninismo (a agradável ideologia desenvolvida por Estaline nas horas vagas entre as suas actividades torcionárias), a ditadura do proletariado é um estágio de desenvolvimento entre a queda do capitalismo e a instauração da sociedade comunista. Sem essa fase transitória, a evolução é mais difícil. É como esperar que uma lagarta se transforme em borboleta sem passar pela crisálida – nesta metáfora, a borboleta tem 70m de envergadura e alimenta-se de vísceras humanas. Dispensar a ditadura do proletariado do comunismo é o equivalente àqueles comensais maçadores que pedem ao cozinheiro para fazer bacalhau à Braz sem o fiel amigo. A ditadura do proletariado é como a cárie: se não existir, como é que se explica a alguém que, de um dia para o outro, ficou sem dente?

Encontrei a explicação no site do PCP. Num texto sobre o VII Congresso do partido, o primeiro depois do 25 de Abril, esclarece-se que “Além das alterações ao Programa e Estatutos, tornadas indispensáveis pelas novas condições de liberdade e legalidade em que o PCP passara a intervir (entre outras a alteração da expressão «ditadura do proletariado», deixando de se usar a formulação mas mantendo-se o conceito)”. Ufa! Fiquei  logo mais descansado. Por momentos, achei que ia ter de abandonar a minha ideia dos comunistas como inimigos da democracia, mas felizmente não é preciso. O PCP continua a pugnar pelo derrube do nosso sistema burguês e pelo estabelecimento do despotismo comunista, fá-lo é de uma forma sonsa. Afinal, sempre é possível Romeu sem Julieta. Basta a Julieta ir ao registo alterar o nome. Mantém-se uma Capuleto, que continuam a odiar de morte os Montéquio, só que agora responde por Carla.

No fundo, é uma manobra de marketing. O PCP faz um rebrand e apresenta um anúncio: “Comunismo Light! Agora com 30% menos fome! Baixo teor de coletivização artificial! Sem chacinas adicionadas! Apenas as naturais!” O público acha que é mais saudável e alinha.

Honra lhe seja feita, há 50 anos que o PCP faz questão de participar em eleições democráticas, mesmo não acreditando na democracia. É como aqueles ateus que vão à missa no Natal. Não crêem, mas estão lá pelo convívio. Em vez de Missa do Galo, são as eleições do galo: de cada vez que há um ato eleitoral, os comunistas marcam presença, mas a pensar “ganda galo!” Preferiam que não houvesse, mas se vai acontecer, mais vale estarem lá. Os outros partidos parecem estar a gostar, o PCP fica com FOMO.

Só que é injusto esperar muito do PCP em eleições. Os comunistas não estão propriamente equipados para a democracia. Dá ideia que são atletas que se apresentam de tanga, touca e óculos de nadador, numa prova de salto à vara. Não estão a competir na mesma modalidade que os outros candidatos, mas a sua presença anima os espectadores.

Não ignoro que o comunismo também tem virtudes. Tendemos a esquecê-lo. Por exemplo, na nossa arrogância capitalista, achamos que não há inovação tecnológica nos países comunistas.  É falso. A URSS foi o primeiro país a colocar um homem em órbita e a trazê-lo de volta com sucesso. Um objectivo perseguido com denodo logo desde 1917. Foi nesse ano que se começaram a mandar os primeiros soviéticos para o céu, embora sem regresso. Mas a ambição estava lá. E continua a estar. Deixando de se usar a formulação, mas mantendo-se o conceito.