Portugal é um país que tropeça no próprio passado como um bêbado em calçada irregular. A esquerda, sempre pronta a vender nostalgia como futuro, ergueu-se sobre os ombros de uma revolução que canonizou, transformando-a em relíquia intocável. A direita, por sua vez, arrasta-se sob o peso de um estigma que não criou: um pecado original imposto por quem insiste em confundir história com dogma, e debate com heresia. Enquanto isso, o PSD, partido nascido na democracia, é obrigado a carregar o caixão de um morto que não matou — Salazar, o espectro que a esquerda mantém vivo como ator coadjuvante em seu teatro de moralidades.
A esquerda pratica uma amnésia seletiva que seria cómica não fosse trágica. Celebra a Revolução dos Cravos como epopeia de pureza, mas apaga do roteiro as próprias cumplicidades: o PCP, que saudou a invasão soviética da Hungria como “gesto libertador”; o Bloco de Esquerda, que encontrou charme ideológico em ditaduras que hoje são sinónimo de fome e censura. Para eles, a história é um museu de cera onde só as figuras da direita derretem sob o sol do escrutínio. O PSD, que nasceu após 1974, é julgado por crimes alheios como se a genealogia política fosse uma sentença perpétua — enquanto a esquerda, com as suas próprias caveiras no armário, posa de guardiã da virtude.
Em 2015, consumou-se o primeiro ménage à trois ideológico da Europa: PS, Bloco e PCP uniram-se numa coreografia que misturava social-democracia, populismo e nostalgia soviética. Batizaram-no de “geringonça”, mas foi, no fundo, um Tratado de Tordesilhas dos Populismos — acordo tácito para dividir o país em feudos retóricos. A imprensa, em êxtase, tratou a aliança como audácia democrática. Mas imaginem o PSD a ousar uma coligação com o Chega para, digamos, cortar impostos ou desafiar o clientelismo estatal: seria o fim dos tempos. A esquerda pode deitar-se com radicais desde que vistam vermelho; a direita, se coçar o nariz perto de um dissidente, é acusada de contaminação moral.
O Chega é o espelho que a direita reluta em encarar. Surgiu como protesto contra um sistema que confunde consenso com submissão, e diálogo com capitulação. Não é um partido, é um sintoma: a úlcera que revela a hipocrisia de quem normaliza o radicalismo de esquerda enquanto criminaliza o descontentamento de direita. O PSD, paralisado entre o medo de ser mal-compreendido e o terror da irrelevância, hesita como um Hamlet moderno. Enquanto isso, a esquerda dá-se ao luxo de abraçar quem defendeu Estaline ou Maduro, desde que o façam em verso livre e com retórica de esquerda.
A saída? O PSD precisa de trocar o luto pela luva. Deixar de ser o caretaker de um passado que não lhe pertence e assumir-se como escultor do futuro. Isso exige coragem para defender uma economia que premeie mérito, não mediocridade; um Estado que proteja liberdades, não as confisque em nome de utopias; uma justiça que funcione, não um teatro de moralismos. O PSD deve ser o partido que diz, sem meias palavras: “O imperador está nu.” Que a esquerda continue a dançar com fantasmas do século XX; nós, preferimos construir um século XXI onde “direita” não seja insulto, mas sinónimo de competência.
Portugal não precisa de salvadores de capa vermelha, mas de realistas que desmontem a farsa. A esquerda pode ficar com seus slogans e suas bandeiras desbotadas; o PSD deve erguer a bandeira do pragmatismo, da liberdade sem licenças morais, e do progresso que não tema a palavra “ambição”. Afinal: o maior pecado não é ser de direita — é permitir que a hipocrisia continue a ditar o enredo.