Racismo

Cor de Costa quando foge de uma pergunta chata /premium

Autor
  • José Diogo Quintela
3.689

Se um deputado perguntasse pelo aeroporto, Costa responderia: “Novo aeroporto? Está a mandar-me para a minha terra?”. Se criticasse o aumento de impostos, diria: “Os indianos são gananciosos, é isso?"

Sendo o último colunista a falar deste tema, sinto-me como aquele hóspede que chega tarde ao buffet do pequeno-almoço do hotel e já não há nada. Só fiapos de ovos mexidos, mini-pacotes de geleia e aqueles tomates moles e húmidos, em que ninguém toca. Mas um homem tem de comer.

A resposta que António Costa deu a Assunção Cristas já foi esmiuçada. Resta-me falar da resposta que António Costa não quis dar. Quando Cristas perguntou se condenava o vandalismo e apoiava a polícia, colocou Costa numa posição difícil. Obviamente, o PM condena o vandalismo e apoia a polícia. Cristas sabe disso. E sabe que, se Costa o admitisse, estaria implicitamente a criticar a postura buéda-jovem-a-bófia-não-manda-aqui do Bloco de Esquerda. Sob pressão, não querendo melindrar o aliado, Costa disfarçou com a primeira coisa que lhe veio à cabeça.

Como é que essa coisa lá foi parar? O que aconteceu foi o seguinte: um dos jovens acólitos esquerdistas do PM recomendou-lhe: “Dr. Costa, temos de aproveitar isto das cenas identitárias. O racismo está na moda. Quando tiver oportunidade, enfie aí uma referência à discriminação que sofre devido às suas origens exóticas”. E Costa enfiou. Foi na resposta a Cristas, mas podia ter sido noutra qualquer. Se um deputado lhe perguntasse pelo atraso no novo aeroporto, Costa responderia: “Novo aeroporto? Está a mandar-me para a minha terra?”. Se outro criticasse o aumento de impostos, Costa diria: “Ai, os indianos são gananciosos, é isso?” Se alguém lhe apontasse o seu contorcionismo político: “Insinua que tenho a coluna maleável por causa do yoga?”

(Não é a primeira vez que a ascendência indiana de Costa o safa de uma situação desagradável. Em 2017 conseguiu faltar ao enterro de Mário Soares, por estar em visita à Índia. Na altura houve comentadores políticos que justificaram a não interrupção da viagem com o facto de, sendo António Costa de origem indiana, a visita ser mais importante que o normal. Costa livrou-se de boa. É que, desde que evitara voltar a visitar José Sócrates em Évora, percebera-se que Costa se sente desconfortável na presença de cadáveres de ex-PM socialistas, sejam literais ou metafóricos).

Costa tinha a carta da raça engatada. Apertado por Cristas, usou-a. Mal, como se viu. Não só é uma carta muito forte para ser desperdiçada num debate quinzenal, como a resposta não era apropriada para aquela pergunta. Equivocou-se no timing e na ocasião. Foi como jogar o ás de trunfo cedo de mais numa partida de sueca, que afinal até era um jogo de peixinho.

Apesar de tudo, simpatizo com o PM. É que eu também sou assim, uma dessas pessoas que utilizam argumentos desproporcionais em situações banalíssimas, só para não ter de me maçar.

– Então, Quintela? A reunião começou há 5 minutos!

– Desculpe, chefe. Morreu a minha mulher.

Eu sei que basta inventar um normalíssimo acidente no trânsito. Mas aí o chefe pode dizer: “Saia de casa mais cedo, homem!” Ou: “O Saraiva mora ao pé de si e nunca se atrasa”. Com o falecimento da minha mulher, evito o confronto. Uso uma desculpa que, naquele momento, acaba com a discussão. A  mim dá-me para matar família, ao PM dá-lhe para se vitimizar com o racismo. Ambos estamos tramados: eu não me caso as vezes suficientes para enviuvar sempre que preciso de acabar com uma conversa, nem António Costa, um filho da burguesia lisboeta em cargos de poder há 30 anos, se pode estar sempre a queixar de ser vítima de racismo, ao ponto de equiparar a normal oposição parlamentar ao crime de ódio.

Até porque, para se poder queixar, Costa tem de aprender a maneira correcta de o fazer. Desta vez, no Parlamento, debatiam-se os acontecimentos do Bairro da Jamaica, com africanos, e Costa fingiu achar que era um remoque à sua ascendência, que é indiana. Ora, confundir as duas cores é perpetuar o cliché caucasiano que diz que todos os não-brancos são iguais. Ao queixar-se de racismo, Costa foi racista.

Ou talvez não tenha sido. Não sei. Talvez a minha sugestão de que Costa foi racista é que seja racista. Hoje em dia é difícil ter a certeza. E é difícil saber se Portugal é um país racista. Não havendo leis racistas, o que é preciso para ser um país racista? É ter habitantes racistas? Quantos portugueses têm de ser racistas para Portugal ser considerado racista? Todos? Metade? Metade de metade? Bastam 10%? Ou 1%? Se calhar, chega 0,1%? Pode uma quantidade pequena de racistas, diluída no resto da população, marcar todo um país? Para quem acredita em homeopatia, é provável que sim e que Portugal seja um país racista.

Não é o meu caso. Acho a homeopatia uma charlatanice, assim como todo o tipo de pseudociência alternativa à nossa superior medicina ocidental. O que, para um certo tipo de pessoas, fará de mim um racista. É um tipo de pessoas com quem não consigo ter uma conversa. Quando tento é inevitável acabar a dizer que a minha mulher faleceu.

Agora que entramos em 2019...

...é bom ter presente o importante que este ano pode ser. E quando vivemos tempos novos e confusos sentimos mais a importância de uma informação que marca a diferença – uma diferença que o Observador tem vindo a fazer há quase cinco anos. Maio de 2014 foi ainda ontem, mas já parece imenso tempo, como todos os dias nos fazem sentir todos os que já são parte da nossa imensa comunidade de leitores. Não fazemos jornalismo para sermos apenas mais um órgão de informação. Não valeria a pena. Fazemos para informar com sentido crítico, relatar mas também explicar, ser útil mas também ser incómodo, ser os primeiros a noticiar mas sobretudo ser os mais exigentes a escrutinar todos os poderes, sem excepção e sem medo. Este jornalismo só é sustentável se contarmos com o apoio dos nossos leitores, pois tem um preço, que é também o preço da liberdade – a sua liberdade de se informar de forma plural e de poder pensar pela sua cabeça.

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