Hoje, é um dia triste para todos aqueles que se confessam cristãos: em Istambul, a antiga igreja de Hagia Sophia, construída entre 532-537, ao tempo do Império Romano do Oriente, convertida em Mesquita após a conquista muçulmana da antiga Constantinopla, em 1453, e séculos depois, em 1935, convertida em museu pelo fundador da Turquia moderna e laica, é hoje reinaugurada novamente como mesquita, por vontade do Presidente actual, Recep Tayyp Erdogan, depois de uma decisão do Conselho de Estado, publicada no passado dia 10.

A deslumbrante igreja, recheada pelos mais bonitos mosaicos da iconografia oriental de temática cristã, antiga sede do Patriarca Ecuménico de Constantinopla, foi inicialmente dedicada a Santa Sofia (à Sabedoria divina) – o Logos, a Palavra ou o Verbo de Deus, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade. Garantem as autoridades turcas, que durante as orações muçulmanas os mosaicos cristãos serão cobertos, mas que não serão tocados, como anteriormente aconteceu.

No passado domingo, dia 12, o Papa Francisco mostrou-se entristecido com a notícia. Foram estas, na íntegra, as breves palavras com que o Sumo Pontífice expressou o seu lamento: «E il mare mi porta un po’ lontano col pensiero: a Istanbul. Penso a Santa Sofia, e sono molto addolorato / E o mar leva-me um pouco longe com o meu pensamento: a Istambul. Penso em Santa Sofia e fico muito entristecido».

No Observador, em crónica de 18 de Julho, o padre Gonçalo Portocarrero de Almada atribuiu a tristeza do Papa, «não, decerto, pela transformação de um museu num templo dedicado ao culto do único Deus, mas porque a islamização daquela igreja, que foi em tempos a maior da Cristandade, é sinal das perseguições que os cristãos sofrem em todo o mundo, nomeadamente nos países muçulmanos» (negrito meu).

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Curiosamente, muito curiosamente, um alto funcionário do Estado turco, o porta-voz presidencial İbrahim Kalın, a propósito da tristeza do Papa, afirmou à CNN, que o Santo Padre não devia sentir-se assim porque o histórico edifício «se tornou numa casa de oração onde o nome de Deus será invocado, em vez de ser um lugar para visitas de turistas. O lugar foi transformado não de uma igreja para mesquita, mas de museu a mesquita» (tradução do inglês e negrito meu)

Os protestos das mais diversas Igrejas cristãs ortodoxas multiplicaram-se um pouco por todo o lado. O referido porta-voz atreveu-se mesmo a desafiar o Papa a ir visitar a restaurada mesquita, numa cínica declaração que não se pode levar a sério: «Convidamos todos, incluindo o Papa, que disse estar triste acerca disto. Venham e visitem Hagia Sophia como mesquita» (ibidem). O próprio Presidente Erdogan chegou a usar a palavra “reconquista”.

Ora, o que me ocorre perguntar a este propósito, é saber, antes do mais, se o culto do único Deus (ou Deus Único, embora não seja exactamente a mesma coisa) ou a oração onde o nome de Deus é invocado, confessado pelos crentes das principais religiões monoteístas (por ordem cronológica, judeus, cristãos e muçulmanos), se refere à mesma realidade ontológica; ou seja, se estamos todos a referirmo-nos ao mesmo Deus? Ou seja, se ao fim e ao cabo, como sugere o padre Gonçalo e, ironicamente, o porta-voz turco, o facto de Santa Sofia permanecer cristã ou muçulmana, pois igreja ou mesquita seria sempre um lugar de culto e oração à divindade, é totalmente irrelevante (para o Papa e a Igreja)?

De facto, a célebre declaração Nostra Aetate (NA) do Concílio Vaticano II, declara que os muçulmanos «adoram eles o Deus Único, vivo e subsistente, misericordioso e omnipotente, criador do céu e da terra, que falou aos homens e a cujos decretos, mesmo ocultos, procuram submeter-se de todo o coração, como a Deus se submeteu Abraão, que a fé islâmica de bom grado evoca» (NA, nº 3). A expressão na versão oficial latina, é unicum Deum adorant.

Recordo que os três últimos romanos pontífices, num gesto absolutamente inédito historicamente, rezaram eles próprios, em mesquitas: João Paulo II, em Maio de 2001, em Damasco, capital da Síria, numa mesquita convertida de uma antiga igreja, onde, segundo antiga tradição, está sepultado São João Baptista; Bento XVI, a 30 de Novembro de 2006, onde chegou mesmo a tirar os sapatos, e o Papa Francisco, a 29 de Novembro de 2014, ambos visitaram a Mesquita Azul, em Istambul, precisamente ao lado de Hagia Sophia. Por fim, a 4 de Fevereiro de 2019, Francisco, vai à Grande Mesquita em Abu Dhabi, onde assina com o Grão Imame de Al-Azhar, Ahmad Al-Tayyeb, o já polemicamente célebre Documento sobre A Fraternidade Humana em prol da Paz mundial e da Convivência comum.

Mas a pergunta permanece: aqueles três sucessores de Pedro, quando rezaram nas referidas mesquitas em companhia de autoridades religiosas islâmicas, terão dirigido as suas preces, todos, ao mesmo deus? Não certamente, ouso responder. O Deus a quem os cristãos adoram é o mesmo a quem se referiu Jesus ao reiterar qual é o primeiro mandamento: «Ouve, oh Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor, e amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e com toda a tua força» (Mc 12, 29-30 citando Dt 6, 4-5).

O Deus de Jesus é Aquele que Ele próprio veio revelar, a todos os homens, na totalidade e definitivamente. É o Deus Uno e Trino, que é Pai, e Filho e Espírito Santo. Com efeito, diz o Catecismo da Igreja Católica (nº 202): «O próprio Jesus confirma que Deus é “o único Senhor”, e que é necessário amá-Lo “com todo o coração, com toda a alma, com todo o entendimento e com todas as forças” (Mc 12, 29-30). Ao mesmo tempo, dá a entender que Ele próprio é “o Senhor” (Mc 12, 35-37). Confessar que “Jesus é o Senhor” é próprio da fé cristã. Isso não vai contra a fé num Deus Único. Do mesmo modo, crer no Espírito Santo, “que é Senhor e dá a Vida”, não introduz qualquer espécie de divisão no Deus único: “Nós acreditamos com firmeza e afirmamos simplesmente que há um só Deus verdadeiro, imenso e imutável, incompreensível, todo-poderoso e inefável. Pai e Filho e Espírito Santo: três Pessoas, mas uma só essência, uma só substância ou natureza absolutamente simples” (IV Concílio de Latrão, Cap. I, De fide catholica: DS 800)».

Como é sabido, para os muçulmanos, esta identidade de Deus Uno e Trino é absolutamente inconcebível. Simplesmente inaceitável.

Mas poderá perguntar-se: os judeus que permaneceram no estádio do Antigo Testamento, que não reconhecem na Pessoa de Jesus de Nazaré – de cuja vida, paixão, morte e ressurreição nos falam os quatro evangelhos e o restante Novo Testamento – não adoram eles também um Deus Único? Sim, sem qualquer dúvida, conforme o lembra a referida passagem bíblica (Dt 6, 4-5) citada pelo próprio Jesus no evangelho de Mateus, transcrita na referida passagem do Catecismo.

Mas o que, neste aspecto fundamental, diferencia os judeus dos muçulmanos é que o Deus que aqueles adoram é o mesmo que o próprio Jesus, na sua humanidade, confessou inequivocamente ao dizer a Maria Madalena, na própria madrugada em que ressuscitou dos mortos: “Não me detenhas, porque ainda não subi para o Pai. Vai ter com os meus irmãos e diz-lhes que vou subir para o meu Pai e vosso Pai, para o meu Deus e vosso Deus” (Jo 20, 17). Aliás, o mesmo Jesus, já antes tinha afirmado ao apóstolo Filipe que «quem me vê, vê o Pai» (Jo 14, 9) e depois lhe perguntou: «Não crês que estou no Pai e o Pai está em mim?» (Jo 14, 10); e apelando a um acto de fé, exortou: «Crede-me: eu estou no Pai e o Pai em mim» (Jo 14, 11). E, depois, na grande oração sacerdotal que Jesus dirige ao Pai, assim pediu: «que eles te conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e aquele que enviaste, Jesus Cristo» (Jo 17, 3). Os judeus são os nossos irmãos mais velhos na fé. E como nos recorda São Paulo, nós cristãos somos também herdeiros na fé de Abraão (cf. Rm 4, 1-25).

Assim, neste contexto, pergunto-me se não seria bom que o Magistério da Igreja tornasse definitivamente mais claro que a entidade divina a quem se dirige a adoração de cristãos e muçulmanos não é exactamente a mesma. Será demais pedir isto?…

Um clima de diálogo saudável e de busca da fundamental fraternidade humana – como costumo dizer, somos todos filhos de Adão … e Eva; a humanidade é, também ela, una e uma – só pode ser benéfico se a identidade de cada uma das posições à mesa das conversações teológicas for clara para cada um; e por cada um respeitada na sua respectiva integridade.

Tudo o que permaneça aquém disto, parece-me, é “só” diplomacia… ou, pior, um diálogo de surdos. E da Sé de Pedro o que se espera é, sobretudo, a confirmação e defesa da fé católica, sem falsos respeitos humanos, ainda que a diplomacia seja relevante.

24 de Julho de 2020