Após o reinício gradual da minha atividade assistencial normal, tenho vindo a deparar-me com situações catastróficas que têm ocorrido, à porta fechada, nos mais variados lares portugueses.

O medo (sempre o medo), paralisou as pessoas. Deixaram de raciocinar, pensar pelas suas cabeças, estão completamente desorientadas.

Ontem, encontrei alguém na rua que me disse: «foi criminoso o que nos fizeram» e, não podendo concordar mais com esta afirmação, decidi que tinha de fazer alguma coisa. Não podemos continuar assim.

Os idosos, que lentamente retomam as suas consultas, idosos válidos antes do início da pandemia, mal se mexem, pois nesta espera de dois meses, em que os dias se sucediam todos iguais, passavam o tempo deitados ou sentados, à frente da televisão (a sofrerem tortura psicológica criminosa), apresentando agora um descondicionamento muscular e ósseo que será difícil de reverter.

As tensões arteriais que me medi no meu gabinete, independentemente da idade dos meus utentes, foram bastante mais elevadas, bem como a frequência cardíaca.

As queixas de palpitações, insónias, crises de ansiedade são uma constante. A toma de antidepressivos e ansiolíticos disparou. A desinfeção de tudo e todos é uma loucura.

Tudo isto me levou a pensar: «tenho de fazer alguma coisa para parar esta situação, serei cúmplice de todo este crime a que assisto debaixo dos meus olhos, se nada fizer. Pelo menos tentarei minimizar as suas consequências, uma vez que, impedi-lo por completo, já não sou capaz».

Primeiro, vou falar-vos de nós – Portugal – e, depois, vou contar-vos a história de um país parecido com o nosso – a Áustria.

Desde o início da pandemia, o número máximo de novos caso diários, de Covid 19 em Portugal, por milhão de habitantes foi de 147 estando atualmente perto dos 20 novos casos diários por milhão de habitantes.

Cerca de 95% dos doentes infetados recuperaram, ou estão a recuperar da doença no seu domicílio, tendo necessitado de internamento apenas 4% dos infetados e, tendo tido necessidade de internamento em Unidades de Cuidados Intensivos apenas 0.8% dos pacientes.

Este é o nosso panorama e, as medidas que foram tomadas, são do conhecimento de todos.

Agora vou contar-vos a história da pandemia na Áustria e a forma como os seus governantes lidaram com a situação.

A minha irmã vive em Viena e a partilha telefónica diária do nosso quotidiano tem sido uma constante, desde o início da pandemia, nos países em que habitamos.

A Áustria conta atualmente com 8,7 milhões de habitantes e faz fronteira com o norte de Itália, um dos locais mais afetados pela pandemia na Europa.

Apresentou o seu primeiro caso positivo de Covid19 a 25 de fevereiro de 2020 e a primeira fatalidade a 12 de março de 2020. Iniciou medidas de confinamento a 16 de março de 2020, altura em que encerraram as escolas e muitos começaram em teletrabalho, no seu domicílio. Já a pandemia tinha quatro semanas de evolução e apresentavam, nessa altura, 1007 casos de infetados e 3 mortes.

Em Portugal, quando fecharam as escolas e foi iniciado, de forma generalizada o teletrabalho, também a 16 de março, tínhamos apenas 331 casos de infetados, uma morte e duas semanas de evolução da doença. Ou seja, as famosas medidas de confinamento, iniciaram-se mais precocemente no nosso país do que naquele em que a minha irmã habita.

Na Áustria não fecharam creches ou jardins de infância, deixando ao critério dos pais colocarem (ou não) os seus filhos nestas instituições. Não limitaram o número de pessoas por m2 nos supermercados a um número tão baixo como nós, nem reduziram o horário de abertura destes, evitando desta forma as filas a que todos assistimos, de pessoas à espera para entrar, todas juntas, ao frio e à chuva.

Permitiram, mesmo durante o período de maior confinamento, a vida ao ar livre, não tendo imposto limites aos idosos para fazê-lo.

A minha irmã ia com os seus filhos, de 7 e 9 anos, ao jardim, duas a três vezes por dia. Ao fim de semana, ia com o marido e os filhos, passar o dia ao campo ou às montanhas e fazer picnics. A sua sogra, de 70 anos andava (e anda) 2 horas de bicicleta, por dia, ao ar livre.

Após 3 semanas em teletrabalho e com os filhos em casa, na semana de 6 de abril, a minha irmã pode voltar ao seu local de trabalho habitual, pois as escolas abriram, não para atividade letiva, mas para atividades de tempos livres, tendo ela colocado lá os seus filhos.

A 14 de abril a Áustria começou a aliviar medidas e iniciou o seu desconfinamento progressivo.

Os seus números não eram os de Itália e, embora fizessem fronteira direta com o epicentro da pandemia na Europa, seguiram, corajosamente, o seu caminho. Começaram por abrir o pequeno comércio e o uso de máscaras passou a ser obrigatório em todos os espaços públicos fechados, bem como nos transportes públicos. 15 dias depois, a 27 de abril de 2020, os números continuavam a baixar. Abriram lojas maiores, estando atualmente já abertos centros comerciais e espaços tão grandes como o IKEA.

A minha irmã já jantou em casa de amigos e já teve amigos a jantar em sua casa.

No passado domingo, dia 10 de maio, dia da mãe na Áustria, a minha irmã almoçou em casa da sogra com o marido, os filhos, os cunhados e os sobrinhos.

Dia 15 de maio vão abrir os restaurantes e a minha irmã irá poder comemorar o seu 10º aniversário de casamento, jantando fora com o marido. Contou-me, aliás, estupefacta e contente, que os cidadãos austríacos irão receber, por parte do governo, um vale de 50 euros para gastar em restauração e assim ajudar a recuperar a economia do setor.

E os números, na Áustria, continuam a descer. Têm menos testes por milhão de habitantes do que nós (38262 na Áustria contra 55251 em Portugal). Não fazem rastreios a grupos específicos da população como nós (e bem, os testes foram concebidos para confirmar a doença em doentes com sintomas não para rastreio de populações assintomáticas), mas os seus números em UCI, considerados por muitos, os mais fidedignos para avaliar a extensão e gravidade da infeção, continuam a cair ( a Áustria tem atualmente 54 pacientes em UCI e Portugal tem 103).

É em nome dum bem público comum que muitos justificam as medidas profundamente abusivas e autoritárias que foram instituídas no nosso país, destruidoras da economia, saúde mental e física da nossa população.

Pois foi em nome desse bem público comum, que a Áustria responsabilizou os seus cidadãos e foi um dos países que mais cedo começou a levantar medidas.

E tem, atualmente um país mais saudável que o nosso, quer em termos de doença Covid 19 quer em termos de outras doenças, físicas e mentais, quer em termos económicos.

Mas da Áustria as televisões não falam; esperemos que falem os jornais.

Eu continuarei a levar a missão a que me propus, para que a D. Ermelinda saia de casa, a D. Clotilde durma descansada, o sr. Augusto possa abraçar os seus netos sem sentir que tem de se desinfetar a toda a hora e o Diogo, no 11º ano, não tenha medo de voltar à escola.

Porque a nossa vida é curta e, desperdiçarmos os nossos dias, em casa apavorados, é um crime.

Andem de máscara se isso vos fizer sentir mais seguros, e mantenham o distanciamento social e familiar que entenderem, mas voltem a viver as vossas vidas, porque senão, um dia, poderão já não ter tempo.