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Olho para eles. Olhos tristes, cantos da boca para baixo. Uns tremem quando entram. Outros mexem-se com dificuldade. Outros sentam-se longe da secretária onde estou. Outros fingem que nada se passa. Mas todos perderam o brilho no olhar.

Observo. Vejo. Penso para comigo «O que vos fizeram?». «O que nos estão a fazer?».

Alguns vêm pele e osso. Têm dores de estômago, palpitações. Deixaram de conseguir comer o que comiam. Outros aumentaram imenso de peso. Deixaram de sair de casa. Deixaram de se mexer.

Uns estão apavorados, outros estão revoltados, mas todos estão profundamente tristes.

41 anos. «Por favor doutora, pode pedir-me uma mamografia? É que há um ano e meio que espero uma consulta de oncologia e eles anulam consulta atrás de consulta».

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Era vigiada por um cancro da mama que tinha surgido aos 36 anos. Tem uma menina de 6 anos. Pedi a mamografia. Cancro na outra mama. Os olhos tristes quando lhe disse o resultado. Os meus olhos tristes por ter de comunicar o resultado. Ambas sabíamos que podia ter sido diagnosticado mais cedo. E de novo o pensamento «O que nos estão a fazer?»

81 anos. Tirou a máscara. Mostrou-me as mãos. «Doutora, por favor ajude-me». A face tinha a máscara decalcada a vermelho, a pele  quente, edemaciada e a descamar estava toda infectada. As mãos, em «carne viva» de tanto serem desinfectadas, sangravam das gretas abertas. Disse-lhe que não usasse máscara. Tinha contra-indicação formal para o fazer. Disse-lhe que parasse de desinfectar as mãos, que as lavasse apenas como toda a vida as lavou. Passei-lhe uma declaração onde esclarecia a sua contra-indicação para o uso de máscara. Tratei-a. Uma semana mais tarde veio agradecer-me. A face e as mãos tinham voltado ao normal. Mas tinha sido violentamente insultada num supermercado por estar sem máscara. Mostrou a minha declaração. Nem sequer olharam, nem quiseram saber. Seria expulsa se não usasse máscara. Expulsa por quem? Pela caixa do supermercado.

Vinha chocada. Fiquei triste por ela. «Vou ter que voltar a usar máscara doutora, se não vou ser ofendida de tudo». Voltei a pensar «O que nos estão a fazer? Para onde foram o amor e a bondade humana?»

62 anos. «Se fizerem o mesmo que fizeram o inverno passado, ponho atestado. Não aguento mais.» Professora. Confinada várias vezes por alunos ou colegas que testaram positivo para a Covid-19. Nunca esteve doente, pelo menos desta famosa doença. Esteve prisioneira na própria casa várias vezes. Viu-se a ter que dar aulas online, repetidamente, sabendo que os alunos não ligam nenhuma a essas aulas. Está profundamente desmotivada e triste. Psicologicamente doente. Mas sem ser eu, parece que mais ninguém quer saber.

«Os filhos da Pandemia». O nome agora dado às crianças e adolescentes que se vêm obrigados, pelo 3º ano lectivo consecutivo, a irem para casa sem estarem doentes. Obrigados pelas autoridades de saúde a faltarem à escola, privando-os do seu direito a aprender e a brincar, violando a Declaração dos Direitos da Criança, de forma repetida. Vejo as crianças tristes. Pais que culpam outros pais porque por causa dos filhos duns, têm que faltar à escola os filhos de outros, quando quem manda faltar à escola crianças saudáveis são as autoridades de saúde.

Doença grave nas crianças? Sabe-se que pelo mundo inteiro esta doença tem menos casos graves que os que casos graves causados pelo vírus da constipação,

15 anos. Testou positivo para a Covid-19. Uma dejeção diarreica. Mais nada. Obrigada a ficar em casa, proibida de sair durante 10 dias. A turma obrigada a ficar em casa 14 dias. Vilipendiada e enxovalhada nas redes sociais por ter sido a «responsável» por toda a turma ter ficado em casa. Chorou todos os dias durante o tempo que esteve em casa. Da Covid-19 nem se lembra. A violência psicológica de que foi vítima traumatizou-a até hoje.

10 anos. Obrigado a ficar em casa em isolamento profilático três vezes, num período dum mês e meio, 14 dias de cada vez.Proibido de sair de casa. A mãe obrigada a faltar ao trabalho três vezes, 14 dias de cada vez, num período dum mês e meio. Os dois saudáveis, sem nenhuma doença. À terceira vez em que foi mandado para casa, não parava de chorar. A mãe desesperada não sabia o que havia de fazer. Doença? Nenhuma. Desespero? a deitar por fora. Instituições sem trabalhadores. Crianças sem escola.

43 anos. Dona dum gabinete de estética. Desde Março de 2021, altura em que a deixaram reabrir o gabinete, que apresenta dores generalizadas intensas: dores abdominais, dores de cabeça, dores lombares. Deixou de dormir. Chora frequentemente. Trabalha 12 a 13 horas por dia, inclusive aos fins de semana. Teve que iniciar terapêutica com analgésicos, antidepressivos e ansiolíticos, mas as dores não passam. Fez uma bateria de exames. Não acusam nada de relevante.

«Tem que abrandar. Os seus músculos não aguentam que esteja tantas horas dobrada a fazer massagens». «Não posso, doutora. Acabei de pagar o mês passado as prestações da renda do gabinete de estética referentes aos meses em que me obrigaram a fechar. Se me fecharem outra vez, onde é que vou arranjar o dinheiro? Não posso parar enquanto ainda me deixam trabalhar. É que já há rumores que nos fecham outra vez». O desespero na voz, os olhos marejados de lágrimas. «Nunca tive Covid e, no entanto, nunca me senti tão mal, nunca tomei tantos medicamentos»

77 anos. Perdeu 20 quilos nos últimos 20 meses. Não dorme. Mal come. Exames atrás de exames. Consultas a vários médicos de várias especialidades. Nenhum resultado relevante. Deixou de sair de casa. Vai por curtos períodos apenas ao supermercado no prédio ao lado e à farmácia. «Não consigo andar na rua com máscara. Tenho muita dificuldade em respirar com a máscara colocada. Por isso não posso sair de casa.»

Vive sozinha. Não vê ninguém. Não convive. Auto-isolou-se e deixou-se ficar abandonada. Embora viva, é um espectro do que foi. O medo que lhe inculcam, está a enterrá-la em vida dentro da própria casa.

O que nos estão a fazer?

Somos o país com maior percentagem de população vacinada do mundo e, paradoxalmente, na ausência de obrigatoriedade de uso de máscara ao ar livre, só se vê gente com máscara na rua. Porquê? Porque temos a campanha de terror mais bem montada da história da comunicação social portuguesa.

Porque somos o país onde apenas há uma verdade autorizada a circular. Porque somos um país em que se perdeu o direito ao contraditório. Porque somos um país em que se têm violado sucessivamente os direitos dos cidadãos.

As campanhas de terror quanto mais tempo duram, mais vítimas fazem, de forma indiscriminada. As campanhas de terror semeiam o medo, a violência, a discórdia e o ódio entre os seres humanos.

As campanhas de terror beneficiam uma minoria, prejudicando gravemente uma vasta maioria.

As campanhas de terror nunca acabam bem.

Dita-nos o mais elementar bom senso que numa situação de crise devemos evitar o pânico. O pânico destrói mais do que a própria crise. É o que fazemos aos nossos familiares e amigos quando os vemos num momento de aflição. É algo básico. É uma das regras fundamentais na gestão de multidões, seja por autoridades sanitárias, forças policiais ou pela proteção civil. Os tão afamados especialistas de tudo e mais alguma coisa desrespeitaram em absoluto uma regra tão elementar.

Ainda hoje não compreendo como o presidente da OMS, autoridade máxima da saúde pública a nível mundial, desrespeitou de forma repetida nos seus discursos a regra que alicerça a gestão de qualquer crise. O resultado de tal desrespeito está à vista.

Alguém decidiu inovar e fazer uma gestão experimental desta pandemia e em vez de escolher acalmar decidiu que o caminho era difundir o pânico. Todos nós somos vítimas desse alguém (ou “alguéns”).

Trata-se de violência no que a violência tem de mais profundo, a violência disfarçada, porque é violento o que nos estão a fazer!