Terão lugar ao longo desta semana intensas comemorações do 75º aniversário do D-Day, o épico desembarque na Normandia das tropas aliadas britânicas, americanas e canadianas, a 6 de Junho de 1944. O programa detalhado pode ser encontrado aqui.

No âmbito deste aniversário, vai também ocorrer uma visita de estado ao Reino Unido do Presidente norte-americano, Donald Trump. Esta visita tem sido alvo de inúmeras críticas, dentro e fora do Reino Unido. Vale a pena reflectir sobre esse fenómeno.

Não sou nem nuca fui um admirador do Presidente Trump. Desagrada-me o seu impulsivo estilo televisivo. Vejo sobretudo com crescente preocupação o hábito de não abotoar o casaco — que não é inteiramente compensado pelo saudável hábito de usar gravata.

Apesar destas (e de algumas outras) profundas discordâncias, não tenho dificuldade em reconhecer que é o Presidente democraticamente eleito dos EUA. E só posso, por esta razão, saudar a muito louvável decisão de efectuar uma visita de estado ao Reino Unido no 75º aniversário do D-Day.

Não creio que seja muito difícil distinguir entre as nossas preferências políticas particulares e o reconhecimento de que o chefe de estado americano, qualquer que ele seja, representa a nação americana — que é e sempre foi uma aliada crucial da democracia na Europa.

A não ser que a (legítima) hostilidade política contra Donald Trump esteja gradualmente a transformar-se numa manifestação de algo mais fundo e mais grave: o profundo anti-americanismo que dominou no século XX largos sectores da esquerda e da direita anti-democráticas na Europa.

É sabido que o anti-americanismo na Europa teve no século XX uma das suas principais fontes no marxismo e no comunismo — que descreviam a América como a capital mundial do capitalismo e do chamado imperialismo. Mas é hoje menos conhecido o anti-americanismo que dominou sectores importantes da direita europeia anti-democrática e anti-liberal.

Martin Heidegger, o filósofo alemão que inicialmente apoiou o nazismo, era a este respeito bastante claro. Em 1935, ele escrevia que “a Europa está hoje ameaçada por uma grande tenaz, com a Rússia de um lado e a América de outro”. Em 1942 foi ainda mais claro: “O Bolchevismo é apenas uma variante do Americanismo. O Americanismo é a mais perigosa forma de ausência de limites, porque aparece na forma de um modo de vida democrático de classe média, misturado com Cristianismo, tudo isto numa atmosfera completamente destituída de sentido histórico”. Em rigor, Heidegger chegou a defender que algum diálogo com o Marxismo era possível, devido ao sentido histórico que Marx herdara de Hegel. Mas não era possível com o Americanismo — devido à “total ausência de sentido histórico.”

Este género de hostilidade à democracia americana teve depois seguimento em vários autores europeus, alegadamente de esquerda, e basicamente profundos admiradores de Heidegger: Herbert Marcuse (que fora seu aluno), Jean Baudrillard, Theodor Adorno e Jacques Derrida, entre outros.

O anti-americanismo destes sectores da direita e da esquerda anti-democráticas deve ser contrastado com a atitude do conservador-liberal Winston Churchill. Ele argumentou longamente sobre a importância crucial para a causa democrática no mundo daquilo que gostava de designar por “relação especial” entre o Reino Unido e os EUA. O último dos seus mais de 20 livros foi dedicado à História dos Povos de Língua Inglesa. Foi também aquele que esteve mais tempo em preparação. Começou a trabalhar no projecto do livro no final de 1932. E o primeiro dos quatro volumes só viu a luz do dia em 1956. Entre as inúmeras passagens dedicadas à “relação especial anglo-americana, escreveu Churchill em 1939:

“Os arquitectos da Constituição americana, à semelhança dos que foram dando forma à Constituição britânica, tiveram o cuidado de prevenir que a vida e fortuna da nação, as suas leis e a sua liberdade, não seriam colocadas nas mão de um tirano. Freios e contra-pesos no corpo político, larga devolução do governo do Estado, instrumentos e processos de debate livre, recurso frequente a princípios primeiros, direito de oposição aos governos mais poderosos, e acima de tudo incessante vigilância, têm preservado e continuarão a preservar as características gerais das instituições britânicas e americanas.”

Talvez não fosse pior recordar estas palavras de Churchill na semana em que vamos comemorar os 75 anos do D-Day.