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D de desmazelo /premium

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Se alguém procedesse à contabilidade dos estragos de dimensão nacional pelo “deixa andar–esqueci-me–tanto faz–logo se vê–espera-se um bocadinho–não há-de ser nada”, chegaria a resultados devastadores.

1. O D era de Dezanove e era por aí que eu teria ido. Pelo ano novo com a sua certeza da “incerteza”, já um cliché, e um mar de dúvidas, todas más, aliás. O meu D hoje é porém imperativamente outro. É um D de Desmazelo, Desleixo, Desorganização. E vai para séculos

É certo que as aspirações e desejos de colunistas, colunáveis e tutti quanti para 2019 comovem mais, transpiram bons sentimentos, falam ao coração. Quem não se enleva com a “paz” (mesmo sabendo-se que a partir da instrução primária ninguém normalmente constituído pode evocá-la com verosimilhança) pela “felicidade” , como se ela fosse um objectivo, pela “fraternidade” como se o mundo estivesse para aí virado. Serei mais modesta, pedindo singelamente um abaixamento do nível do desmazelo de norte a sul, ilhas incluídas. Uma descida mesmo que pequena (“grão a grão…”), e talvez houvesse inversão de marcha.  Irrealismo? Farto irrealismo, claro. Mas não retiro o pedido.

2. É um imenso e já antigo mistério que ninguém pareça atribuir às consequências do nosso triunfante desleixo qualquer espécie de importância. Ou de vergonha, convivendo o país em grande harmonia com as diversas caras, fórmulas e formas – das mais comezinhas às mais irresponsáveis – que ele assume. As cartas ficam sem resposta, as chamadas caem, os recados esquecem-se, os prazos expiram; o canalizador depois de jurar que vinha não veio e não avisou que não vinha; o “venho já” à porta das lojas pode eternizar-se; os multibancos nos feriados não têm dinheiro porque alguém se esqueceu que era feriado e, quando se lembrou, achou a data indiferente; os aviões quando aterram não têm a escada à espera como se a “aeronave” fosse um engenho chinês vindo do lado obscuro da lua; as escadas rolantes do metropolitano sofrem de avarias com estarrecedora frequência; nos serviços públicos pode suceder que todos almocem ao mesmo tempo, ficando os guichets desertos; as obras públicas (ou privadas) são bruscamente interrompidas sem pré-aviso de recomeço, deixando restos, lixo e pedras na via pública. Por “tempo indeterminado” e haverá melhor convite ao desleixo que a “indeterminação”?

Trivial isto tudo, dir-me-ão, é uma forma de vida e assim ficamos. Continuando como até aqui a comer este pão requentado.

3. Sim é uma forma de vida (nem conheço outra desde que nasci) e cá estou. Mas eu ainda é como o outro, Portugal, não. Se alguém procedesse à contabilidade dos estragos de dimensão nacional pelo “deixa andar–esqueci-me–tanto faz–logo se vê–espera-se um bocadinho–não há-de ser nada”, chegaria a resultados devastadores. Chegaria, sim. Nuns casos os seus efeitos deslaçam o país, noutros atrasam-no ainda mais e não é agora em canalizadores ou escadas rolantes que penso mas em desenvolvimento e crescimento. Por outras palavras, em responsabilidade. Como neste caso que vos conto, por exemplo: uma grande empresa, criadora de emprego, riqueza para os portugueses e bom nome para o país, pediu em tempos autorização para construir mais uma fábrica, ao mesmo tempo que a pedia também num determinado país europeu. Menos de dois anos depois a fábrica estava em funcionamento na “Europa” enquanto a resposta portuguesa se atrasava, capturada por uma velhíssima (genética?) soma de atrasos, burocracia descomandada, mudanças de decisores, troca de directores, perda de documentos, hesitações paralisantes. Quantos outros casos haverá destes, ancorando Portugal num perímetro de actuação modestamente atractivo e pouco confiável? Quantos mais exemplos de improdutivos “impedimentos” existirão entre nós, exclusivamente provocados não por decisivos argumentos estratégicos mas pelo mais atávico desmazelo em todas as suas grandes, médias ou pequenas vertentes? Coartando de uma penada um robusto desenvolvimento, uma capacidade resposta pronta, gente mais responsável, um país cívico.

4. E agora o pior e o pior hoje não é o que acima disse, nem sequer o embaraçantemente desmazelado folhetim-non-stop — Tancos. Também não é o descobrir-se de repente que quando é preciso um meio de intervenção ele se encontra placidamente “fora de serviço”, nem ainda as fábricas ou empresas que não se licenciam pelas más razões. Falo de dois emblemas do país, ex-libris da cultura, da história, da identidade portuguesa como são a Biblioteca Nacional e o Museu Nacional de Arte Antiga. Instituições com tanta importância e (suposto) prestígio que possuem ambas a palavra “nacional” na sua designação. E no entanto….

E no entanto não vivem, sobrevivem. Podiam crescer, mas estiolam. Deviam vicejar mas esmorecem. Não sei se foi maior a pena ou vergonha quando há dias soube da demissão de António Felipe Pimentel, director do MNAA, e do seu director adjunto, José Alberto Seabra de Carvalho: heroicos soldados cansados de luta tão inglória onde na última década combateram mais do que podiam (e deviam), com a magnífica equipa do museu. Acreditem porém que este estado de coisas não radica apenas no retumbante despropósito de algumas leis ou na ancestral falta de meios do país pobre que somos, mas também no “deixar andar” do país que não deveríamos ser. Vergonha sim e no caso da Biblioteca Nacional, também. O desleixo com que institucionalmente se lida com o que ela deveria representar e significar tem uma imensa quota parte na explicação do estado de coisas que por lá vigora. Nem tudo é dinheiro mas quase tudo é respeito, seriedade e responsabilidade.

5. Se há uma leveza estonteantemente populista em quem preside e muito jogo de cintura em quem governa, isto de que acima falei não são só “eles”, somos nós. Nós portugueses. Nós todos. Praticamos o desmazelo com afinco e nele consentimos com grande afã. Uma pena. Uma pena que em Dezanove eu gostaria que voasse para longe.

Agora que entramos em 2019...

...é bom ter presente o importante que este ano pode ser. E quando vivemos tempos novos e confusos sentimos mais a importância de uma informação que marca a diferença – uma diferença que o Observador tem vindo a fazer há quase cinco anos. Maio de 2014 foi ainda ontem, mas já parece imenso tempo, como todos os dias nos fazem sentir todos os que já são parte da nossa imensa comunidade de leitores. Não fazemos jornalismo para sermos apenas mais um órgão de informação. Não valeria a pena. Fazemos para informar com sentido crítico, relatar mas também explicar, ser útil mas também ser incómodo, ser os primeiros a noticiar mas sobretudo ser os mais exigentes a escrutinar todos os poderes, sem excepção e sem medo. Este jornalismo só é sustentável se contarmos com o apoio dos nossos leitores, pois tem um preço, que é também o preço da liberdade – a sua liberdade de se informar de forma plural e de poder pensar pela sua cabeça.

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