Sexta-feira foi o 1º de maio, há uma semana o 25 de abril; daqui a dias vai ser o 13 de maio e há duas semanas foi fim-de-semana de Páscoa.

Todos estes são momentos de comemoração, de celebração e de partilha de valores entre milhões de pessoas. Para algumas mais uns, mais outros para outras, mas indubitavelmente todos com forte significado e vontade de dar a cada data a solenidade que todas merecem.

Lembrei-me, com esta sucessão de datas e respectivas celebrações, de uma pergunta que fazíamos muito, entre nós alunos de Direito interessados em política, na sempiterna Universidade Católica: “és de Direita ou de Esquerda?”. E, depois da frequente resposta “sei lá”, passava-se à pergunta seguinte: “se tivesses de escolher entre liberdade e igualdade, qual preferias?” E quantas discussões de horas sem fim isto dava, porque, se se escolhia igualdade tal significava que se era de Esquerda,  mas se a preferida fosse a liberdade então era-se de Direita… Eu escolhi sempre e imediatamente a liberdade, talvez por ter sido sempre uma pequena burguesita privilegiada, ou simplesmente porque tenho mesmo para mim uma necessidade vital de liberdade (de expressão, de opinião, de comportamentos e escolhas de vida ou, nem que seja a liberdade de me prender ou comprometer assim abdicando de uma parte dela). E nunca compreendi, nem compreendo hoje quem, podendo, abdicasse da liberdade sua ou dos outros em troca da igualdade de todos. E isto sem prescindir do sem número de argumentos inteligentes, lógicos e válidos para as escolhas pela igualdade… (Ah se pudéssemos escolher as duas…)

Quando fui crescendo, fui percebendo que só as margens radicais dos extremos podem fazer a escolha simplista entre uma ou outra. E eu, escolhendo sempre a liberdade, sei que no mundo tem de se lutar muito por muitas igualdades: de direitos, de deveres, de oportunidades, etc…

Mas hoje, olho para as decisões dos órgãos de soberania — sem excepção — sobre as celebrações de todas estas datas e não vislumbro no nosso país nada do que com tanto fervor teoricamente discutíamos. Vejo uma Páscoa com igrejas e sinagogas fechadas — e que nem se falasse na possibilidade de as abrir nesse dia, ainda que cumprindo regras de desinfeção, distanciamento social ou de etiqueta respiratória!

Vejo, menos de duas semanas depois, a segunda figura deste Estado dizer que o 25 de abril se vai comemorar como sempre e sem pessoas mascaradas. Depois, alguém há de ter intervindo e explicado que aquilo não parecia bem, e fez-se a cerimónia, mais ou menos no cumprimento das regras sanitárias que a DGS determinou. Mas festejou-se! E o nosso Cardeal Patriarca, que não tinha podido celebrar a Páscoa, até esteve presente na Assembleia da República, vá-se lá perceber porquê ou para que efeitos.

E passa uma semana. Ainda em estado de emergência, com todas as regras de confinamento em pleno vigor, acrescidas da proibição de deslocação de pessoas para fora dos seus concelhos de residência, e vê-se duas manifestações do 1o de Maio, em plenas Alameda D Afonso Henriques e Avenida dos Aliados, organizadas pela CGTP, autorizadas pela tutela e acompanhadas e vigiadas por elementos de segurança pública. Sempre mostrando as imagens televisionadas uma espécie de distanciamento social dentro do relvado da Alameda. Só que — não se percebe como — ali ao lado, vê-se um ror de camionetas de passageiros, a largar e a recolher almas vindas do Seixal e de outros feudos da referida Intersindical, concelhos de onde tinham saído com destino a Lisboa, munidos de um simples documento emitido pela CGTP que as acompanhava.

Já as comemorações das aparições em Fátima, a 13 de maio, estão absolutamente proibidas, estando o recinto fechado aos fiéis, seja em que condições for. Ora nessa altura já não estaremos sequer em estado de emergência e muito menos confinados aos nossos concelhos, razão pela qual esta proibição é tão ilógica quanto infundada. Mas é assim que está determinado.

E assim regresso às minhas tertúlias da faculdade: é que aquilo que vemos é que, entre os nossos governantes, não se defende a igualdade nem a liberdade. Defende-se aquilo que politicamente lhes vai ser útil ou cuja moeda de troca possa vir a ser relevante.

Triste país o nosso!