As pessoas só são ansiosas porque fogem dos problemas. E só se deprimem porque aqueles de quem gostam não percebem “um caracol” daquilo que elas sentem; e, por causa disso, cada tristeza que vivam expõe-nas a mais outro desamparo. Ansiedade e depressão são sempre um exercício de sabedoria. Debaixo da ansiedade vive o medo. Paredes-meias com a depressão uma solidão que se intromete.
E, no entanto, somos todos muito próximos uns dos outros. Convivemos e conversamos. Partilhamos gostos mas jogamos mais do que devíamos com tudo o que sentimos. As nossas vidas cruzam-se em muitas caminhadas. E as personagens que acabamos por criar ganham tamanha autonomia que, na maior parte das vezes, parecem ser nós. Mas, por pudor – às vezes, talvez por teimosia – evitamo-nos conhecer. E, por isso, de omissão em omissão, aquilo de que fugimos de perceber, traz-nos ao medo. E a forma como evitamos falar do que sentimos empurra-nos para a sensação de que, por mais que acompanhados, estamos sós.
Por causa da veleidade de sermos Deus sem que ninguém se aperceba de tamanha vaidade, criámos a ideia que seremos tanto melhores quanto mais controlamos os sentimentos com que costuramos os nossos sentidos com aquilo que sentimos. As ideias, que, livremente, de associação em associação, despontam dentro de nós. As imagens, que, de mãos dadas umas nas outras, constroem os símbolos com que criamos as metáforas (e que poucas vezes desconstruímos). E a fantasia, que enreda e encena a capacidade inacreditável com que, como um livro em que se viaja, a vida se transforma em histórias. O que nos põe a todos a transformar ansiedade e depressão em bodes expiatórios. Como se fugir delas fosse quase o mesmo que viver sem elas. A forma como fazemos por nos controlarmos em vez de pensarmos connosco e pensarmos com os outros, sempre que falamos com eles, alimenta uma ideia de domínio sobre tudo o que sentimos que é um atentado à sabedoria e à beleza. E, também, à liberdade.
É a forma como fugimos do que pensamos quando sentimos que cria o desapontamento. E é o desapontamento que se acumula que faz com que do medo se fuja para os braços da solidão.