Estas eleições, tal como as autárquicas do ano passado, não criaram um novo ciclo, mas dúvidas sobre a possibilidade de um novo ciclo.

O PS ficou à frente, com 31% e a três pontos percentuais da coligação PSD-CDS, mas muito longe do desempenho de 2004, quando, com 46%, pôs a aliança de direita a doze pontos de distância, apesar de a “austeridade” não ir então além de um congelamento de salários da função pública. É a prova de que cortes de ordenados e reformas não chegam só por si para fazer crescer oposições.

A Aliança Portugal vai dizer que jamais poderia ganhar e que as eleições estavam “lixadas” há muito tempo. Bem: o Partido Popular, no governo em Espanha, ganhou. É verdade que em Espanha não houve resgate, mas o desemprego é maior. Em suma, pôr o país a endividar-se outra vez no estrangeiro também não chega para fortalecer governos.

Mas ninguém vai aprender nada com estas eleições. Seguro pôde esconder-se atrás da “derrota” da direita, que serviu, acima de tudo, para diluir a profunda desilusão do resultado socialista (o que não escapou a António Costa). O governo preferiu lembrar-se que o PS, em 2009, perdeu as europeias, mas ganhou as legislativas. O PCP provou que o seu bloco de votos sindicalizados e municipalizados ainda funciona. O BE arranjou maneira de ficar satisfeito: a imagem da noite televisiva é a de uma Catarina Martins eufórica, ao mesmo tempo que a legenda no écran informava que “o BE deve perder 2 eurodeputados”. E finalmente, temos Marinho Pinto, a quem todos começaram logo a tratar como uma pessoa conhecida, sem conotações de “extrema-direita”, para tranquilidade geral. Até a abstenção se conservou nas dezenas já tradicionais, sem escândalos eslovacos.

Ah, como é doce a vida política num país onde ninguém sabe o que é uma derrota. Em suma, tudo sugere que esta crise, até agora, não fez o regime encontrar os seus limites.