O debate entre António José Seguro e André Ventura deixou claro o que está à vista de todos há muito e que é o vazio que tanto um como o outro representam. Seguro não é um socialista radical, menos ainda perigoso, porque pouco diz e menos ainda decide. Nem relativamente à possibilidade (hipotética) de o governo português replicar a iniciativa espanhola de, numa penada só, legalizar meio milhão de imigrantes mostrou saber o que fazer. O “mas, desculpe, como é que o presidente intervém aí”, não é resposta que um candidato presidencial possa dar num sistema semipresidencialista. Foi um lapso, dir-me-ão. Mas um lapso que nos recorda o “é fazer as contas” de António Guterres. São lapsos, mas não deixam também de ser sinais.
Mas o maior vazio que o debate demonstrou foi o de André Ventura. O homem anda há tanto tempo com a máscara do fascista que socialistas e alguns comentadores lhe colocaram que até parecia que havia algo naquela persona política. Ora, o debate mostrou à evidência que não. E não, não foi só a proposta do Procurador-Geral da República ser escolhido pelos seus pares. Foi durante todo o debate. Não se ouviu uma proposta com pés e cabeça, nada que não seja aumentar pensões, salários, subsídios, baixar impostos e prender bandidos. O vazio é de tal forma que António José Seguro compreendeu o que os seus apoiantes da extrema-esquerda e alguns que se intitulam representantes do centro-direita ainda não perceberam: que Ventura não é fascista nenhum, mas sim um pobre-diabo que descobriu uma forma de chamar a atenção e subir os degraus do poder político. Ao dirigir-se a Ventura no debate dizendo que “é necessário que nós mantenhamos um clima de relacionamento institucional. O senhor é presidente de um partido em Portugal que eu respeito democraticamente”, Seguro não faz mais que normalizar Ventura e o seu partido.
A normalização de Ventura é um problema para o PS (que deu cobertura à personagem por necessidade própria), e para alguns que no centro-direita se querem assumir como cavaleiros andantes da moral política. Na verdade, Ventura não passa de uma figura que ele e parte dos seus adversários aproveitaram para empolar e ganharem o seu quinhão. O líder do Chega porque, dessa forma, só tem de criticar; os outros porque, dessa maneira, só têm de lhe apontar o dedo. Quanto a soluções, nicles. Ou porque não as têm ou porque são difíceis, as razões são inúmeras. O que interessa é que andamos há anos atrás de um fantasma que desvia as atenções para a incapacidade de PS e PSD fazerem reformas.
É claro que números como os que Ventura representa não duram para sempre. Há um momento em que a máscara cai ou o manto sai de cima (como preferirem) e o que é evidente fica à vista de todos. Ventura é um populista demagogo que, uma vez no poder e sem nada para oferecer, vai passar por cima das instituições e falar directamente com o povo, ao jeito dos populistas tão em voga ultimamente. Se o sistema político (ou o regime) aguenta o abanão ou acorda de vez é outra coisa. O que é claro como a água é que se não acertarmos no diagnóstico não seremos bem-sucedidos na cura.