Rádio Observador

Caso José Sócrates

E se Sócrates decidir contar tudo? /premium

Autor
  • Miguel Pinheiro
4.363

Se, de facto, José Sócrates é aquilo que o Ministério Público diz, então conhecerá os subterrâneos do regime. Para salvar o seu legado político, resta-lhe contar tudo. Nomes, nomes e mais nomes.

1. José Sócrates está como Napoleão depois da batalha de Waterloo — mantém a megalomania, mas perdeu as tropas. De repente, em poucas semanas, ficou irrecuperavelmente sozinho.

Na Justiça, José Sócrates ficou sem a proteção do segredo. A divulgação dos seus interrogatórios na SIC espalhou pelo ar as suspeitas e as acusações do Ministério Público, com som e imagem, limitando dramaticamente a sua capacidade de negar os indícios que foram apresentados e de politizar as intenções dos magistrados. Esse é o poder devastador da televisão: ver é diferente de ler; e ouvir é diferente de intuir.

Na imprensa, Sócrates foi abandonado por comentadores atrás de comentadores, numa ruidosa sucessão, ficando sem o arsenal mediático que dava oxigénio aos argumentos e às conspirações que lhe permitiam propagar slogans e evitar explicações.

Na praça pública, Sócrates foi exposto por amigos e pela ex-namorada, tornando-se assim num leproso social que ninguém defende e todos evitam.

Na política, Sócrates foi execrado pelo seu partido, o que o deixou a planar sobre um vazio, sem legitimidade, sem rectaguarda e sem narrativa. Para viver, a sua defesa precisava desesperadamente de inimigos políticos; mas, para sobreviver, precisa igualmente de amigos políticos. Quando queremos dividir o mundo entre “nós” e “eles”, não basta ter os segundos — é preciso ter os primeiros.

No seu mundo de fantasia, José Sócrates acha que ainda existe uma última via de preservação: os militantes socialistas. Dentro da confusa cabeça de Sócrates, os dirigentes do PS traíram-no, mas as bases continuam a seu lado, sólidas e solidárias. É por isso que já está a ser organizado um almoço, para os próximos dias, do “Movimento Cívico José Sócrates Sempre”, onde são esperadas 200 pessoas. Desta vez, com muita persistência e persuasão, talvez as 200 pessoas apareçam. Mas, em breve, Sócrates irá chocar contra o muro da realidade: a pouco e pouco, as 200 pessoas vão transformar-se em 100, depois em 50, depois em 20, depois em 10 — até restar apenas Sócrates e um ou dois indefectíveis, que permanecerão a seu lado por teimosia ou hábito.

Neste momento, por pura táctica, o PS ainda repete que “Sócrates deixou uma marca muito positiva como primeiro-ministro”, mas, dentro de muito pouco tempo, quando a máquina do partido terminar o seu trabalho de afastamento e destruição, não sobrará nada do governo de José Sócrates, nem daquilo que ele entende ser o seu legado político.

Mesmo que o Ministério Público não consiga provar as acusações em tribunal, mesmo que ele seja absolvido, depois de tudo o que se passou nos últimos dias Sócrates ficará na história como um corrupto, como um mentiroso, como um venal. Só lhe resta, portanto, uma saída: contar tudo. Se, de facto, José Sócrates é aquilo que o Ministério Público diz, então conhecerá muitíssimo bem os subterrâneos do regime. Quem recebeu o quê? De quem? Em troca de quê? Nomes, nomes e mais nomes.

Se Sócrates falasse, não seria por cálculo jurídico nem por estratégia eleitoral. Seria por vaidade — ele próprio confessou nos interrogatórios que foi a “vaidade” que sempre o motivou na política. Ao sentir que querem fazer dele o único corrupto de Portugal, Sócrates pode querer provar que havia mais, e havia muitos.

2. A história é conhecida. Um dia, ao aproximar-se uma terrível tempestade de uma aldeia, a polícia emitiu um alerta de evacuação pela rádio. Um católico devoto ouviu o aviso mas decidiu ficar em casa e pensou: “Tenho fé em Deus. Se eu estiver em perigo, Ele vai mandar-me um sinal”.

Meia hora depois, já com a água a entrar-lhe pela porta, dois vizinhos num bote tocaram à campainha e ofereceram-se para o levar. O homem recusou a ajuda e pensou: “Tenho fé em Deus. Se eu estiver em perigo, Ele vai mandar-me um sinal”.

Ao fim de uma hora, quando já se tinha refugiado no telhado para escapar às cheias, apareceu um helicóptero dos bombeiros. O homem mandou-o embora e pensou: “Tenho fé em Deus. Se eu estiver em perigo, Ele vai mandar-me um sinal”.

Ao fim de pouco tempo, as águas atingiram o telhado e arrastaram o homem, que se afogou. Ao chegar ao Céu, o católico devoto encontrou Deus e queixou-se: “Deus, tive fé em Ti. Se eu corria perigo, porque é que não me mandaste um sinal?”. Perplexo, Deus respondeu-lhe: “Como assim? Eu mandei-te um alerta pela rádio, um bote e um helicóptero. Estavas à espera de mais?”

O PS parece este infeliz católico. Para o prevenir contra José Sócrates, a Ética Republicana enviou-lhe o Freeport, o caso Cova da Beira, as casas da Guarda e as trapalhadas da licenciatura. Mesmo assim, os socialistas elegeram-no secretário-geral e protegeram-no como primeiro-ministro. Estavam à espera de mais? Sim: aparentemente, estavam à espera que o Observador desse uma notícia sobre as offshores de Manuel Pinho.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: mpinheiro@observador.pt
Rui Rio

Os explosivos votos em branco de Rui Rio /premium

Miguel Pinheiro

Sem o combustível da luta política, os votos em branco são apenas uma curiosidade. Além de criar artificialmente um novo problema ao regime, Rui Rio quer colocar-lhe um cinto de explosivos.

Igualdade de Género

O CDS fecha-se na casa de banho /premium

Miguel Pinheiro
1.427

À esquerda, há muitos devaneios relativos à igualdade de género que o CDS podia criticar. Mas, neste caso, preferiu criar um mundo de fantasia para poder ficcionar uma guerra cultural que não existe.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)