Em Julho de 2025, o Departamento de Energia dos Estados Unidos da América (EUA) publicou o relatório intitulado “Uma Revisão Crítica dos Impactos das Emissões de Gases com Efeito de Estufa no Clima dos Estados Unidos” (“A Critical Review of Impacts of Greenhouse Gas Emissions on the U.S. Climate”). No prefácio do documento, o secretário de Energia, Chris Wright, reconhece que o fenómeno das alterações climáticas “é real e merece atenção”, mas sublinha que “não é a maior ameaça à humanidade” e que deve ser encarado como um “desafio”, e não como uma “catástrofe”.

Segundo o jurisfilósofo belga Drieu Godefridi, o relatório apresenta duas conclusões principais: a resposta mais racional às alterações climáticas é a adaptação, a qual pressupõe criação de riqueza e progresso tecnológico; e os danos causados pelo aquecimento global são muito menos devastadores do que aqueles resultantes de políticas climáticas equivocadas.

Na minha opinião, Godefridi, um revisor especialista e autor de recomendações e relatórios para o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), elaborou até agora o resumo mais esclarecedor do relatório do Departamento de Energia dos EUA, no qual expressa a sua esperança de que o mesmo se torne no funeral do “eco-catastrofismo”. No seu artigo, o autor do livro The Green Reich sustenta que o documento evidencia pelo menos seis realidades ignoradas pela chamada “ideologia das alterações climáticas”, que descreve como um culto disposto a impor sacrifícios à humanidade sob o pretexto de “salvar o clima”: o aquecimento global não tem um impacto económico considerável; as emissões de CO₂ têm efeitos negligenciáveis; os fenómenos climáticos extremos não se estão a tornar mais frequentes; o CO₂ também gera efeitos benéficos; os modelos climáticos apresentam inúmeras limitações; e persistem significativas incertezas científicas quanto às políticas climáticas mais eficazes.

No presente artigo, centrar-me-ei na primeira constatação, admitindo, porém, a minha concordância com uma das críticas que poderão ser dirigidas ao relatório, que é a ausência de referências concretas a exemplos de adaptação das sociedades humanas e da economia ao clima.

A influência negligenciável das alterações climáticas no crescimento económico

Em primeiro lugar, o relatório vai ao encontro do que o IPCC declarou no seu 5.º Relatório de Avaliação quanto ao impacto praticamente insignificante das alterações climáticas na economia. De facto, no capítulo B (Riscos Futuros e Oportunidades de Adaptação), mais concretamente no subcapítulo B-2 (Riscos Sectoriais e Potencial de Adaptação), lê-se que as alterações populacionais, a estrutura etária, os rendimentos, a tecnologia, os preços relativos, o estilo de vida, os regulamentos e a governação têm impactos muito maiores do que as alterações climáticas (pág. 19).

Recordando que tanto a generalidade dos economistas como o 5.º Relatório do IPCC consideram o clima um “factor não importante no crescimento económico”, os autores do relatório chegam mesmo a afirmar que é muito heterodoxo, na economia do clima, defender que os efeitos negativos (mínimos) do aquecimento provocado pelo CO₂ na economia justifiquem qualquer política de mitigação ou de travagem das alterações climáticas (pág. 116). Aliás, acrescentam que tais políticas acabam, na sua maioria, por serem contraproducentes.

O relatório cita ainda um estudo de 2023 segundo o qual os choques de clima quente têm pequenos efeitos negativos nas economias de cada estado dos EUA, mas nunca no rendimento, enquanto os choques de clima frio produzem impactos negativos quatro vezes maiores nessas duas variáveis. Assim, a conclusão desse estudo é que a transição para condições climatéricas mais quentes poderá “trazer, quando muito, um benefício económico geral aos Estados Unidos”. O mesmo estudo aponta ainda que o aquecimento tem beneficiado os sectores financeiro e segurador (pág. 117).

Talvez o segundo parágrafo completo da página 120 do relatório seja o mais politicamente enviesado, dado que aí os autores consideram a declaração de “emergência climática” pelo ex-presidente Joe Biden incoerente com a informação de que a sua administração dispunha em 2023. De facto, a figura 11.2, extraída de um relatório elaborado ainda durante o seu mandato pelo Council of Economic Advisers e pelo Office of Management and Budget, apresenta um gráfico cuja linha negra representa a média de uma dúzia de estudos, todos revistos por pares (“peer-review”) relativos à diminuição do Produto Interno Bruto (PIB) por grau de aquecimento. Segundo o gráfico, essa diminuição mal excede 1%, o que constitui, é difícl discordar, uma variação pouco significativa (pág. 120).

Já em 2013, um estudo produzido e divulgado pela Heritage Foundation, da autoria de David Kreutzer, apresentou três metodologias alternativas para estimar o impacto do aquecimento (local e/ou global) na economia:

a comparação do rendimento per capita de vários países com as suas temperaturas médias;

o recurso a modelos de actividade económica compostos por equações que estimam os impactos do aquecimento em vários sectores da economia;

a análise de um conjunto de países durante um período relativamente longo, considerando tanto os impactos positivos como negativos no rendimento e no PIB, bem como as variações anuais de temperatura.

Convencidos de que o primeiro método é vulnerável à crítica da preponderância de governos disfuncionais em regiões mais frias, e de que o segundo método é suscetível a enviesamentos resultantes da escolha das variáveis incluídas, os autores optam pela terceira metodologia, utilizada por Melissa Dell, Benjamin F. Jones e Benjamin A. Olken (Julho de 2012). Tendo analisado 125 países ao longo de 55 anos, os investigadores descobriram que os países com rendimentos acima da média não sofreram qualquer impacto económico devido ao aquecimento, enquanto os países com rendimentos abaixo da média registaram um decréscimo de 1,3 pontos percentuais na taxa de crescimento por cada grau Celsius de aumento de temperatura.

Portanto, a partir de um determinado nível de desenvolvimento económico, os efeitos do aquecimento ou das alterações climáticas são, no mínimo, neutros, e não negativos, para os países. Os estudos mencionados no “A Critical Review of Impacts of Greenhouse Gas Emissions on the U.S. Climate” que seguem uma metodologia semelhante chegam a conclusões muito próximas, alguns chegando mesmo a revelar impactos positivos das alterações climáticas no desenvolvimento económico.

O economista Oren Cass, fundador do think-tank American Compass, advertiu, em Março de 2018, que é comum as pesquisas sobre os custos climáticos futuros para os Estados Unidos sugerirem uma relação irreal entre clima e crescimento económico. Referindo-se a um relatório que ele próprio produziu em 2018, que está resumido neste seu artigo e no próprio sumário do relatório, Cass afirma que tanto a Agência de Protecção Ambiental dos EUA como o U.S. Government Accountability Office, que é um órgão não-partidário do governo norte-americano, incorrem na imprudência de se basearem em estudos que fazem projeções pouco rigorosas sobre o número de mortes, as horas de trabalho perdidas e a diminuição da produção económica resultantes do aquecimento global antropogénico.

Modelos econométricos e informação histórica 

Os autores do “A Critical Review of Impacts of Greenhouse Gas Emissions on the U.S. Climate” analisam também alguns modelos econométricos que utilizam dados históricos, como temperatura, rendimento e crescimento económico, para estimar o impacto das alterações climáticas na economia até ao presente.

Em primeiro lugar, mencionam dois estudos com conclusões mais pessimistas sobre os efeitos das alterações climáticas na economia. Um deles é o de Dell, Jones e Olken (2012), também conhecido como DJO12, que analisou a variação anual da temperatura e da precipitação entre 1950 e 2003 em diversos países. De acordo com o estudo original (cujos painéis A e B apresentam os países considerados, embora sem quantificação explícita, que eu me tenha apercebido), os autores concluíram que o aumento das temperaturas tem efeitos significativos no crescimento económico dos países pobres, tanto no crescimento como no rendimento, mas efeitos menores ou quase nulos nos países ricos (pág. 119).

Os autores do relatório do Departmento de Energia dos EUA, contudo, apresentam estudos que contestam a solidez das conclusões do DJO12. Um desses é o de Burke e Hsiang (Outubro de 2015), que também recorre a séries históricas e painéis de países, e cuja conclusão principal é que as alterações climáticas exercem efeitos negativos no crescimento económico tanto dos países pobres como dos países ricos, especialmente quando as temperaturas médias nacionais ultrapassam os 13 °C (pág. 119). Este estudo é referido pelo economista Oren Cass, num artigo que resume o conteúdo de um relatório seu, publicado em 2018, como um exemplo de estimativa “absurda”, por “ignorar a capacidade da sociedade humana para a adaptação”, um ponto que eu retomarei mais adiante.

Passamos para os estudos mais optimistas. Dois estudos mais recentes, um de 2021 e outro de 2023, foram mais longe, concluindo que a temperatura não tem qualquer efeito no crescimento económico, ou, pelo menos, nenhum efeito de longo prazo, embora possa exercer um impacto de curto prazo nos níveis de rendimento. Outros dois estudos, ambos publicados em 2023, questionaram a distinção feita pelo DJO12 entre “países ricos” e “países pobres”, argumentando que tal categorização é instável ao longo do tempo e demasiado heterogénea, uma vez que os países podem transitar entre grupos de rendimento.

A metodologia adotada no estudo de Berg, Curtis e Nelson (Junho de 2023) baseou-se no agrupamento de vários países em painéis, tal como no DJO12 e no estudo de Burke e Hsiang, segundo o seu coeficiente de resposta à temperatura (isto é, a quantificação de como uma variável económica reage a variações de temperatura). Com base nisso, os autores estimaram as respostas de cada grupo de países aos choques de temperatura globais e locais. Chegaram a duas conclusões principais (pág. 119):

os países que inicialmente registam efeitos negativos do aquecimento no crescimento económico tendem, com o tempo, a inverter essa tendência, passando a experimentar efeitos positivos;

as variações globais de temperatura têm maior probabilidade de beneficiar o crescimento económico dos países mais pobres do que o dos países ricos.

A importância da adaptação: o que o relatório poderia ter abordado mais 

Outra lacuna apontada por Cass, tanto no seu artigo como no seu relatório, de forma mais detalhada, é a tendência da própria administração pública norte-americana em ignorar a capacidade de adaptação humana. Embora “A Critical Review of Impacts of Greenhouse Gas Emissions on the U.S. Climate” apresente uma literatura científica robusta sobre o impacto do clima na economia, dedica-se apenas de forma muito superficial à adaptação ao clima, uma das razões pelas quais a influência climática é frequentemente menorizada no caso das determinantes do comportamento económico de uma nação ou um estado. Esta talvez seja a crítica mais lúcida ao relatório elaborado pelos cinco cientistas.

É necessário ter cuidado para não confundir os efeitos temporários de uma variação de temperatura com mudanças nos padrões térmicos de longo prazo. Por exemplo, o facto de as pessoas não adquirirem aparelhos de ar condicionado num dia em que a temperatura atinge 32 °C num determinado ano não implica que não o façam caso se verifiquem 40 dias com essa temperatura num outro ano. De forma análoga, os habitantes de um espaço urbano não reagem da mesma forma a um dia extremamente quente em 2020 que em 2100.

Independentemente de esses espaços aquecerem ou não, parte-se do pressuposto de que os avanços económicos e tecnológicos tornarão as cidades e os seus habitantes mais resilientes a níveis extremos de temperatura. Um dos estudos mencionados por Cass revela uma prudência, aparentemente pouco comum, na avaliação da relação entre temperaturas elevadas e mortalidade. Ao analisarem como a temperatura e a mortalidade interagiram ao longo do tempo, os investigadores descobriram que, entre 1968 e 2022, a taxa de mortalidade em dias quentes decresceu de forma significativa. Concluíram que os equipamentos de ar condicionado foram cruciais para tornar os EUA mais resistentes às mortes provocadas pelo calor resultante das alterações climáticas.

Conclusão 

Diante da crescente popularidade da ambição de neutralidade carbónica (net-zero), presente em várias políticas climáticas, como o Pacto Ecológico Europeu (European Green Deal), é importante esclarecer o público sobre até que ponto nós, seres humanos, podemos lidar com as alterações climáticas. Além disso, o fenómeno deve ser descrito de forma rigorosa, para evitar alarmismos e impedir a adopção de políticas, mesmo bem-intencionadas, que possam ser completamente prejudiciais ao nosso bem-estar e ao estilo de vida a que estamos habituados. Uma forma de contribuir para isso é não exagerar o impacto real do clima sobre a economia.