Só alguém sem referências e padrões morais é que não consegue condenar o homicídio do activista e empreendedor Charlie Kirk. O que também considero abominável é a frequência com que se celebra a sua morte ou se o caracteriza como “odioso” imediatamente após o seu falecimento (perdi grande parte do meu respeito por Amanda Seyfried), como se ele fosse Augusto Pinochet ou Abimael Guzmán (conhecido pelo nome de guerra Presidente Gonzalo). Já tinha sido revoltante ler os comentários do actor brasileiro Zé de Abreu a comemorar a morte de Olavo de Carvalho.

Também me preocupa a popularidade das restrições à liberdade de associação e de expressão no meio académico norte-americano, bem como a tendência de alguns em equiparar a cultura de cancelamento à exigência de que qualquer figura de autoridade não permaneça no cargo se celebrar a morte de uma pessoa pacífica. Isto sugere que, nos Estados Unidos da América (EUA), os conservadores poderiam estar a aderir à cultura de cancelamento — conclusão que considero desprovida de sentido.

As equivalências erradas

Não é compatível com a boa-fé nem com a vontade de prosseguir a verdade que um cientista de dados, como David Shor, seja despedido de uma consultora por divulgar as conclusões da investigação do cientista político Omar Wasow, que demonstram que os protestos violentos tendem a ter efeitos negativos na promoção e concretização de objectivos progressistas. Acresce que Shor chegou a ser acusado de “se aproveitar da sua ansiedade e do seu intelecto” como meios para marginalizar a comunidade negra nos EUA.

Também não é propriamente iluminista que um professor universitário, como Greg Patton, seja despedido por explicar, numa aula de comunicação, que, enquanto os conectores ou palavras de preenchimento preferidos pelos norte-americanos são “err”, “umm” e “youknow”, o conector mais comummente utilizado pelos chineses é “nà ge”. O problema levantado foi que “nà ge”, no contexto referido, soa de forma semelhante à palavra inglesa “nigga”.

Nenhum destes dois episódios é normal. Nada disso merece o respeito de conservadores, libertários ou de qualquer pessoa minimamente comprometida com a defesa da liberdade e do progresso. Infelizmente, estes acontecimentos fazem parte de uma sequência de atropelos ao avanço científico e ao combate à ignorância e à superstição, muitas vezes defendida, mais ou menos abertamente, pela esquerda norte-americana. Trata-se de um triunfo parcial da cultura de cancelamento.

Por outro lado, se um professor do ensino básico ou secundário celebra a morte de um pai de aluno, é previsível e compreensível que os encarregados de educação contactem o diretor para exigir medidas. Se um pastor de uma igreja calvinista começasse a convidar os fiéis a participar na eucaristia, os responsáveis pela supervisão estratégica e espiritual teriam pleno direito de lhe impedir a continuidade nos serviços. E se eu me dirigir de forma insultuosa ao meu patrão, ele tem todo o direito de não renovar o contrato ou até de me despedir antecipadamente.

Partilho, por isso, a indignação de Daniel Buck com as sugestões que circulam na imprensa norte-americana (e, muito provavelmente, internacional) de que os conservadores, ao defenderem o despedimento e/ou a ostracização social dos que celebraram o homicídio de Charlie Kirk, estariam a aderir à cultura de cancelamento.

Assim como Buck, não esperaria outro desfecho senão o despedimento de um professor do 3.º ciclo, no estado do Oregon, se este tivesse publicado na sua página de Facebook que o assassínio de Charlie Kirk tinha “iluminado o seu dia” (“brightened up his day”). Felizmente, o mesmo aconteceu com uma professora universitária da Middle Tennessee State University, quando escreveu na mesma rede social: “Parece que o velho Charlie criou o seu destino. Ódio gera ódio. Sem compaixão” (“Looks like ol’ Charlie spoke his fate into existence. Hate begets hate. ZERO sympathy.”).

É o que se espera de uma sociedade minimamente civilizada: reconhecer que pessoas assim não merecem a responsabilidade de ensinar os mais novos a tornarem-se adultos virtuosos, íntegros e justos. Não apenas pela falta de imparcialidade, mas também pela apologia de atos grosseiros e repugnantes da humanidade.

A bola de neve da violência política nas universidades norte-americanas

Num artigo publicado em 1982, intitulado “Broken Windows”, o cientista político e criminólogo James Q. Wilson, em parceria com o seu colega George Kelling, apresentou a sua “teoria da janela partida”: os sinais mínimos de desordem, como o grafitti, o vandalismo ou a embriaguez em público, transmitem a ideia de ausência de aplicação ou de fiscalização, funcionando como convite a violações em maior número ou de maior gravidade. Para Tal Fortang, investigador de Direito ligado ao Manhattan Institute e ao Civitas Institute (da Universidade de Austin, no Texas), esta teoria é aplicável ao que acontece actualmente nas universidades norte-americanas, onde as fronteiras entre os comportamentos aceitáveis e inaceitáveis são cada vez mais nebulosas e onde a prática de atos ilícitos se tornou relativamente notória, precisamente porque as normas não são (devidamente) aplicadas.

O assassínio de Charlie Kirk pode muito bem ser interpretado como uma manifestação da teoria da janela partida nas instituições de ensino superior dos EUA: é plausível argumentar que constituiu a “última de uma série de tentativas à margem da lei para impedir Kirk e outras figuras semelhantes de partilharem a sua mensagem”. O activista começou por marcar presença em contextos litigiosos de forma ocasional, mas rapidamente se tornou assíduo. Reuniu inúmeros fãs e admiradores, mas também foi alvo de hostilidade persistente. Várias das suas palestras e eventos foram alvo de tentativas de cancelamento e de perturbações, com provocações deliberadas que impediam a audiência de ouvir devidamente os oradores ou de colocar questões. A sua organização, a Turning Point USA, via os seus balcões regularmente vandalizados, os seus embaixadores eram fisicamente agredidos e, quando as universidades anfitriãs não conseguiam garantir níveis mínimos de segurança, os eventos acabavam cancelados. E, se não se aprender com os erros do passado (próximo ou distante) e não forem tomadas medidas, o mesmo ou algo semelhante poderá vir a acontecer com Erika Kirk, que assumiu a liderança da Turning Point USA após a morte do marido, ou com outra figura pública.

É importante sublinhar que a responsabilidade pela morte de Charlie Kirk cabe exclusivamente ao assassino. Apenas ele deve ser julgado por este crime hediondo. Contudo, não se pode deixar de apontar responsabilidades àqueles que, desde o início, deveriam ter clarificado a fronteira entre a crítica legítima à atenção concedida pelas universidades a ativistas conservadores ou libertários e o fanatismo que consiste em criar condições para inviabilizar a realização de eventos ou, pelo menos, em dificultá-los deliberadamente. Ainda mais quando a etapa final desse processo pode culminar em homicídio. Pode até existir um consenso de que os actos descritos no parágrafo anterior são inaceitáveis e condenáveis, mas a verdade é que foram tolerados. Os estudantes envolvidos em atos de vandalismo e violência, que representaram um incómodo absolutamente desnecessário para quem se limitava a expor ideias em ambiente académico, não foram expulsos, suspensos ou alvo de qualquer outra sanção. A violação dos princípios de um debate livre de coerção era intolerável, mas foi tolerada, a tal ponto que a violência acabou por se tornar uma possibilidade concebível.

A apologia da violência no meio estudantil norte-americano

De acordo com os dados do 2026 College Free Speech Rankings, um estudo baseado numa amostra de cerca de 68 mil estudantes provenientes de aproximadamente 250 universidades norte-americanas, produzido e divulgado pela Fundação para os Direitos Individuais na Educação e citado por Fortang, 34% dos estudantes universitários admitem que a violência para impedir alguém de discursar numa universidade é legítima em alguns casos. Quanto ao valor que atribuem à liberdade de colocar dúvidas e expor a sua própria opinião sobre a matéria lecionada, ou de confrontarem as suas experiências, visões e observações com as dos oradores, 28% confessam praticar autocensura durante as discussões em sala de aula. Ainda mais alarmante: 72% afirmam que, em determinadas circunstâncias, impedir um palestrante de falar numa universidade é admissível.

Num artigo publicado no website do American Enterprise Institute, o cientista político Samuel J. Abrams apresenta os resultados de um inquérito realizado pelo Instituto Buckley, que contou com uma amostra de 820 estudantes norte-americanos com menos de 25 anos, recolhida entre 5 e 14 de setembro de 2025. De acordo com essa pesquisa, 39% dos estudantes concordam que a violência física pode ser justificada para impedir alguém de fazer um discurso considerado de ódio ou simplesmente com conteúdo racial. Quase metade (48%) considera aceitável cancelar ou interromper um orador numa universidade.

Se a tradição americana assenta na inviolabilidade da liberdade de expressão, na necessidade de responder a um discurso com outro discurso, e não com intimidação ou violência coletiva, tanto os dados empíricos como a experiência pessoal de um professor universitário como Abrams sugerem que muitos jovens da minha geração, do outro lado do Atlântico e com imersão no meio académico, estão a perder a fé nos princípios fundacionais da vida democrática. E isso deveria ser motivo de grande preocupação. Afinal, numa sala de aula, muitos estudantes já admitem que existem circunstâncias em que a violência é necessária para chamar atenção a determinadas causas ou provocar mudanças.

“Discurso é violência”

Também é alarmante constatar que, segundo o inquérito da Buckley Foundation, mais de metade (53%) dos estudantes norte-americanos se sentem intimidados em partilhar as suas ideias, opiniões ou crenças nas aulas por estas divergirem das dos professores. A diferença entre grupos ideológicos é pequena: 59% dos conservadores, 54% dos moderados e 51% dos liberais/progressistas afirmam sentir essa intimidação.

Quanto à afirmação “comentários políticos com que discordam podem ser prejudiciais para a saúde mental”, 38% dos inquiridos concordaram. Aqui, a disparidade ideológica é mais evidente: apenas 27% dos conservadores e 31% dos moderados subscrevem esta ideia, contra 48% dos estudantes liberais/progressistas.

Estão assim reunidas as condições para que a violência passe a ser entendida como uma resposta legítima ao discurso. Se o discurso pode ser equiparado a violência, ou considerado violento em si mesmo, então torna-se “virtuoso” cancelar eventos e palestras de oradores, pensadores e ativistas cujas ideias sejam vistas como “ofensivas” ou “nocivas”. Daí até justificar o assassínio de alguém apenas por exercer o seu direito à liberdade de expressão vai uma distância muito menor do que se pensa. Os estragos já estão a alastrar e já privam alguns dos mais corajosos e independentes de espírito da sua vida e da sua paz.

Conclusão

Acredito que não existe uma solução única e definitiva para os problemas que tantos se apressam a diagnosticar. Contudo, sempre que se torna evidente que um estado ou uma sociedade atravessa um processo de decadência, é imperativo apresentar e aplicar recomendações com a maior urgência possível.

Em primeiro lugar, é necessário garantir que não há impunidade, como tem havido, para os responsáveis. O que é intolerável é o cancelamento, bem como o recurso à violência verbal ou física para impedir oradores de cumprirem aquilo a que se comprometeram com as suas audiências. Talvez ainda não haja, como observa Tal Fortang, clareza suficiente sobre que grupos, indivíduos ou ideologias carregam a principal responsabilidade por este estado de coisas, que criou condições para o assassínio de um dos conservadores mais ilustres dos EUA. Mas já há cada vez menos desculpas para falhar o alvo.

Em segundo lugar, embora muitos alunos, académicos e outros possam considerá-lo um ponto secundário ou mesmo irrelevante, a liberdade de expressão deve ser ensinada e defendida. Só assim se evita que instituições mintam acerca das normas e virtudes cívicas que os indivíduos devem cultivar numa república constitucional e livre como a dos EUA. É também neste ponto que Abrams insiste.

Em terceiro lugar, o aspeto relacional é fundamental. Basta recordar a proporção de estudantes universitários norte-americanos que receiam assumir publicamente discordâncias com os seus professores, ou que chegam a considerar prejudicial para a saúde ouvir um discurso com cujo conteúdo discordam. É por isso que Abrams sublinha a importância de os estudantes socializarem mais e conhecerem melhor colegas com diferentes mundivisões, ideologias e filosofias de vida.

Além disso, os diretores das instituições de ensino devem exercer a sua autoridade para que a voz da razão prevaleça sobre a das multidões agressivas, autoritárias e irracionais.

Se os EUA e, por extensão, o mundo inteiro, reconhecerem os padrões que têm assolado algumas das suas instituições, bastará a força de vontade para se manterem enquanto sociedades saudáveis, prósperas e inspiradoras. Ainda há forma de travar a bola de neve. Quanto mais jovens da minha geração compreenderem que a paz, a integridade física e a vida não podem ser sacrificadas em nome do discurso, mais facilmente distinguirão a cultura de cancelamento de medidas de bom senso. Despedir pessoas por celebrarem a morte de alguém que apenas inspirava milhões a elevarem-se e a exprimirem as suas ideias não é cultura de cancelamento, mas sim uma exigência moral para distinguir o bem do mal.

Exigir respeito quando discursamos ou expomos opiniões numa sala de aula, conferência, palestra ou debate é essencial para manter comunidades salutares, robustas e em constante desenvolvimento. Não, os conservadores não estão a aderir à cultura de cancelamento. Estão, isso sim, a ripostar — e ainda têm razão. Em memória de Charlie Kirk e de David Horowitz, que faleceu este ano e que compreenderia perfeitamente o conteúdo deste artigo.