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Qualquer mercado é um processo de interação humana de troca voluntária de bens e serviços. Mutatis mutandis, todas as ações humanas que tenham como objeto relações de troca constituem mercados. Estes não se configuram somente como espaços físicos onde vendedores e consumidores se encontram para realizarem operações de compra e venda: são o próprio processo que conduz a esse resultado, que pode ocorrer em qualquer lugar, físico ou virtual, e incidir sobre todo o tipo de bens ou serviços transacionáveis. Deste modo, existe um infindável número hipotético de mercados, como os de bens agrícolas, carros, seguros, casas, serviços de limpeza ou de saúde, produtos financeiros, vinho, transportes de mercadorias e pessoas, jogo, sexo, armas ou droga.

Sejam lícitas ou ilícitas as transações operadas, incidam elas sobre bens materiais, imateriais ou serviços, tenham alto ou baixo valor, em todos os mercados existem sempre duas polaridades necessárias: vendedores e compradores; aqueles que oferecem bens e produtos e os que estão dispostos a pagar por eles o valor que venha a ser acordado pelas partes, medido pelo meio de compensação ou pagamento que ambos aceitem. Desse modo, poderemos trocar um carro por dinheiro ou por um terreno, por uma casa, uma barra de ouro, sacos de sal, de especiarias, ou por uma noite num casino. O meio de pagamento será aquele que o vendedor aceitar como idóneo, do mesmo modo que o comprador entregará o valor que lhe for pedido e do qual estiver disposto a prescindir, qualquer que seja a unidade de conta utilizada, desde que consensualmente aceite pelas partes. Finalmente, o objetivo último de qualquer processo de mercado é sempre a redução do desconforto individual, ou seja, o aumento do bem-estar próprio, subjetivamente mensurado por cada interveniente na relação.

Nestes termos, também o processo político eleitoral democrático constitui um mercado. Desde que seja livre e não coagido por forças terceiras, como sucede em regimes autoritários ou ditatoriais, onde as liberdades de escolha e de oferta política são inexistentes ou muito controladas. Mas onde elas prevalecerem, isto é, se qualquer cidadão puder eleger e ser eleito, e, sozinho ou com outros, não estiver impedido de propor programas políticos próprios e alternativos aos seus concidadãos, escolhendo estes, em liberdade, as propostas que mais lhes agradarem, teremos um verdadeiro mercado político.

Nesse espaço social e comunitário transacionam-se os objetivos, as finalidades e o modo da prestação dos serviços que competem aos diferentes órgãos da estrutura de poder do Estado (Governo, Parlamento, Tribunais, Polícias, etc.), cuja finalidade está em garantir aos consumidores a melhor qualidade das políticas públicas de segurança, justiça, saúde, educação, defesa, etc.. A ideia originária do «contrato social» dos iluministas e liberais clássicos era esta: os cidadãos estabelecem um aparelho de poder que lhes garanta um conjunto de bens essenciais à sua existência e prosperidade – segurança, vida, propriedade, justiça, etc. –, e, em contrapartida, pagam impostos e acatam a autoridade do aparelho de poder instituído. Alguém terá de protagonizar, por via de mandato representativo e temporalmente limitado, a execução e determinação substantiva do conteúdo dessas funções. Nas democracias, a oferta e prestação destes serviços cabe a grupos de cidadãos legalmente organizados em partidos políticos. Por sua vez, os consumidores são os cidadãos eleitores que, pelo exercício do direito de voto, mandatam (contratam ou delegam), por um período limitado de tempo (legislatura, mandato presidencial, autárquico, etc.), esses grupos e os seus dirigentes, para que exerçam as funções soberanas do Estado, em atenção ao cumprimento dos objetivos por si desejados. Findo o período do mandato legalmente estabelecido, os cidadãos são convocados a renovar, em eleições, o contrato com os prestadores em exercício, ou com outros que lhes ofereçam garantias mais robustas de que o farão melhor e ao encontro das preferências maioritárias do momento.

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As escolhas dos eleitores obedecem, também, a dois outros princípios fundamentais do mercado: a preferência de bens principais sobre os sucedâneos e a utilidade marginal. O primeiro princípio diz-nos que, a custo igual ou equivalente, os consumidores tendem a preferir o que é original ao que é imitação. O segundo, que o consumo sucessivo de iguais unidades do mesmo bem conduz à redução da sua valorização subjetiva: se eu viver num país com um elevado nível de educação, tenderei a beneficiar as propostas que me ofereçam mais saúde ou segurança, se estes bens sociais forem deficitários nesse momento; se beneficiar de uma sociedade segura e com elevado nível de celeridade e qualidade da justiça, procurarei quem me ofereça a edificação de mais infraestruturas, se estas forem menos desenvolvidas, ou melhor educação e saúde, caso sejam rudimentares aquelas de que disponho.

Os partidos e os projetos políticos obterão mais sucesso quanto conseguirem convincentemente oferecer aos cidadãos aquilo que eles, num determinado momento, mais valorizam e pelo que estão disponíveis a trocar o seu voto. Como em qualquer mercado, o sucesso de um projeto político será tanto maior quanto melhor conseguir antecipar essas necessidades. Imagine-se uma eleição num país onde a qualidade da saúde pública é sofrível, a justiça, lenta, o desemprego elevado e o nível médio de rendimentos muito baixo; onde a segurança começa, nalgumas parcelas do território, a falhar; e, ainda por cima, nesse nefasto país, os impostos são elevadíssimos. Se alguém se candidatar, neste contexto, a um cargo público relevante, certamente que o seu poder de sedução sobre os eleitores será diminuto se lhes oferecer, para o desempenho dos cargos a que se candidata, a construção de mais uma autoestrada, de um fontanário na maior praça da capital, um conjunto de rotundas rodoviárias floridas e com estátuas dos comendadores locais, políticas públicas que envolvam mais tributação. Mas se, em contrapartida, o foco da mensagem política incidir sobre as questões de segurança e a elevada carga fiscal, sobre a falta de qualidade dos serviços públicos ou a rutura do sistema estatal de saúde ou de educação, a probabilidade de êxito será consideravelmente maior.

Em Portugal o mercado político e partidário (praticamente coisas sinónimas) está em profunda convulsão. Tendo sido, durante décadas, um oligopólio protegido pela Constituição e pelas regras do sufrágio, somente em duas ocasiões esse bloco monolítico foi efetivamente abalado: pelo PRD, de Ramalho Eanes, e, mais recentemente, pelo Bloco de Esquerda. Ainda assim, não se tratavam de genuínos challengers, porque o PRD nasceu na Presidência da República e o Bloco da fusão de velhos partidos da extrema-esquerda, mas que já estavam há muito integrados no sistema político. O que se passa com o Chega e a IL é diferente.

Esses dois partidos oferecem aos eleitores o que os outros, até agora, independentemente dos motivos e da bondade das propostas, se recusaram oferecer, e que tem uma procura crescente, como os três últimos atos eleitorais bem demonstraram. Por exemplo, o controlo e a segurança migratória, a fiscalização de certas minorias, o reforço securitário e das leis penais, o desmantelamento de parte considerável do Estado Social, a redução drástica da carga fiscal, a privatização substancial da saúde e da educação, a liberalização total da economia.

Configuram-se como produtos de matriz ideológica clara e diferenciada: liberalismo político e económico, por um lado, e conservadorismo ultramontano, por outro.

Transmitem uma mensagem de mudança profunda do sistema económico, no caso da IL, e até de rutura total com o sistema político e o regime constitucional, no caso do Chega.

Não desiludiram, até ao momento, os seus eleitores, que mais não seja, por falta de tempo de vida.

Nessa medida, entre o anacronismo ideológico do CDS e do PSD, agravado pela ausência de lideranças agregadoras, e partidos novos e de rutura com o que desagrada a um crescente número de eleitores, o que tenderão estes a escolher? Continuando o PSD a ser uma quase-cópia do partido socialista original e insistindo o CDS em comportar-se como um nado-morto que só estrebucha para exibir as suas misérias internas, por que razão continuarão os eleitores a confiar-lhes o seu voto?