São cada vez mais as vozes que apostam num longo período de paralisia política após as eleições de quinta-feira 7 de Maio. Todas as sondagens concordam: conservadores e trabalhistas estão virtualmente empatados. O resultado é imprevisível e o futuro imediato indefinido. Em causa está muito mais do que a tradicional eleição de representantes de um país, neste caso do Reino Unido, e a consequente escolha de um governo.

Na próxima quinta-feira, é o “english establishment” – o regime político inglês – que está em causa, escreve Robert Tombs no Newstatesmen, como nunca esteve desde que em 1640 os escoceses ameaçavam a coroa de Carlos I (e Portugal se livrava dos Filipes). O que está em causa é Westminster e a tradicional partilha do poder entre “tories” e trabalhistas; é a hipótese de um parlamento paralisado, um governo sem maioria estável; é a legitimidade e autoridade da classe política, como em quase todo o mundo ocidental; é a manutenção dos actuais líderes; é o possível referendo à continuidade do Reino Unido na União Europeia (UE); é o peso damoclesiano de um partido escocês estruturalmente independentista, a ameaçar o “scotexit” (do Reino), e de um partido britânico independentista, somado à indecisão de David Cameron, a ameaçar o “britexit” (da UE); é a economia, entre a austeridade – e a suspeita de novos cortes dos tories – e a dúvida da capacidade dos trabalhistas em controlar despesas.

Na próxima quinta-feira está em causa o futuro do regime político inglês, a presença do Reino Unido na UE, a continuação do Reino unido, o futuro dos ingleses e dos europeus. Os jornais ingleses já escolheram: o Economist apoia Cameron, primeiro-ministro e líder dos “tories”, o Guardian escolhe o trabalhista Ed Miliband.  O que pode então suceder?

O mais provável, apesar de tudo, parece ser a vitória conservadora por pequena diferença. São necessários 326 deputados para uma maioria nos Comuns e as sondagens mais recentes apontam para 265 a 275 eleitos por trabalhistas e conservadores (ligeira vantagem destes).

No caso de uma vitória conservadora curta, a solução de governo pode ser a renovação da coligação com os liberais-democratas de Nick Clegg (após a renúncia de Gordon Brown em 2010, Cameron e Clegg formaram o primeiro governo de coligação no Reino Unido desde a 2ª Guerra). Mas a experiência aconselha cautela e não é certo que “tories” e liberais estejam dispostos a repeti-la. Opõem-se os mais conservadores entre os conservadores (caso do influente comité 1922, constituído sobretudo pelos chamados “backbenchers”) e há vozes discordantes entre os liberais, contra o referendo à continuidade do Reino Unido na UE, mantido em aberto por Clegg. Sem esse acordo, David Cameron pode tentar governar em minoria, nem que seja para obter a repetição das eleições. A jogada é arriscada, mas Cameron joga neste escrutínio o seu futuro como líder do partido (o polémico Boris Johnson, mayor de Londres, está à espreita).

Se vencerem os trabalhistas, fica também longe de resolvido o problema. Ed Miliband pode receber o apoio dos liberais, pois Clegg afirma-se equidistante dos favoritos e disponível para negociar com o vencedor, ainda que a sua aposta principal pareça ser renovar a coligação com os “tories”. Haveria ainda a possível aliança com o partido nacional escocês, agora de Nicola Sturgeon, polémica por colocar os independentistas no coração da governação britânica e com capacidade para influenciar os termos da devolução de poderes ou, até, futuras evoluções no sentido da independência; mas o pacto a que Cameron chamou “diabólico” por destruir a nação foi rejeitado publicamente há uma semana por Miliband. É carta fora do baralho (?).

Entre as muitas consequências das eleições de quinta-feira, dois assuntos predominam e merecem (deviam merecer) toda a atenção. Um é a continuidade do Reino Unido na União, a que chamarei por facilidade de linguagem referendo europeu, o outro a continuidade da Escócia no Reino Unido, o referendo escocês (os leitores talvez partilhem o meu espanto pelo pouco que se falou do primeiro na campanha). Eis a leitura possível das consequências das várias alternativas, sem naturalmente presumir dos resultados dos referidos referendos:

Os conservadores vencem com minoria e coligam-se com os liberais (e talvez com o partido unionista do Ulster ou até o UKIP): o referendo europeu é certo, segue-se o referendo escocês. Ou os conservadores vencem e governam em minoria: prováveis, num prazo curto, novas eleições, com os “tories” a esperar obter maioria. Seriam essas as eleições decisivas, claro.

Vencem os trabalhistas e coligam-se com os liberais e/ou o SNP (improvável, podendo incluir os verdes): não há referendo europeu ou escocês, mas o grau de devolução de poderes seria importante (maior no caso de uma coligação exclusiva com o SNP). A longo prazo potenciaria o “scotexit”. Ou Miliband exclui um acordo com os parceiros potenciais e arrisca governar sozinho: grande instabilidade do executivo, que dificilmente completaria a legislatura.

Possível mas pouco viável é a hipótese do partido em segundo (sobretudo se for o trabalhista) vir a governar, caso apresente uma solução de governabilidade que o vencedor não assegure.

A única coisa certa é ninguém fazer ideia nenhuma do que se vai passar, escreve James Graham no Guardian: na manhã de 8 de Maio, afirma, muitos virão dizer que sabem alguma coisa, mas não é verdade, ninguém sabe nada… ainda que o próprio Graham escreva – ele sabe – que a 8 de Maio quem controlar a narrativa terá a chave do futuro do Reino Unido. Ganham os “tories” e governam com os lib-dem? Ganham os trabalhistas e governam com os lib-dem? Ganham uns ou outros e governam sozinhos por algum, pouco, tempo, até novas eleições, muitos milhões de libras depois (e depois logo se vê)? Ou fica tudo imobilizado, a Rainha não faz o discurso constitucionalmente obrigatório do dia 27 de Maio e o Reino Unido “belgifica-se”, sem governo para os tempos mais próximos?

E há referendo e ganha a Europa e a união do Reino? Há referendo e perde a Europa e a união do Reino? Não há referendo e ganha a Europa e a união do Reino? Ou não havendo referendo perdem todos, europeus e britânicos?

Assim se joga, numas singelas eleições além-Mancha, o futuro de todos nós, europeus. Tempos estranhos, estes? Mas não foi sempre assim?

Professor do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa