Assim, como num sonho que parece não terminar. Vamos dormindo e vamos acordando intermitentemente e voltamos a sonhar: as mesmas imagens, os mesmos sons, as mesmas sensações, uma e outra vez. Como de um enigma se tratasse e que a todo o custo temos de solucionar ou esperar sermos salvos para então podermos seguir em frente e retomar as nossas vidas. Fechamos os olhos de novo, mas não passa. Assim se assemelham, para muitos, estes dias de já tantas semanas que enfrentamos de medo, de incerteza e imprevisibilidade, de angústia, de ansiedade, confinados a casa ou na linha da frente das batalhas… limitados, sem controlo sobre o nosso futuro.

Os nossos hábitos, restritos e consolidados na vivência automática do dia-a-dia, não conseguem proteger-nos e aquietar-nos diante do confronto com a nossa existência, assim, a ser ameaçada de forma absurda. Não silenciam o pânico que nos assalta, pela nossa susceptibilidade a acontecimentos que podem tornar a nossa vida instantaneamente sem sentido. Estamos em conflito: a nossa procura pelo significado e a aparente aleatoriedade do universo. Momentos haverá, que o experienciamos como esmagador. Mas o resultado desse conflito depende de cada um de nós, das nossas capacidades, das nossas estratégias, dos nossos mecanismos de defesa, da nossa resiliência psicológica.

Os ajustamentos que necessitamos fazer para nos adaptarmos não se conseguem por decreto, nem por estado de emergência nacional. E o corpo e a mente podem gritar, às vezes mesmo que baixinho. Pode ser porque já não conseguimos afastar certos pensamentos que nos amedrontam, porque já não dormimos bem, porque já não conseguimos manter certas rotinas e comportamentos, porque a tensão dentro de nós se expressa em irritabilidade e conflitos com os outros, porque sentimentos de confusão e falta de ânimo nos dificultam as tomadas de decisão, porque a pressão elevada da responsabilidade por cuidar de outros se torna insuportável, porque a solidão é ensurdecedora, porque o coração dispara, porque o medo sentido é imenso…

Aí, algo de incrivelmente corajoso necessita e deve ser feito: pedir ajuda profissional. E apesar da vulnerabilidade pré-pandémica que o Serviço Nacional de Saúde apresenta ao nível da saúde mental, existem hoje respostas nacionais como a Linha de Aconselhamento Psicológico da Linha SNS24, prestada por Psicólogos especialistas e centrada na ajuda e apoio emocional em crise aos cidadãos e aos profissionais de saúde. Noutros contextos e respostas, a ajuda especializada de um Psicólogo pode resultar ainda em oportunidades positivas e metas orientadas para o crescimento como a valorização da criatividade e da realização, criação de significado, relaxamento e atenção plena, mudanças positivas no comportamento em saúde, priorização de objectivos e reconstrução de projecto de vida.

Em tempos de caos como os que vivemos, podem estar as sementes da oportunidade que nos conduzem a novas estratégias, novas respostas a problemas e a ampliação de significados pessoais (e até colectivos). No entanto, isso dependerá em grande parte da nossa capacidade para lidar com a incerteza e de resistir a regressar a hábitos inúteis e não saudáveis, superando-nos. Nem sempre o podemos, tão pouco o teremos, de o fazer sozinhos. Mas sendo mais conscientes de nós próprios, também poderemos conquistar alguns territórios de maior liberdade.