Sem querer remeter os estimados leitores ao primeiro ciclo do ensino básico, proponho que nos  aventuremos no clássico jogo das diferenças. Para começar, apresento uma amostra  representativa das manchetes que marcaram o debate público nos últimos dias, a propósito dos  desacatos em Torre Pacheco, na região espanhola de Múrcia — faço-o sem alterar uma única  vírgula aos textos originais.

• CNN Portugal: “Lançaram uma ‘caça aos magrebinos’ em Espanha. Agora é preciso  ‘evitar uma desgraça terrível’.”

• SIC Notícias: “Grupos extremistas xenófobos atacam imigrantes no sul de Espanha.”

• Expresso: “Grupos de extrema-direita perseguem migrantes em violentos confrontos em  Múrcia após mensagens racistas nas redes sociais: há oito detidos e um ferido. Incidentes  ‘são culpa do VOX’, diz Ministro do Interior.”

• Público: “Grupos xenófobos atacam imigrantes em cidade de Múrcia.”

Compara-se, agora, com a notícia publicada pela casa por onde tenho o hábito de escrever — no  Observador: “Agressão a idoso espoletou apelos a violência e agressões a imigrantes na  localidade de Torre Pacheco, em Múrcia, que tem 30% de imigrantes.”

Caros leitores, conseguiram descobrir a diferença?

Ora, a grande parte da comunicação social nacional, que navega mares e descobre mundos para  contextualizar e educar o indecente, pobre e ignorante cidadão português, optou por, de forma  concertada — como se de um cartel jornalístico se tratasse — omitir o motivo (e, se quisermos ser  mais rigorosos, o contexto) que originou a vaga de violência em Torre Pacheco. Para os leitores  mais desatentos, os habitantes de Torre Pacheco acordaram sobre o renascimento do espírito  nacional-socialista, uma purga de ódio inspirada pelo súbito fervor do American History X, capaz  de arrasar todo e qualquer cidadão estrangeiro que habite terras de nuestros hermanos. Para os  leitores que não se contentam com headlines presumivelmente enganadoras, os habitantes de  Torre Pacheco (cidade com mais de 30% de população imigrante, a maioria de origem  marroquina) acordaram, uma vez mais, com o resultado de uma política de imigração  descontrolada, que proporcionou: em primeiro lugar, o violento espancamento de um idoso de 68  anos, por parte de um grupo de magrebinos, alegadamente para um desafio nas redes sociais; e,  em segundo lugar, a descontrolada e violenta reação popular, que viu o ilegítimo desmoronar da  segurança na sua cidade nos últimos anos (relembrando o ataque terrorista jihadista, por parte de  um marroquino de 30 anos, em 2021 em Torre Pacheco, que vitimou duas pessoas, após ter  atropelado a esplanada de um bar).

O que seria feito a um jornalista português se o mesmo tivesse decidido noticiar os violentos  motins que incendiaram cidades norte-americanas em 2020, sem fazer uma única referência à  morte de George Floyd e respetivas circunstâncias? Que órgão de comunicação social ousaria  generalizar a composição comportamental, ideológica e étnica dos motins que decorreram em  outubro de 2024, na Área Metropolitana de Lisboa — que resultaram, aliás, no ignorado ataque  com recurso a cocktails Molotov a um motorista — sem mencionar a morte de Odair Moniz?

Por que razão, então, devemos aceitar que o juízo de valor do jornalista médio varie em função da  etnia ou ideologia de quem comete atos de violência, e não do rigor que se exige a qualquer  prática séria do quarto poder? Por que razão, então, devemos ser pequenos objetos de  contemplação da subversão intelectual?

Para que fique claro: este não é um convite à relativização da violência indiscriminada. É, sim, um  apelo à honestidade intelectual — aquela que não olha para a pureza de quem pratica atos  condenáveis; que não omite a factualidade em nome da narrativa desejada; que não faz de  determinadas vítimas mais vítimas que outras.

A comunicação social — outrora praticante de jornalismo, hoje um produto de propaganda por  quem deixou de ver no voto popular e democrático o apoio à sua causa ideológica — está  condenada a uma morte lenta, que só não é de rápida conclusão devido às emblemáticas  subvenções estatais. Sobre o deleito da auto-infligida razão, provinda de uma tal superioridade e  virtuosidade moral e, por isso, sem nunca ter dado conta da verdadeira razão do seu fenecimento:  o jornalismo — feito de seres dotados da imperfeição humana — não morre quando erra; morre  quando decide, por livre e orquestrada vontade, errar.