Não me vinculo, nem por militância, nem por afinidade ideológica, ao projeto político da  Iniciativa Liberal ou a qualquer outro projeto político em Portugal. A análise que segue  deve ser lida à margem de simpatias ideológicas e apenas à luz de uma questão maior: a  adequação de quem pretende exercer a mais alta magistratura da Nação.

João Cotrim de Figueiredo foi — e continua a ser — o rosto que deu identidade,  credibilidade e popularidade à Iniciativa Liberal e ao liberalismo em Portugal. O seu  mérito, quer enquanto líder político, quer enquanto político pensante, é inegável. Como  eu, muitos reconhecem a distinção na clareza do seu discurso, a firmeza na defesa dos  ideais liberais e democráticos, a coragem no confronto político, a capacidade de  transformar o técnico em acessível e, acima de tudo, a visão de futuro e de modernização  para um país de arcaica constituição estatal — uma visão de esperança para uma  geração que procura, há muito, essa representação.

No entanto — e não obstante das contradições que afligem incondicionalmente a  natureza do Homem — a política nunca poderá esgotar-se, apenas, nas virtudes e  valências do político que adornam a nossa narrativa. Ao político não se soma, não se  subtrai, não se multiplica: apenas se anula. Ao político espera-se, não só a capacidade de  erguer um projeto e de identificar as profundas carências do país, como a capacidade de  adaptar a vida pessoal à prática política e às necessidades do país, de modo a participar  ativamente na solução dessas mesmas problemáticas, sem nunca transformar o caminho  político na subvertida comodidade pessoal ou profissional. Ao político exige-se,  essencialmente, o sacrifício. Exige-se a visão de quem vê no dever a transcendência  sobre o imediatismo do presente, de modo a assegurar o futuro de algo maior do que si.

Se é verdade que João Cotrim de Figueiredo reúne todas as características políticas que  mencionei há pouco e que lhe são extensamente atribuídas, é verdade, também, que  decidiu abandonar o futuro quando a oportunidade do presente bateu à porta. Por  iniciativa própria e para desalento de muitos eleitores (liberais e não-liberais), decidiu  deixar a liderança da Iniciativa Liberal, colocando o partido numa posição débil,  desconfortável, desconcertante e estranhamente ambígua. Decidiu trocar, não só o  crescimento sustentado do partido, como o sério projeto de futuro que idealizava para  Portugal e que, com a sua saída de cena, tem desvanecido nos últimos anos. Tudo isto,  pela única explicação plausível: a conquista do fundo dourado que abona os corajosos  que se aventuram, perigosamente, nos humildes corredores do Parlamento Europeu —  um verdadeiro espírito de Robin dos Bosques do liberalismo europeu, que fez ao país, ao  partido e aos seus eleitores, o “sacrifício” de trabalhar em Bruxelas. De facto, não é para  qualquer um.

Será que o cansaço de liderar o quarto maior partido do país é inferior ao cansaço de ser  deputado europeu e de liderar, ao mesmo tempo, uma candidatura à Presidência da  República? Será que André Ventura é o único político português que, num curto espaço  de tempo, decidiu candidatar-se a quase todas as instâncias eleitorais disponíveis? Será  que o Chega e o Livre são os únicos partidos em Portugal que não transcendem o peso  político que uma determinada personalidade partidária possui? Será que quem viu na  Europa o mais alto esplendor da defesa do seu país, não merece o cansaço de um país  que, como ele, já viu muitos?

A meu ver, a Presidência da República não é uma plataforma de carreira. Não é uma  estação intermédia. Não é o passatempo de quem se lembrou, de repente, que tem de  preencher os espaços em branco na representação de um determinado eleitorado. A  Presidência da República é o cargo institucional onde o compromisso com a Nação deve  ser absoluto, independentemente da ordem política e ideológica, onde as importantes  palavras que Fernando Pessoa escreveu — e que João Cotrim de Figueiredo citou, sem  grande originalidade — devem ser verdadeiramente praticadas, e não apenas apregoadas  quando procuramos o próximo slogan de fraca feitura para a salvação do país, e  verificamos, ao mesmo tempo, a que horas é que o próximo voo para Bruxelas parte.

Não tenho dúvidas que João Cotrim de Figueiredo terá um ótimo resultado nas eleições  presidenciais e que contará com o apoio de milhares de portugueses. Afinal, se a validade  da ética no plano político português fosse avaliada pelo número de votos obtidos,  seríamos hoje, certamente, o que não somos e queremos ser.